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Em meados do século XVIII houve um adensamento populacional nos centros urbanos e uma consequente dinamização do comércio interno provocada pela corrida do ouro e dos diamantes em Minas Gerais. E é neste cenário que aparece a figura do barbeiro, que quando não estivesse fazendo uma barba, aparando cabelos, arrancando dentes ou aplicando sanguessugas, podia, nos momentos de lazer entre um freguês e outro, praticar música66.

Essa tradição de barbeiros-cirurgiões músicos, “polivalentes” nas habilidades manuais, também teria sido importada da Europa. Na Inglaterra, por exemplo, eles tocavam também para aliviar a dor de seus “pacientes”, utilizando a música como uma espécie de anestésico67. Enquanto a música dos choromeleiros era uma tradição rural sustentada quase que exclusivamente por mão de obra escrava, os barbeiros são um fenômeno urbano e, ao menos em parte, composto por escravos libertos ou urbanos, cujo fardo era sem dúvida mais leve.

62 VERSONI 2000, p.126-127 63 VERSONI 2000, p.4

64 Valença apud PEREIRA 2003, p.163-164 65 SANDRONI 2001, p.103.

66 TINHORÃO 1998, p.157-158; BRAGA 1998, p.101. 67 MONTEIRO 2008, p.215.

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[…] Ao contrário dos músicos das fazendas, cuja finalidade, ostentação e deleite pessoal dos grandes proprietários rurais, levava à preocupação orquestral, quase sempre sob a direção de professores europeus, os barbeiros das cidades agrupavam-se sob a direção de um mestre da sua condição, produzindo em conseqüência um estilo de música necessariamente mais espontâneo e popular […]68

Portanto, a música que estes barbeiros faziam – não necessariamente no sentido de compor, mas no sentido mais amplo de experienciar a música que Christopher Small chamou de

musicking69 – era espontânea e tinha um propósito diferente do daqueles escravos, que cantavam

para dar ritmo à sua labuta: os barbeiros faziam da música seu momento de lazer. E, por exercerem uma das únicas profissões “liberais”, eles até gozavam de certo prestígio entre a população que, de um modo geral, presenciava a olhos vivos o desabrochar de um novo sistema econômico [o capitalismo]70.

[…] os barbeiros músicos, levados à entreter-se com instrumentos musicais em seus momentos de ócio sem outro objetivo que a satisfação pessoal, passaram a formar seus “ternos” para tocar nas festas de igreja movidos por uma única razão: como a vida social e religiosa da Bahia e do Rio de Janeiro começava a exigir cada vez mais o concurso de música, eles descobriram que era possível ganhar algum dinheiro com sua habilidade, uma vez que ninguém os constrangia sequer à mudar de repertório […]71 Estes barbeiros músicos divertiam a si e aos outros tocando valsas e contradanças francesas em instrumentos de sopro e corda e “entoavam, às vezes, o lundu e algumas chulas populares”72. Assim como os choromeleiros, dos quais eram remanescentes73, estes músicos promoviam uma espécie de entretenimento público entre os séculos XVIII e XIX. Eram autodidatas e cultivavam aquelas músicas “de orelha”, executando-as “em verdade arranjadas a seu jeito” – como na famigerada observação do pintor Jean-Baptiste Debret, em “Viagem

Pitoresca e Histórica Através do Brasil” (1940)74.

Estes barbeiros músicos, que “pareciam querer profetizar os futuros e inconfundíveis choros cariocas”, nas palavras de Ayres de Andrade75, teriam então transmitido sua tradição musical aos mestiços da nascente baixa classe média urbana (constituída pelas primeiras gerações de operários e funcionários da moderna era urbano-industrial). Mais tarde esse grupo social iria “inventar” o choro com seus grupos de pau e corda (flauta, violão e cavaco). Mas, 68 TINHORÃO 1998, p.161. 69 SMALL 1998. 70 TINHORÃO 1998, p.159-162; MONTEIRO 2008, p.214-215. 71 TINHORÃO 1998, p.162. 72 TINHORÃO 1998, p.161; KIEFER 1990, p.8. 73 BOTELHO 2005, p.218.

74 DEBRET apud TINHORÃO 1998, p.161. 75 ANDRADE 1967, p.10.

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antes disso, ainda em meados do século XIX as bandas militares já haviam superado as Bandas de Barbeiros na função de fornecer música para as festas públicas76.

Os bailes na Cidade Nova e nos clubes carnavalescos das sociedades estudantis, que começaram a ganhar fama por volta de 1870, exigiam bandas de maior porte, com sopros e percussão, como nas bandas militares. Naquela época havia, no Rio de Janeiro, vários músicos remanescentes dos batalhões voluntários que se dissolveram após o término da Guerra do Paraguai. E, como a maioria destes músicos não tinha credenciais para lecionar música oficialmente, muitos sobreviveram tocando justamente em saraus, festas familiares ou bailes77.

Segundo Fernando Binder, durante a nossa história o termo “banda” foi usado popularmente para designar tanto as bandas militares, como as conhecemos hoje, quanto os ternos (ou terços) dos barbeiros e dos choromeleiros do período colonial78. Inclusive, um dos instrumentos citados nos inventários das igrejas, junto às charamelas que os jesuítas deixaram pra trás, foi a sacabuxa, um instrumento antecessor do trombone, que inclusive já era tradicional dos choromeleiros europeus79.

[…] Nas fazendas, as bandas de escravos foram avós das atuais Liras do interior, que sofrerão uma influência direta das organizações musicais militares, principalmente no que diz respeito à sua organização e vestimenta, e menos no que diz respeito ao repertório, apesar de terem neste sempre um bom dobrado […]80

Deste modo, somos levados a acreditar que, apesar de as conexões históricas não serem tão claras e lineares, a tradição das bandas militares seja a herdeira mais direta dos choromeleiros. Afinal, músicos de banda costumam, até hoje, saber ler e escrever e também possuem bons “conhecimentos de solfejo e teoria da música” como os choromeleiros daquela época81, ao contrário dos barbeiros músicos que cultivavam sua música “de ouvido”. Antes do

advento das bandas militares, os barbeiros eram praticamente os únicos de seu tempo a fornecer música para as festividades populares.

[…] Se nas fazendas as bandas de escravos foram as avós das Liras das cidades do interior, na cidade do Rio de Janeiro foi a música dos barbeiros a mãe do choro, avó do regional das rádios e bisavó dos conjuntos de bossa nova. […]82

76 LINDLEY apud TINHORÃO 1998, p.193.

77 SIQUEIRA 1970, p.122; TINHORÃO 1998, p. 178. 78 BINDER apud BOTELHO 2005, p.218.

79 HOLLER 2005, p.62,64. 80 BRAGA 1998, p.57.

81 LANGE apud KIEFER 1982, p.15. 82 BRAGA 1998, p.58.

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Então, tanto as bandas militares quanto as Bandas de Barbeiros, seriam remanescentes das bandas de escravos, os choromeleiros, que seriam os agrupamentos musicais mais antigos da história do Brasil. Os grupos de pau e corda dos funcionários e operários da crescente classe média urbana de meados do século XIX, por sua vez, teriam herdado a cultura musical dos barbeiros e também das bandas militares, que foi uma das instituições que mais teriam “fornecido” músicos para os grupos de choro do Rio de Janeiro – como é possível deduzir fazendo um levantamento das profissões dos antigos chorões citados por Alexandre Gonçalves Pinto, o Animal83, em suas reminiscências dos antigos chorões.