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Konklusjon

In document lnnsiktsarbeid ung.no Delrapport 1 (sider 113-117)

Ao falarmos em cenas da enunciação, estamos nos referindo a duas ideias contidas nessa sentença. A primeira diz respeito ao item lexical cena. Podemos nos remeter de imediato à cena de peça teatral. Neste caso, temos a concepção de partes temáticas ou atos que se realizam durante um espetáculo teatral. Cada cena teatral é composta por uma situação de comunicação num quadro pré-construído. Há o espaço e tempo, bem como as personagens; as falas já estão pré-escritas e devem ser enunciadas no desenrolar do enredo. Independente do tema de cada cena, ou

da quantidade de personagens, existe, no interior de cada uma, um começo, um meio e um fim que se desenrola entre pequenas rupturas entre uma cena e outra, como um gancho para a cena seguinte até o final.

As cenas, no caso das peças teatrais, já estão pré-construídas pelos seus autores e servem de guia para diretores, atores e atrizes e toda equipe que trabalha na produção. O que queremos dizer é que, mesmo com todo o talento do elenco envolvido na peça teatral, as cenas já estão previstas e descritas pelo autor da peça. Dessa ideia de pré-constituição, portanto, é que tendemos a inferir o sentido de

cenas a um lugar e um momento e onde indivíduos realizam situações de

comunicação. O que sugere a expressão do tipo: Ele estava na cena do crime.

Enunciação, por sua vez, significa o ato do acontecimento. Sua concepção pode ser tanto linguística como discursiva. No primeiro caso, podemos apreender a enunciação enquanto prática individual do sujeito falante, pondo em funcionamento a língua. No segundo caso, a que tomamos como referência neste trabalho, a concepção de enunciação pode ser apreendida como fatos, ou seja, como acontecimento em um tipo de contexto e apreendido na multiplicidade de suas

dimensões sociais e psicológicas. (CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, p.193). Esse

acontecimento é constituído de enunciado(s). Assim, para que haja enunciação é preciso existir a marca verbal que a constitui, ou seja, o enunciado. Desde já, na perspectiva da AD, o enunciado se opõe a enunciação.

No discurso, as cenas são construídas por meio das marcas linguísticas selecionadas pelo enunciador e, sobretudo, por uma relação interdiscursiva. Essas marcas, por sua vez, ancoram os enunciados na situação de enunciação – sistema de coordenadas abstratas, associadas a toda produção verbal. As cenas de fala são constitutivas do discurso.

Dessa forma, a situação de enunciação não é uma situação de comunicação

socialmente descritível, mas o sistema onde são definidas as três posições fundamentais do enunciador, do co-enunciador e da não-pessoa. (MAINGUENEAU,

2006, p. 250). A situação de enunciação constrói um conjunto de posições abstratas onde se estabilizam as atividades enunciativas, sua base é, em particular, a marcação dos dêiticos. Consideramos, portanto, a enunciação ocorrendo em um

espaço instituído, que o gênero do discurso irá definir e de onde se construirá uma cena no e pelo discurso. Para desenvolvermos essa estratégia falaremos das três cenas propostas por Maingueneau (2006; 2008c; 2011a).

O que define o quadro cênico do texto, o espaço estável no qual o enunciado tem sentido, são as cenas de enunciação chamadas cena englobante e cena genérica. A primeira corresponde a um tipo de discurso, ou seja, confere ao discurso um estatuto pragmático, quais sejam: literário, religioso, filosófico etc. A segunda diz respeito ao gênero do discurso que, como o definiu Bakhtin (2010), são tipos relativamente estáveis de enunciados. Há ainda uma terceira cena com a qual o co- enunciador se confronta: a cenografia. Essa cena não é imposta pelo gênero, mas é construída à medida que a enunciação se desenvolve.

Observemos, então, o discurso pedagógico. Todo enunciado pedagógico filia-se a uma cena englobante pedagógica, correspondente a um tipo de discurso que regula as práticas sociais no âmbito da educação. Referimo-nos à pedagogia no sentido da

ciência da educação que estuda as práticas, metodologias e princípios da educação.

Ou, ainda, da prática de ensinar, educar, encaminhar, direcionando outrem no caminho da aprendizagem em busca do conhecimento. Nessa última perspectiva, vários tipos de discurso podem ser considerados pedagógicos.

Dessa maneira, fica difícil caracterizar o tipo de discurso com o qual estamos lidando, devemos, pois, segundo Maingueneau (2011a), defini-lo por sua função social. Esta que está unida aos lugares sociais por onde os enunciados percorrem. O leitor deve ser capaz de determinar, ao tomar contato com um texto, a qual tipo de discurso esse texto recebido pertence e qual a cena englobante é preciso se situar para poder interpretá-lo. Ao lermos um relato pessoal de uma prática didático- pedagógica, devemos nos situar na cena englobante do discurso pedagógico. Mas isso é insuficiente, pois é na cena genérica que os co-enunciadores definirão os seus papéis.

A cena genérica corresponde aos vários gêneros do discurso com os quais lidamos.

O gênero de discurso implica um contexto específico: papéis, circunstâncias (em particular, um modo de inscrição no espaço e no tempo), um suporte material, uma finalidade etc. (MAINGUENEAU, 2008c, p. 116) São os gêneros, portanto, que

definem os papéis sociais que os co-enunciadores devem assumir. Num relato pessoal de uma prática didático-pedagógica, por exemplo, teremos um professor [P1] carregado de um saber-fazer e outros professores [P2] cuja vivência relatada pelo primeiro [P1], supostamente, não foi por eles [P2] experienciada.

Essas duas cenas – englobante e genérica – definem o quadro cênico do texto, em última instância, determinam em conjunto o espaço estável no interior do qual o

enunciado ganha sentido, isto é, o espaço do tipo e do gênero de discurso.

(MAINGUENEAU, 2008c, p. 116) Mas o leitor não se confronta diretamente com esse quadro cênico, neste caso, outra cena intervém na interação entre os co- enunciadores, a qual o autor chama de cenografia.

Voltemos à analogia teatral. Lá existe uma cena preestabelecida pela qual atores e atrizes podem prever seus sentimentos e comportamentos em cada encenação. Contudo, no caso da cenografia, o dispositivo de fala vai se constituindo conforme a enunciação se desenvolve, ou seja, a “encenação” é construída pelo próprio discurso. Assim, segundo Maingueneau (2006, p. 253),

A noção de “cenografia” adiciona ao caráter teatral de “cena” a dimensão da grafia. Essa “-grafia” não remete a uma oposição empírica entre suporte oral e suporte gráfico, mas a um processo fundador, à inscrição legitimadora de um texto, em sua dupla relação com a memória e uma enunciação que se situa na filiação de outras enunciações e que reivindica um certo tipo de reemprego.

Nesse sentido, a cenografia desloca para um segundo plano o quadro cênico constituído pela cena englobante e pela cena genérica. Desse modo, ao nos depararmos com um texto de um relato pessoal didático-pedagógico, não nos confrontamos diretamente como discurso pedagógico – cena englobante – ou com o relato pessoal - cena genérica, mas com a cena construída pelo texto – cenografia. Logo, o conceito de ciência da educação contido no termo pedagogia, se apaga, e o enunciador assume, no relato pessoal, o papel social de outra acepção, qual seja:

ensinar, encaminhar, direcionar outrem no caminho da aprendizagem em busca do

conhecimento.

Nessa perspectiva, segundo Maingueneau (2011a), todo discurso pretende convencer, instaurando a cena de enunciação que o legitima. A cenografia, portanto, não é somente um quadro, um cenário, como em uma peça teatral, de forma que o discurso não aparece inesperadamente dentro de um espaço pré-construído e independente desse discurso; é a enunciação que, ao se desenvolver, diligencia-se por instituir de modo contínuo o seu próprio dispositivo de fala.

Dessa forma, para o autor, a cenografia provoca um processo de enlaçamento

paradoxal, já que ela é, simultaneamente, fonte do discurso e aquilo que ele

engendra. A própria cenografia legitima sua existência como enunciado, ou seja, ela

legitima um enunciado que, por sua vez, deve legitimá-la, estabelecendo que essa cenografia onde nasce a fala é precisamente a cenografia para enunciar como convém. (MAINGUENEAU, 2011a, p. 87-88)

Não obstante, a cenografia, para ser legitimada, necessita de se apoiar em cenas socialmente validadas. Essas cenas já estão instaladas na memória coletiva seja a

título de modelos que se rejeitam ou de modelos que se valorizam.

(MAINGUENEAU, 2011a, p. 92) As cenas validadas, segundo o autor, se caracterizam como estereótipos autonomizados, descontextualizados. Ainda em nosso exemplo de um relato pessoal didático-pedagógico, veremos que as cenas de fala validadas remetem o co-enunciador às práticas escolares bem sucedidas.

Em suma, em uma cenografia associam-se enunciador, co-enunciador, cronografia (tempo) e topografia (espaço) de onde se origina o discurso. Contudo, uma cenografia apenas se manifesta totalmente no momento em que puder dominar seu desenvolvimento, conservar uma distância em relação ao co-enunciador. Mas isso nem sempre é possível, como nos aponta Maingueneau (2008c, p. 118),

Num debate, por exemplo, é muito difícil que os participantes possam enunciar por intermédio de suas cenografias: eles não possuem o domínio da enunciação e devem reagir sem demora a situações

suscitadas pelos interlocutores. Em situação de interação viva, o que passa ao primeiro plano é, na maioria das vezes, a ameaça das faces e o ethos.

Apesar disso, em alguns gêneros do discurso como os despachos jurídicos e administrativos, as cenas de enunciação se limitam à cena englobante e à cena genérica. Outros gêneros do discurso, embora possuam modelos preestabelecidos, podem suscitar cenografias que se afastem do padrão comum. Maingueneau (2011b) divide os gêneros dos discursos entre dois polos opostos.

De um lado, gêneros que se restringem a sua cena genérica a não admitem cenografias variadas, como as receitas médicas e, de outro, gêneros que requisitam que uma cenografia seja escolhida, como os gêneros publicitários. Entre esses dois polos estão os gêneros do discurso que podem possuir cenografias variadas, mas, de maneira geral, são construídos por meio de cenas genéricas comuns no meio em que circulam, neste caso, ao autor cita os manuais universitários.

Em todos os casos em que um gênero do discurso suscita uma ou varias cenografias, está implicado o ethos que dela participa. São, pois, os conteúdos

desenvolvidos pelo discurso que permitem especificar e validar a própria cena e o próprio ethos, pelos quais esses conteúdos surgem. (MAINGUENEAU, 2011b, p, 77-

78) O ethos discursivo é o assunto da próxima seção.

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