O letramento digital vem desvelar novos espaços de interação que repercutem na reestruturação de espaços da escrita, e os gêneros, resultantes da comunicação mediada pelo ambiente digital, não parecem comuns aos professores da educação básica, porque não são vistos como uma necessidade de exploração pedagógica. O uso crítico desses gêneros poderia ser um momento em que o trabalho com a linguagem ultrapassasse os limites tradicionalmente impostos.
As teorias que colaboram para a fundamentação sociorretórica dos gêneros são a Teoria dos Atos de Fala e a Filosofia da Argumentação e ambas lidam com a abordagem filosófica em que a essência é compreender as linguagens como meio para o homem agir no mundo, colocando aos participantes de uma determinada situação comunicativa a compreensão dos contextos em que estão inseridos, para juntos encontrarem uma significação
embasada na construção social da realidade. Em cada contexto são estabelecidos os papéis de seus participantes.
O mais importante da concepção da teoria de gêneros sob as bases da sociorretórica incide em repensar os estudos acerca da produção escrita na escola e no ambiente de trabalho, a partir do gênero como uma ação social que nos habilita a compreender o que está sendo aprendido quando aprendemos novos gêneros, ou seja, que objetivos podemos ter, e a compreender melhor as situações nas quais nos encontramos. Assim, o gênero torna-se um importante instrumento de inclusão social por meio do que fazemos com a linguagem e como o fazemos.
Na prática, todo gênero multimidiático, toda tradição de letramento multimidiática, restringe o enorme conjunto de possibilidades para apenas algumas combinações permitidas ou favorecidas, mas há ainda sempre mais do que alguém poderia obter apenas adicionando aquelas mídias separadamente. Nenhum texto duplica exatamente o que uma figura significa para nós: texto e figura juntos não são duas formas de dizer a mesma coisa; o texto significa mais quando justaposto à figura, e da mesma forma a figura quando colocada ao lado de um texto (LEMKE, 2010, p. 462).
Para os sociorretóricos, as noções de jogo e interação participam da constituição dos gêneros, pois, se os gêneros respondem a determinados contextos, por outro lado, eles também moldam estes contextos, similarmente os gêneros mostram objetivos para este contexto.
Desse modo, fica-nos mais confortável investir em uma proposta que contemple também os gêneros como respostas ao contexto de uso, porque em sala de aula não é possível atribuir grau máximo de autenticidade aos gêneros presentes nas práticas de letramentos, porque há de se compreender que o contexto educacional imprime sentidos adicionais aos gêneros ali trabalhados, isto é, trabalhar com e-mails na sala de aula não será a mesma coisa que utilizar o gênero e-mail em situação real, mas haverá algo da prototipicidade do gênero que permanecerá e algo do ambiente educacional que interferirá na sua constituição.
É importante saber, ainda, como os textos posicionam leitor e escritor e, ainda, a construção do outro através da escrita, o que faz compreendermos a possibilidade de relacionar mais satisfatoriamente a concepção de gêneros da sociorretórica aos estudos de letramento. As práticas sociais de uso e domínio do uso das tecnologias estão impregnadas de conflitos resultantes da contextualização do mundo tecnológico e de suas implicações.
Apesar da familiaridade superficial das instituições nas quais os gêneros são encontrados, a experiência de quem escreve, lê e age sobre os textos não é algo que nós
conhecemos a fundo sob os aspectos político e ético. Há várias possibilidades nas quais os gêneros podem ter implicações políticas e éticas.
Os gêneros digitais podem apresentar-se como uma importante ferramenta para a inclusão na sociedade contemporânea, se aqueles que usufruem da dinâmica dos gêneros sabem manuseá-los criticamente. Para aqueles que sofrem os efeitos do desconhecimento total ou parcial de suas peculiaridades, isso pode não ser interessante e até ser prejudicial. Se o gênero textual representar a materialização de práticas opressivas, negando a chance de expressão de seu produtor, isso pode fazer da prática da escrita uma cúmplice de um modelo de violência.
Se a situação retórica não é material e objetiva, mas um construto social ou estrutura semiótica, como devemos entender a exigência que está no centro da situação? A exigência tem que estar localizada no mundo social, e não numa percepção privada nem numa circunstância material. Ela não pode ser dividida em dois componentes sem destruição como um fenômeno retórico e social. A exigência é uma forma de conhecimento social – uma interpretação mútua de objetos, eventos, interesses e propósitos que não somente os ligam entre si, mas também o fazem ser o que são: uma necessidade social objetificada (MILLER, 2009, p. 32).
A definição de gêneros deve estar centrada sobre a ação que é realizada por meio dele, é o que fazemos com os gêneros que deve ser a tônica, uma vez que considerá-los como objeto de ensino conforme orientam os PCNs (BRASIL, 1998; 1999; 2000) significa partir de uma perspectiva que vislumbra o gênero mais por seus aspectos pragmáticos que formais.
Por essa razão, estudar gêneros e os letramentos por eles ativados pode ser uma rica experiência de explorar fatos relacionados ao processo de elaboração dos gêneros, a natureza das representações sancionadas e suas implicações para as vidas e as experiências morais e materiais das pessoas, além do nível de acessibilidade que um gênero pode significar para usuários potenciais como recursos comuns ou como meios de inclusão e exclusão (se observados como mantenedores do poder).
A relação entre as práticas de letramentos e os gêneros envolvidos em tais práticas pode ser mais bem compreendida quando delineamos as situações, a fim de que se atinja o propósito comunicativo intentado. Para isso, precisamos compreender que:
Situações são construtos sociais que são o resultado, não de “percepção”, mas de “definição”. Uma vez que a ação humana é baseada em (e guiada por) significado e não em causas materialistas, no centro da ação encontra-se um processo de interpretação. Antes de podermos agir, precisamos interpretar o ambiente material determinado; definimos, ou “determinamos”, uma situação (MILLER, 2009, p. 30, grifos da autora).
E, concordando com a autora acima, podemos dizer que, para analisar as práticas de letramentos, devemos assumir a situação em que ocorrem e como seus participantes a
interpretam para agir nela. Por essa razão, os gêneros são escolhas feitas para a ação a ser desempenhada.
Para Almeida (2005), ler telas, apertar teclas, utilizar programas computacionais com interfaces gráficas, dar ou obter resposta do computador equivale à alfabetização digital funcional, semelhantemente como identificação das letras e decodificação do alfabeto equivale à alfabetização funcional, necessária, mas não suficiente em uma perspectiva pedagógica de apreensão de significados de um modo geral. E a não suficiência implica a interpretação das demandas da situação articulada às práticas de letramentos necessárias e à ação proporcionada pela seleção e uso dos gêneros.
3 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL: algumas questões acerca da formação docente e da