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No Estado do Espírito Santo, o Curso de Graduação em Biblioteconomia iniciou suas atividades na Universidade Federal em 1975, mas foi o Decreto nº 83.043/79 que regulamentou seu funcionamento. Tal como ocorreu na criação do curso da BN, no Espírito Santo a justificativa para a implantação do Curso de Biblioteconomia também foi a necessidade de suprir a carência de profissionais qualificados nos quadros da Biblioteca Central (ROSEMBERG; CORREA, 1999). A Sub-Reitoria Acadêmica faz a sua justificativa em prol da criação do curso:

[...] viria seguramente produzir um dos profissionais cuja carência em todo o Estado se tem feito longamente sentir, que é o bibliotecário diplomado. Na verdade, nas diversas bibliotecas que existem em

todo o Espírito Santo, o pessoal responsável pelo seu controle é, virtualmente todo ele, composto por profissionais que improvisaram, autodidaticamente, na atividade, valendo-se de anos de serviço para obter experiência que os habilita a exercer a profissão. Na própria Universidade Federal do Espírito Santo, é notório que somente agora foi contratada uma bibliotecária diplomada e altamente especializada, a fim de proceder à coordenação da implantação definitiva da Biblioteca Central que, anteriormente, sempre careceu de pessoal formado na profissão [...] (UNIVERSIDADE..., 1974 apud ROSEMBERG; CORREA, 1999, p. 22-23).

Nesses quarenta anos de existência, o currículo do curso foi alterado cinco vezes 1985, 1999, 2004, 2007/2 e, recentemente, em 2015, a fim de atender às necessidades de revisão na formação do bibliotecário. A primeira versão curricular do curso, que possuía duração de três anos e carga horária (CH) de 2.115 h, vigorou até o ano de 1984, quando passou por uma reformulação, para inserção das disciplinas de Processamento de Dados, Automação de Unidades de Informação, entre outras. Essa versão curricular foi implantada no ano de 1985, com aumento na CH para 2.895 h e duração de quatro anos, com um total de 53 disciplinas, sendo quatro delas específicas para a administração de bibliotecas (OAB I, II, III, O&M) e as focadas em Estudos de Usuário. Esse currículo vigorou até 1999 (ROSEMBERG; CARVALHO, 2005). Segundo as autoras, ele possuía um viés notadamente tecnicista, pautado na corrente norte-americana, que circundava a formação de bibliotecários no país.

Em 1999, foi implantado um terceiro currículo, reformulado para a CH de 2.820 h. Tinha por compromisso não só os conteúdos voltados para os usuários, mas procurava um fazer investigativo da profissão (Pesquisa em Biblioteconomia e Trabalho de Conclusão de Curso). Em sua duração era de quatro anos e meio, foram inseridas disciplinas com conteúdos culturais, tais como História das Artes Plásticas, História da Música, História do Teatro, História do Cinema e Vídeo, História da Literatura. Na área de gestão, as disciplinas foram reorganizadas: OAB III foi substituída por GRI, dando ênfase à gestão dos recursos informacionais para negócios, além da continuação da oferta de disciplinas de OAB I, II e O&M.

Em 2004, procedeu-se a uma acanhada reformulação curricular, com base na eliminação da disciplina Fundamentos e Práticas de Arquivos, em função da criação

do Curso de Arquivologia na UFES. Não houve alteração da oferta de disciplinas à área de gestão (ROSEMBERG; CARVALHO, 2005).

2007 foi um ano de grandes ajustes no currículo do curso de Biblioteconomia da UFES, com a supressão de todas as disciplinas de caráter cultural (música, teatro, artes plásticas, cinema e vídeo), que foram transformadas em disciplinas optativas.11 As de cunho tecnológico sofreram grandes modificações de nomenclaturas e conteúdos. Agora, estes contemplavam os modernos sistemas de tratamento e recuperação da informação. O Currículo passou a ter CHT de 2.430h e duração de quatro anos.

Esse currículo de 2007 ficou ativo até o final de 2015, quando sofreu nova intervenção. Ampliou-se a CHT para 2.490h e incluiu-se a disciplina Fundamentos

Educacionais em Biblioteconomia (60h). Os conteúdos transversais étnico-raciais,

de meio ambiente e sustentabilidade foram distribuídos, respectivamente, em outras, em Seminário sobre Atuação Profissional e Preservação de Unidades de informação. Na área de gestão, houve uma alteração na nomenclatura das disciplinas e inserção dos conteúdos transversais: OAB I passou a se chamar

Administração de Unidades de Informação; e a disciplina OAB II, Planejamento de Unidades de Informação, sendo inserida em seus conteúdos a questão da

sustentabilidade socioambiental (Quadro 2).

11 Vale ressaltar que em função da implantação do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, o chamado Reuni, a ampliação de vagas para entrada de calouros no curso de Biblioteconomia foi duplicada de 40 para 80 anuais, o que ocasionou a dificuldade de oferta dessas disciplinas pelo Centro de Artes, dificultando a integralização curricular dos alunos. A alteração curricular desse ano foi significativa e retomou a formação menos cultural do bibliotecário capixaba.

Quadro 2 – Alteração do conteúdo das disciplinas de gestão VERSÃO - 2007/2 VERSÃO – 2016 OAB I Ementa: Princípios de administração. Estrutura organizacional de bibliotecas. Serviços-meio e serviços-fim: rotinas e racionalização. Marketing em unidades de informação.

Administração de Unidades de Informação

Ementa: Princípios da administração: Estrutura organizacional de unidades de informação. Serviços meio e serviços fim: rotinas e racionalização. Marketing em unidades de informação.

OAB II

Ementa: Planejamento:

conceituação, importância e técnicas. Planejamento estratégico. Compartilhamento de recursos informacionais. Avaliação de desempenho em biblioteca. Previsão de recursos e elaboração de projeto.

Planejamento de Unidades de Informação.

Ementa: Planejamento: abordagens teóricas e tipologia. Planejamento sustentável de recursos em unidades de informação.

Planejamento socioambiental de unidades

de informação. Avaliação de unidades de informação. Elaboração de projetos ou plano de ação.

Fonte: Elaborado pela autora.

Mesmo havendo por parte do curso a preocupação com as disciplinas de Gestão da Informação e Gestão do Conhecimento (cujos conteúdos foram inseridos na versão 1999, com a disciplina de GRI), a CH mínima de 20% para essa área curricular acordada em 1998 pelas escolas de Biblioteconomia do Mercosul continuou abaixo da prescrição. Da CHT do curso, 240h contemplam as disciplinas da área de gestão da informação, ou seja, menos de 10%. Isso significa menos da metade do que é recomendado no documento supracitado (Quadro 3).

Quadro 3 - CH das Disciplinas específicas de GI DISCIPLINA S VERSÃO CURRICULAR (CHT) 1985 (2.895 h) 1999 (2.820h) (2.820h2004 ) 2007/2 (2.430h ) 2016 (2.490h) OAB I 60h 60h 60h 60h - OAB II 60h 60h 60h 60h - OAB III 75h - - - - GRI - 60h 60h 60h 60h O&M 60h 60h 60h 60h 60h Administraçã o de U.I. - - - - 60h Planejamento de U.I. - - - - 60h TOTAL 255h 240h 240h 240h 240h

Fonte: Elaborado pela autora.

Verificou-se que em todas as versões curriculares houve a preocupação em inserir as disciplinas com conteúdo voltado à Gestão da Informação e técnicas administrativas para a gestão de unidade de informação.

Há ainda as disciplinas que aplicam diretamente os conteúdos de gestão da informação de forma transversal, aproveitando metodologias de planejamento, avaliação e gestão de áreas específicas das unidades de informação. (Quadro 4).

Quadro 4 - Disciplinas obrigatórias com conteúdos transversais de GI.

Fonte: Elaborado pela autora.

Entretanto, vale ressaltar que mesmo com outras disciplinas utilizando os conteúdos transversais da GI, os conhecimentos sobre Marketing, Gestão do Conhecimento, Gestão de Pessoas, Empreendedorismo, Sistemas de Apoio à Decisão e Inteligência Competitiva ainda carecem de inclusão na formação do bibliotecário capixaba.

Arcanjo (2013) realizou uma pesquisa em cinco bibliotecas, sendo que quatro foram bibliotecas públicas dos municípios que compõem a Grande Vitória (Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica) e outra foi a Biblioteca Pública Estadual, cujo objetivo foi “[...] identificar o uso das competências em Gestão de Unidades de Informação na atuação dos profissionais da informação (Bibliotecários) no mercado de trabalho [...]”, e especificamente

[...] identificar que habilidades/competências são exigidas do profissional em sua atuação na Unidade de Informação; verificar como o profissional resolve suas deficiências na área de gestão da informação, tendo em vista sua formação acadêmica; identificar quais DISCIPLINAS

VERSÃO CURRICULAR 198

5 1999 2004 2007/2 2016 Automação de Sistemas de Informação 60h - - - - Automação de Unidade de Informação - 60h 60h 60h 60h

Editoração 60h 60h 60h 60h 60h Estudo de Usuários 75h 60h 60h 60h 60h Fontes de Informação I 75h 60h 60h 60h 60h Fontes de Informação II 75h 60h 60h 60h 60h Formação e Desenvolvimento de Coleções (FDC) 75h 60h 60h 60h 60h

Preservação em Unidades de Informação - 60h 60h 60h 60h

Serviço de Informação 90h - - - -

Serviço de Recuperação da Informação I

(SRI I) - 60h 60h 60h 60h

Serviço de Recuperação da Informação II

(SRI II) - 30h 30h 30h 30h

as dificuldades na área de gestão os profissionais encontram em sua atuação [...] (ARCANJO, 2013, p. 8).

Nesse estudo, Arcanjo (2013) constatou que das cinco bibliotecas pesquisadas, quatro gestores possuíam formação acadêmica em Biblioteconomia, e um formado em Artes Plásticas, sendo todos formados pela UFES. Embora a maioria dos gestores tivessem cursado as disciplinas de O&M, OAB I, II e III, GRI, no decorrer do Curso de Biblioteconomia, salvo o gestor da Biblioteca Municipal da Serra, formado em Artes Plásticas, e nessa área não há disciplinas propicias à gestão, todos relataram que as disciplinas cursadas “[...] foram insuficientes para a formação em conteúdos gestores e a percepção da carência na área só foi identificada na atuação já no mercado de trabalho [...]” (ARCANJO, 2013, p.21).

Todos os gestores foram unânimes em afirmar a necessidade de educação continuada em gestão, especialmente em gestão de pessoas, posto que a maturidade profissional fosse adquirida no dia a dia, na “prática e enfrentamento de situações que exigem a intervenção do profissional gestor” (ARCANJO, 2013, p.21).

Na pesquisa, verificou-se que a base acadêmica para formação de um bibliotecário com competências na área de gestão é carente em razão do que é exigido pelo mercado de trabalho. Percebe-se, então, que à luz desse quantitativo, as preocupações procedem, uma vez que se considera essa área uma das mais significativas para qualificar o trabalho dos bibliotecários, que vêm sendo cada vez mais demandados para desenvolverem essa atividade.

É literalmente no percurso que o trabalhador adquire conhecimentos que possam fazê-lo dominar sua área e torná-lo apto a exercer suas funções. Assim, analisemos o ato de trabalhar do bibliotecário-gestor na atual conjuntura social, apresentando o método ergológico para realizar essa apreciação.

2.4 A ERGOLOGIA COMO UM MÉTODO PARA COMPREENSÃO E