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A relevância da velocidade com que foi produzido o discurso para a definição do ritmo no português foi já apontada no estudo de Abaurre (1981), em que a autora estabelece a relação entre processos fonológicos, como a epêntese e a elisão, e as falas, respectivamente, mais lentas e mais rápidas. A tendência à ocorrência em ritmos mais rápidos também já foi atribuída à elisão por Vigário (1997); entretanto, não foram atribuídos critérios para caracterizar a fala como mais lenta ou mais rápida, nem argumentos para a explicação sobre a forma como a velocidade pode reestruturar padrões rítmicos em uma língua.

Os estudos de Barbosa (2000), Meireles (2009) e Meireles e Silva (2011) tratam da relação da velocidade da fala com o ritmo a partir da “tɲxɲ de elocução”, termo utilizɲdo por Barbosa como tradução da expressão speech rate. Conforme Barbosa (2000, p. 388), é um termo mɲis ɲdequɲdo do que “velocidɲde de fɲlɲ”, visto que ɲ grɲndezɲ de sílɲɳɲs por segundo, utilizada para indicá-la, não representa a velocidade real de deslocamento dos articuladores da fala.

O estudo de Barbosa (2000) tem por principal objetivo atestar o isocronismo, sugerido por Pike (1945), a partir de um modelo de produção do ritmo que considera, pelo menos, dois níveis em uma hierarquia, a saber: o acentual e o silábico. Para o autor, é possível mensurar o isocronismo quando a metodologia considera a maneira como ocorre a influência de um nível rítmico sobre o outro. A tese de seu artigo não considera, pois, o conceito mais radical de isocronismo, apresentado por Abercombrie (1967), em que o isocronismo acentual excluiria totalmente a ocorrência de isocronismo silábico e vice-versa, e apresenta um novo padrão, que combina características dos níveis acentual e silábico, negando o isocronismo absoluto ao revelar a combinação entre isocronismo acentual e silábico.

O papel exercido pela taxa de elocução sobre o ritmo no modelo proposto em seu estudo é, segundo Barbosa (2000, p. 388), crucial, visto que pode acelerar ou desacelerar o oscilador silábico e modificar a relação entre o último e o oscilador acentual. A oscilação é a nomenclatura atribuída pelo autor ao movimento de sucessão de vogais, no caso do oscilador silábico, ou de acentos, no caso do oscilador acentual. O modelo com o qual trabalha considera o acoplamento dos dois tipos de osciladores. Como resultado desta associação, de taxa de elocução com osciladores acoplados, o autor confirma a hipótese de Abaurre (1981), ao comprovar a influência da taxa de elocução sobre ritmo atribuído à determinada produção. Diferente de Abaurre (1981), entretanto, Barbosa (2000) encontrou uma associação entre a taxa de elocução mais lenta e a tendência a fenômenos relacionados ao grupo acentual. Já em comparação com outras línguas, a pesquisa aponta que, em taxas de elocução mais rápidas, o PB é mais silábico, se comparado ao thai e ao inglês britânico, línguas mais acentuais; enquanto o PE, em comparação com as taxas restantes (não lentas e não rápidas), apresentou caráter intermediário, caracterizando-se por ser mais acentual do que o espanhol cubano e menos acentual do que o inglês americano e o sueco.

Em conclusão, atribuindo relevância à relação entre a taxa e o estilo de elocução e o ritmo, o autor atenta para a necessidade de cuidados metodológicos, sem os quais não é possível revelar informações relevantes quanto à tipologia rítmica. Cabe, pois, salientar que é arriscado generalizar as informações de tipologia rítmica, obtidas a partir de uma amostra, como característica geral de uma língua com muitas variedades distintas como o português.

Seguindo o Modelo Dinâmico do Ritmo (BARBOSA, 2006), o estudo de Meireles (2009) corrobora a afirmação de Barbosa (2000) de que o aumento da taxa da elocução altera o ritmo de fala da sentença. Os resultados apresentados pelo autor revelam que o desvio- padrão da duração dos grupos acentuais e das unidades vogal-a-vogal, ou unidades VV – medida utilizada para a taxa de elocução em seu estudo –, é menor em taxas de elocução mais rápidas. Assim, as durações do grupo acentual e da unidade VV apresentam tendência a menor variação com o aumento da taxa de elocução. A constatação é, conforme o autor, uma evidência a favor do caráter misto do ritmo de PB, visto que o padrão rítmico identificado dependerá do acoplamento entre osciladores silábico e acentual.

Assim como ocorre em Barbosa (2000) e Meireles (2009), Meireles e Silva (2011) apresentam um estudo que busca relacionar a taxa de elocução com o ritmo. A novidade da pesquisa proposta pelos autores fica por conta da verificação quanto a influência de variáveis sociais, sobre as quais os resultados podem trazer novas informações relevantes para a presente pesquisa. Para embasar a abordagem social do estudo, os autores recorrem à

Sociofonética (FOLKES, 2006) e à Teoria da Variação Linguística (LABOV, 1972). O objetivo da inserção de variáveis linguísticas em seu estudo é, segundo Meireles e Silva (2011, p. 06), o de verificar até que nível pode chegar a influência do gênero e da faixa etária sobre a modificação da língua, ou seja, se há possibilidade de fatores sociais atingirem aspectos prosódicos como ritmo e taxa de elocução.

A realização da pesquisa contou com corpus obtido a partir da gravação de 11 sentenças, cada uma repetida 10 vezes, por quatro informantes, dentre os quais um homem e uma mulher de idades entre 13 e 17 anos e um homem e uma mulher de idades entre 17 e 22 anos. Foram consideradas três taxas de elocução distintas, a saber: normal, para a qual os informantes foram instruídos a falar de forma confortável; lenta, para a qual foram instruídos a falar o mais devagar possível, preservando a estrutura prosódica da sentença; e rápida, para a qual foram instruídos a falar o mais rápido possível sem introduzir distorções na fala.

Os resultados oferecidos por Meireles e Silva (2011), além de corroborar com Barbosa (2000) e Meireles (2009) sobre a relevância da taxa de elocução para a identificação do ritmo, confirmaram a influência dos fatores sociais na organização rítmica da fala. Com relação à faixa etária, houve um aumento dos valores de VV por grupo acentual, ou seja, taxa de elocução mais alta, entre os informantes da faixa etária entre 17 e 22 anos. Esse resultado foi correlacionado ao fato de que os informantes mais velhos apresentam nível mais avançado de escolaridade e, consequentemente, maior proficiência na leitura, o que ocasionaria realizações prosódicas com maior nível de isocronia acentual ou silábica. No que diz respeito ao gênero, constatou-se uma relação de dependência com a variável idade, visto que cada gênero agrupou um informante de cada faixa etária, causando equilíbrio entre os valores de VV por grupo acentual (aumento e diminuição).

Constatada a relevância da taxa de elocução para a organização rítmica da produção de enunciados e, consequentemente, para a ocorrência de processos como a elisão, para a qual os estudos revelam relação com o ritmo acentual, propõe-se considerar, no presente estudo, a verificação da taxa de elocução entre os informantes que compõem as amostras de Porto Alegre e do Porto. A proposição da taxa de elocução como variável de pesquisa, bem como os aspectos metodológicos para a sua aplicação, será apontada na descrição da metodologia, Capítulo 5 deste estudo.

Sumariando, a revisão dos estudos que abordam os aspectos prosódicos envolvidos no processo de elisão gera questionamentos, os quais o presente estudo pretende abordar. A relevância do domínio prosódico para a aplicação do fenômeno e sua relação com a produção

espontânea constitui, junto à abordagem da taxa de elocução em fala espontânea, o foco da análise. Os aspectos propostos a partir da Teoria da Variação (LABOV, 1972, 1994, 2001), destacados no Capítulo 4 a seguir, complementam a revisão da literatura a partir da qual serão construídas as variáveis deste estudo.