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“Vivido e Experiente” Œ um homem de 45 anos de idade que nasceu no Rio de Janeiro, no bairro Est‡cio, morro de S…o Paulo, bem perto do local onde decorre o desfile das escolas de samba. Nasceu numa famˆlia de 11 irm…os e saiu do morro com a m…e e os irm…os devido • “guerra” entre fac„Žes rivais no comŒrcio de drogas. “Vivido e Experiente” viu muitos de seus amigos de inf”ncia morrerem nessa guerra. Apesar disso, considera a sua vida

tranquila.

Nas falas deste sujeito, chama aten„…o o contexto de vida do morro carioca, nas periferias, marcadas pela violŠncia gerada pelo comŒrcio de drogas, a guerra entre fac„Žes rivais e sustento por meio de roubos. A droga se faz presente na sua trajet†ria de vida desde a adolescŠncia e durante toda a juventude. Come„ou com a maconha e foi experimentando drogas mais pesadas: cocaˆna, LSD, haxixe, crack e assim por diante. “Vivido e Experiente” foi criado pela m…e, seu pai morreu quando ele tinha seis anos de idade e seu irm…o mais velho tambŒm fazia uso de drogas. Vejamos o seu depoimento acerca da sua inf”ncia, juventude e idade adulta:

Inf”ncia no morro Œ muito divertida, Œ bom. Minha vida era praia, futebol e mulher, s† samba, s† isso. Vivi assim atŒ bicho-velho. Usei muita droga, desde os meus 12 anos de idade. Hoje luto para sair, sabe. Mas n…o Œ f‡cil n…o. Com 12 anos, comecei como todo o mundo come„a, com a maconha, depois j‡ tinha cocaˆna, tinha LSD, fazia um ch‡, o tal de cogumelo, quando eu acampava, ia pra uns acampamento aˆ. Acampei muito: Angra dos Reis, B•zios, Cabo Frio, Saquarema, durante os feriados, carnaval, semana santa, s† feriado prolongado. Uma vez saˆmos do Rio pra passar quatro dias a acampar, aˆ fomos pra uma ilha na Angra dos Reis e ficamos quatro meses. Era Œpoca de jovem, Œpoca de jovem a gente faz muita besteira. [...]. Mudei- me do morro h‡ 23 anos. A m…e vendeu a casa do morro porque era muita guerra, Œ a fac„…o rival. Uma encontrava outra e aˆ o bicho pegava. Minha m…e vendeu a casa e fomos morar em Vila Isabel. Muitos amigos meus morreram, n…o chegaram nem aos 15 anos de idade. AlŒm das fac„Žes, eles saˆa pra roubar e aˆ •s vezes n…o voltava mais (“Vivido e Experiente”, agosto de 2010).

J‡ “Sensˆvel, Alegre e Esperan„oso” nasceu num bairro da periferia de Fortaleza. Revela situa„Žes de enfraquecimento dos vˆnculos familiares, devido ao alcoolismo de seu pai, que inviabilizou a convivŠncia conjugal com sua m…e. O uso abusivo de drogas e ‡lcool Œ algo marcante e definidor de toda a sua trajet†ria de vida. Durante toda a adolescŠncia fez uso abusivo de ‡lcool e drogas pesadas e, por conta disso, ficava nas ruas por dias ou semanas com sua galera.

Ap†s a morte do pai quando ele tinha 18 anos, “Sensˆvel, Alegre e Esperan„oso” passou a morar sozinho e foi aumentando ainda mais a quantidade de drogas que usava. Devido a essas situa„Žes, sofreu v‡rias tentativas de assassinatos. As suas falas s…o perpassadas por v‡rias referŠncias afetivas aos pais, pessoas que sempre o apoiaram.

Rapaz, eu nasci no Bom Sucesso, aqui em Fortaleza, no Bom Sucesso. Era sete irm…os, morreu trŠs. S† tenho dois. Cada um convivia nos seus canto. Eu fui criado mais com meu pai. Vivia mais com meu pai. Minha m…e n…o gostava muito do meu pai, porque meu pai tomava umas caninha. Mas ela vinha todos dia, s† que ela n…o dormia em casa. Ela sempre dormia em casa da minha irm…, atŒ hoje ela dorme, nŒ. A casa da minha irm… era de frente, aˆ no Centro, ficava entre a av. Imperador com a Trist…o Gon„alves. Aˆ eu cuidei dele (pai) atŒ a hora de ele morrer. Fiquei na casa, foi aonde que eu comecei me cair mais nas drogas, depois que eu perdi meu pai. A minha m…e criou mais abuso dentro de casa, n…o queria ficar mais dentro de casa

porque se lembrava dele. E ela se passava mal. E eu fiquei dentro da casa s†. S† que a casa que eu ficava s†, eu comecei botar alguns amigos, nŒ, e atravŒs dos amigos eu cai no crack, eu era s† na maconha e atravŒs dos amigos, eu caˆ no crack. Eu era s† na maconha. AtravŒs do amigos eu caˆ no crack. (“Sensˆvel, Alegre e Esperan„oso”, agosto de 2011).

“Convertido e L•cido” Œ outro sujeito que habitou as ruas e revela situa„Žes de pobreza e desfilia„…o familiar devido • morte do pai num primeiro momento e depois com a morte da m…e. Come„ou a trabalhar cedo para ajudar no sustento da casa. As irm…s foram casando. Morando sozinho, foi sobrevivendo de pequenos bicos. Come„ou a fazer uso abusivo de ‡lcool, a praticar pequenos crimes com amigos e optou por viver nas ruas, como a •ltima alternativa em um percurso de vulnerabilidades. Ficou cego devido a uma doen„a, agravada pelo uso abusivo de ‡lcool, o que tornou impossˆvel a sua vida nas ruas.

Nasci numa famˆlia de 7 irm…os, no Henrique Jorge. Meu pai era carroceiro, vendia ‡gua nas casas. Eu ajudava ele, o pai conduzia a carro„a e eu carregava a ‡gua para dentro das casas. Meus pais tinham outra casa no bairro Montese. [...]. Meu pai levou uma pancada quando eu tinha 12 anos, adoeceu da cabe„a e minha m…e decidiu vender a casa no bairro Montese, mas n…o teve jeito. Aˆ, fomos, se mudamos para o Henrique Jorge. L‡ no Henrique Jorge Œ que minha m…e come„ou a lavar roupa, a lavagem de roupa para sustentar n†is, nŒ. Eu ia buscar, ia deixar, ela lavava, engomava. Aˆ minha m…e foi adoecendo, adoecendo. Aˆ n…o tinha mais como minha m…e trabalhar. Aqueles que podiam, eram maior, ajudava em casa. Eu fazia alguma coisa pra ganhar um trocado e n†s se manter. Eu ia buscar a roupa, buscava a ‡gua para ela lavar e ia deixar a roupa. [...] Ai com uns 14, quase 15 anos, minha m…e faleceu do cora„…o. Eu trabalhava de servente, morava sozinho. A casa que os meus pais tinham deixado de heran„a, eu morava sozinho l‡. Eu tava bebendo demais. Tava bebendo nem no copo n…o, s† destampava a garrafa, tava bebendo Œ no gargalo mesmo. Eu saˆ de l‡ porque me desgostei, tava entrando muito vagabundo l‡. Amigos n…o, porque ninguŒm tem amigos, eram conhecidos. Era conhecido meu mesmo. As irm…s, j‡ tinham tudo desbandado. Depois que minha m…e faleceu, ficou eu, a Sueli, a Adriana, a Suelene e o AndrŒ. A CŒlia, j‡ tinha se ajuntado uma vez, se ajuntado, n…o casado. [...] A Suely, essa minha irm… que morava aqui no Maracana•, venderam a casa e deram a minha parte. Compraram um barraco pra mim depois do Vila das Flores. Mas pensa num lugar assim, perigoso, s† mato. E aˆ favela l‡, aˆ compraram um quarto l‡ pra mim, me deram televis…o, fog…o, buj…o, umas panela, umas roupa, mesa, cadeira (“Convertido e L•cido”, mar„o de 2011).

“Outsider” Œ um jovem que habita as ruas, mas com um perfil diferente dos interlocutores desta pesquisa por ser oriundo de uma famˆlia abastada. Contrariamente aos outros personagens entrevistados, este sujeito teve uma inf”ncia tranquila, com v‡rias op„Žes de vida. O •nico fator negativo na sua inf”ncia foi a separa„…o dos pais. H‡ sete anos come„ou a usar droga, vendeu carro, moto e outros objetos de valor, o que acabou lhe rendendo a expuls…o de casa. Apesar de se encontrar em situa„…o de rua, mantŒm vˆnculos com o pai, em circunst”ncias de extrema necessidade como doen„as, perda de documentos. Suas falas s…o fluentes e leves e revelam certo orgulho de sua trajet†ria e estilo de vida.

Sou de Fortaleza. Nasci em 1979 na cidade de Fortaleza, as 24h32min da madrugada de quarta-feira, na cidade linda e maravilhosa. Sou solteiro h‡ oito anos e sou formado em marcenaria. Trabalho com projetos e vidra„aria tambŒm, coisas grandes. S† que eu me envolvi com •chuckberry• 60, aˆ tive que sair de casa. – “Usei muitas coisas e tal, aˆ me atrasei um pouco”. Vivia com minha famˆlia, meus pais. Aˆ moramos aqui um tempo, fomos para Brasˆlia, de l‡ para S…o Paulo, Rio, Pernambuco. A •ltima cidade foi Santa Catarina e aˆ ficamos aqui. Terminei os meus estudos aqui no Benfica, no Christus. Agora to aˆ vivendo nessa vida doida, normal e tudo. Pratiquei jud™. H‡ sete anos que eu uso drogas. Uso crack, cocaˆna, maconha. Eu t™ saindo, n…o quero mais n…o. Quero voltar pra casa, t™ na rua (“Outsider”, agosto de 2010).

As falas destes personagens das ruas revelam trajet†rias de vida marcadas pelo uso abusivo de drogas e ‡lcool, que emerge como elemento definidor dos processos de desfilia„…o. AlŒm do uso abusivo de ‡lcool e drogas, estes sujeitos tŠm em comum, o fato de serem oriundos de famˆlias que por v‡rios motivos – alcoolismo, pobreza, separa„…o conjugal, morte de c™njuge e apresentam ruptura de vˆnculos com as famˆlias.

A maioria come„ou a fazer uso de drogas na adolescŠncia com amigos, passando de drogas mais leves como ‡lcool, maconha, para drogas mais pesadas, cocaˆna e crack. Ao mesmo tempo praticavam pequenos furtos dentro e fora de casa, inviabilizando a convivŠncia com social com parentes. AlŒm do uso abusivo de drogas, como elemento definidor dos processos de desfilia„…o, emergem riscos de diferentes naturezas a este ligados, como a pr‡tica de assaltos e roubos para conseguir dinheiro, violŠncia praticada por amigos, companheiros e traficantes devido a disputas e dˆvidas.

Ao refletir sobre as trajet†rias dos personagens e processos que levam a enfraquecimento e ruptura de vˆnculos, cabe retornar • quest…o circunscrita no final da abertura deste capˆtulo: os habitantes das ruas t‡m uma vida desregrada, marcada por

processos de desfilia€•o, porque habitam as ruas ou habitam as ruas porque t‡m uma vida de exclusˆes e desfilia€ˆes?

O campo revelou-me, como uma tendŠncia marcante, que os habitantes das ruas vivenciaram contextos de pobreza e exclusŽes, inseridos nas periferias das cidades. Nessa perspectiva, vivenciaram processos de vulnerabiliza„…o social, com acesso prec‡rio a direitos b‡sicos, nas rotas de pobreza. Esta constata„…o coloca em evidŠncia uma liga„…o entre a pobreza, exclus…o e vidas nas ruas, abrindo um campo de discuss…o polŠmico. Escorel (1999) afirma existir uma culpabiliza„…o e criminaliza„…o da famˆlia pobre e pelos destinos “marginais” de seus filhos nas representa„Žes sociais brasileiras.

Estas representa„Žes e estere†tipos ignoram as m•ltiplas formas de pobreza, e atribuem a essa condi„…o, um forte conte•do moral, nas quais, as estratŒgias de sobrevivŠncia,

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os arranjos familiares “diferentes”, as pr‡ticas sociais das famˆlias pobres s…o cunhadas de “desagregadas”. De acordo com a autora, “a opini…o p•blica acusa as classes populares pela sua pr†pria desgra„a, uma vez que identifica nas suas formas de vida, de trabalho e de moradia a sede da desordem moral geradora de todos os males sociais” (TELLES, 1990 apud ESCOREL, 1999, p. 135). Acerca das representa„Žes negativas existentes sobre as camadas populares, a autora argumenta:

Habitantes de bairros pobres e prec‡rios, os filhos das classes populares recebem todos para estabelecer vˆnculos tŠnues e inst‡veis com a escola e uma utiliza„…o crescente da rua como espa„o de trabalho e lazer. Responsabilizar a estrutura familiar pelo desconserto desse m•ltiplo arranjo de determina„Žes que conduzem as crian„as para trabalhar e morar nas ruas da cidade Œ encontrar, sen…o um bode expiat†rio, uma estereotipia da famˆlia pobre, como desagregada e promotora de seres desviantes, marginais (ESCOREL, 1999, p. 134).

Desse modo, Escorel (1999) denuncia a criminaliza„…o das famˆlias vulner‡veis, e em contrapartida, argumenta que a famˆlia incompleta e matrifocal61 se mostra a realidade empˆrica mais comum, em oposi„…o • ideia de famˆlia agregada que permeia as representa„Žes da sociedade brasileira.

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