Morin (1998, p. 329) define o paradigma cartesiano ou paradigma clássico como aquele que tenta reduzir a complexidade do mundo dos fenômenos para que esses possam ser explicados por leis simples e gerais. Sousa Santos (2007, p. 25) trata essa característica do paradigma cartesiano de “razão metonímica”, fazendo uma alusão à Metonímia, figura de linguagem que
toma a parte pelo todo.
De acordo com esse paradigma, o ser humano é um sujeito centrado, racional, unificado e estável e, para ser estudado, adota-se uma posição objetiva que o isola de seu contexto,
desconsiderando suas emoções e sua história de vida. Bakhtin (1986, p. 161) se refere a essa característica do paradigma cartesiano como “forma monológica de conhecimento”, uma vez que nesse tipo de epistemologia o ser humano é reificado e transformado em objeto de análise, fato esse que elimina a sua voz.
Nesse paradigma, todo conhecimento cientifico é gerado a partir de uma única abordagem, o que implicitamente leva à noção de que exista uma única e imutável realidade que está disponível igualmente para todos (não importando o contexto sócio-histórico do pesquisador) para observação e análise. Apenas a dimensão cronológica do tempo é enfocada e os eventos são
tratados de forma linear por uma relação de causa e efeito. Sousa Santos (p. 26) chama essa segunda característica do paradigma cartesiano de “razão proléptica”, em alusão à Prolépse -
figura literária através da qual o narrador demonstra já conhecer o final da história. Essa figura se refere à antecipação: “diz-se de um fato que se fixa segundo uma era ou método cronológico”76.
Neste tipo de razão proléptica, toma-se como premissa o princípio da universalidade. Morin (1998, p. 330) explica esse princípio argumentando que “só há ciência do geral”, logo “há a expulsão do local e do singular como contingentes ou residuais”. Finalmente, há, segundo Morin, “a soberania absoluta da ordem, ou seja, determinismo universal”; as aleatoriedades são
consideradas “desvios” e devem ser evitadas.
Na busca incessante com o intuito de desvendar a identidade na contemporaneidade, o paradigma positivista tem se mostrado inadequado e insuficiente:
Nos anos recentes, [...], o conceito de ‘eu’ tem emergido novamente nos programas de pesquisa nas disciplinas humanas, uma ‘redescoberta’ devida em grande parte à inabilidade da pesquisa científica formal de responder pela variabilidade não explicada do comportamento humano que se observou nas pesquisas usando métodos experimentais (POLKINGHORNE, 1998, p. 149)77.
A insuficiência do paradigma cartesiano para explicar as relações humanas é também enfatizada por Sousa Santos (2007, p. 25), que desenvolve uma crítica rigorosa a esse paradigma, o qual ele denomina “razão indolente” por se considerar única e não permitir a inclusão da
diversidade epistemológica que pode ser encontrada no mundo como um todo. As razões, metonímica e proléptica, características dessa razão indolente, são apontadas pelo autor como responsáveis por contrair o presente e ampliar o futuro. A contração do presente “faz-se por meio da redução da diversidade da realidade a alguns tipos – concretos, muito limitados, reduzidos - de
realidade” (p. 28). O conceito de totalidade advindo dessa visão epistemológica é de que o todo
76 Definição retirada do Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 2ª ed. Editora Nova Fronteira.
77 “In recent years, however, the concept of self has reemerged in research programs in the human disciplines, a
‘rediscovery’ due largely to the inability of formal science research to account for the unexplained variability in human behavior that has shown up in research using experimental designs” (POLKINGHORNE, 1998, p. 149).
estudado é feito de partes homogêneas. Desconsidera-se, assim, toda a diversidade que caracteriza um fenômeno; há, segundo o autor, um “desperdício da experiência” presente. Para o
autor (p. 39), “a diversidade do mundo é inesgotável, não há teoria geral que possa organizar toda essa realidade”. Assim como observa Morin (2008, p. 14),
A inteligência que só sabe separar fragmenta o complexo do mundo em pedaços separados, fraciona os problemas, unidimensionaliza o multidimensional. Atrofia as possibilidades de compreensão e de reflexão, eliminando assim as oportunidades de um julgamento corretivo ou de uma visão a longo prazo.
A solução, para Sousa Santos (p. 39), é recorrer a uma epistemologia que seja capaz de trabalhar com “uma realidade muito mais rica, ainda muito mais fragmentada, mais caótica”.
Nesse sentido, a visão trazida pela complexidade vem suprir essa necessidade. A imagem do fractal apresenta um todo também fractalizado em partes. No entanto, na complexidade, ao contrário do paradigma reducionista, essas partes não são tomadas isoladamente. Há que se verificar a forma como uma parte é influenciada pelas demais e a forma pela qual essa inter-
-relação contribui para a emergência de fenômenos complexos que não poderiam ser compreendidos pelo mero estudo das partes isoladas.
Morin (2001) apresenta três princípios que caracterizam o paradigma da complexidade: o
dialógico, o da recursividade e o hologramático.
O princípio dialógico é aquele que não vê opostos como contraditórios, mas como necessários para a manutenção um do outro. Por essa visão, não existe noite se não existe o dia, não existe luz se não existe o escuro. Segundo Morin, esse princípio “nos permite manter a dualidade no seio da unidade”.
O segundo princípio – o da recursividade – se refere ao fato de que cada momento, evento ou situação é ao mesmo tempo produtor e produzido. Assim, nas questões sobre identidade e
aprendizagem, poderíamos dizer que a reconstrução de identidade influencia o processo de aprendizagem, que por sua vez influencia a reconstrução da identidade em um ciclo auto-
constitutivo e auto-organizador.
Finalmente, o terceiro princípio – hologramático – se refere à característica dos sistemas complexos de serem auto-similaridades. As partes contêm o todo e o todo contém as partes. Dessa forma, o princípio hologramático aplicado à pesquisa rompe com a visão reducionista
cartesiana de que as partes devem ser estudadas isolando-as do todo e com a visão holística que enfoca apenas o todo. Qualquer conhecimento deve ser produzido levando-se em consideração que “não se pode conceber o todo sem conceber as partes e não se pode conceber as partes sem conceber o todo”. Nessa perspectiva, “os conceitos não se definem nunca pelas suas fronteiras,
mas a partir do seu núcleo” (MORIN, 2001, p. 106). De forma análoga, podemos dizer que a identidade social só pode ser compreendida em sua complexidade, se tomada em relação aos outros elementos: contexto social e histórico; interação com o “outro”; práticas e normas sociais.
Se tomarmos cada elemento isoladamente, sem analisar a interação entre eles e deles com o processo de reconstrução de identidade, não é possível entender de forma mais profunda a complexidade da condição humana.
A segunda crítica levantada por Sousa Santos ao paradigma positivista é a ampliação
demasiada do futuro, relacionada à razão proléptica. Este tipo de razão, segundo o autor, considera um tempo ideal linear que, de alguma forma, torna o futuro infinito. Ao contrário do plano individual, em que as pessoas cuidam de seu futuro por entendê-lo como limitado, as sociedades tomam por certo o caráter infinito do tempo linear e não se preocupam com
transformações significativas do presente com vista a melhorar o futuro. Em seu texto, o autor advoga a favor de uma Sociologia das Ausências e uma Sociologia das Emergências. A primeira é definida como um “procedimento transgressivo e insurgente” que visa a trazer para o foco
aquilo que é tido como não-existente; aquilo que é “invisível à realidade hegemônica do mundo”. A segunda visa a uma ampliação simbólica das possibilidades de construir o futuro a partir de
alternativas emergentes da situação presente.
Uma epistemologia da complexidade, mais uma vez, se apresenta como uma alternativa viável para sanar os problemas apontados por Sousa Santos já que procura agrupar, e não separar, fenômeno, contexto e cultura78. Dentro dessa perspectiva, as narrativas, por darem voz aos
narradores, abrem um espaço epistemológico às experiências narradas e permitem a ampliação do presente, sugerida por Sousa Santos. Além disso, o tempo das narrativas, por partir do presente, voltar ao passado e recriá-lo e, através dessa recriação, programar o futuro, rompe com a linearidade cronológica e permite, assim como sugere o autor, uma contração do futuro que passa
a ser emergente nas possibilidades do presente.
Uma outra consideração com relação à possibilidade de escutar as vozes dos narradores na pesquisa narrativa diz respeito à democratização da ciência. Essa reflexão é levantada por Bohn
(2001, p. 116). Para ele, o cartesianismo, caracterizado pela linearidade, hierarquização dos fenômenos e pelo domínio da razão, cria uma nova relação de poder, desta vez não-divina, mas que elege novos “guardiões” para a “verdade”, que é “guardada da apreensão popular”. Os novos guardiões, em nome da cientificidade, excluem a voz popular da pesquisa científica e a torna
propriedade de um grupo seleto de pessoas. Estabelece-se aí um processo de exclusão no seio da cientificidade. A pesquisa narrativa, por nos permitir ouvir outras vozes, resgata a possibilidade de trazer a voz do “povo” para a ciência e, nesse sentido, é inclusiva.
78 Neste trabalho, o fenômeno investigado é a identidade social na contemporaneidade e sua inter-relação com a
aprendizagem de línguas. O contexto é entendido tanto como o contexto social imediato, ou seja, as instituições e práticas sociais travadas nessas instituições, como o contexto sócio-histórico, assim como proposto por Bakhtin (1986), isto é, os gêneros do discurso que precedem o indivíduo e contribuem para a formação de seu pensamento. A cultura é entendida, de acordo com a proposição de Hall (1997), como um conjunto de valores e significados partilhados por determinado grupo social, em dado período histórico; caracterização de um determinado modo de vida comum a um grupo ou a uma época; um conjunto de práticas estruturado pela produção e intercâmbio de significados.
Além de representar um método de pesquisa que corrobora os postulados da complexidade, as narrativas também são construções discursivas usadas pelos narradores para
revelarem, construírem e darem sentido a suas identidades sociais. A próxima seção trará uma reflexão sobre essa função das narrativas.