Na Epistemologia Qualitativa, os instrumentos formam um sistema de informações onde uns se relacionam com os outros. É a ideia do tecido de informação. Os instrumentos não mostrarão os resultados da pesquisa, mas serão a via de entrada das informações.
Na proposta metodológica construtivo-interpretativa, os instrumentos são considerados apenas como um indutor da informação que facilita a expressão do outro. A forma como o pesquisador vai relacioná-los e construir os indicadores, é o que o auxiliará a interpretar as informações e, assim, construir novas zonas de sentido para o objeto de estudo.
Diante desta perspectiva, para esta pesquisa, que teve como foco uma aproximação aos processos de subjetivação do professor em relação à sua prática e à sua expressão como sujeito no trabalho pedagógico ao desenvolver formas de se avaliar e repensar a sua ação docente, optamos por diversificar os instrumentos, usando formas escritas e orais, como também utilizando de uma produção mais simbólica do professor, que permitiram retomar momentos do passado e contemplar situações do presente. Acreditamos que o uso de instrumentos diversificados favorece a expressão da pessoa de forma mais plena. Segundo González Rey (2005b, p. 77-78) “o sujeito é infinito em relação à sua capacidade de manifestação de informação sobre distintas configurações de sentido subjetivo, segundo as quais toda pesquisa, em suas conclusões, representará sempre um recorte parcial”.
Para isso, utilizamos como instrumentos em nossa pesquisa, a observação no cotidiano escolar; a entrevista semi-estruturada; o completamento de frases; a redação; a análise documental; a caixa-museu; o caderno reflexivo; assim como, os momentos informais e as conversas exploratórias.
Observação do cotidiano escolar
Nessa pesquisa, a observação foi utilizada como um recurso para perceber a dinâmica dos professores em sala de aula, como ele planejava a sua aula, como se estabeleciam as relações entre o seu planejamento e a sua ação docente, entre outras questões pedagógicas e relacionais na sala de aula.
Para isso, partimos de uma observação participante e apoiada em eixos que reforçassem ou contribuíssem para a elaboração de indicadores na construção e interpretação da pesquisa.
Distribuímos esses momentos de observação dentro dos espaços da instituição escolar, como:
Os momentos da coordenação coletiva e a organização do trabalho pedagógico da escola;
Os momentos em sala de aula. Sistemas Conversacionais:
A conversação é considerada um instrumento que permite que o pesquisador crie um clima favorável de aproximação entre os colaboradores e o próprio pesquisador. Nesse tipo de estratégia, o pesquisador deve utilizar de sua criatividade e paciência de forma que todos se envolvam na conversação de forma reflexiva, ouvindo e elaborando questões diante das posições assumidas.
Segundo González Rey (2005b, p. 49), a “conversação representa uma aproximação do outro em sua condição de sujeito e persegue sua expressão livre e aberta”. Dessa forma, nas conversações, o pesquisador deve partir de questões mais gerais às questões mais particulares e íntimas, construindo, assim, uma relação de confiança, permitindo que os colaboradores se expressem livremente.
Na presente pesquisa, utilizamos o sistema conversacional com os professores envolvidos na pesquisa nos mais diferentes espaços do seu cotidiano. Com esse instrumento, tivemos o objetivo de nos aproximar de aspectos constituintes da subjetividade individual e social dos professores, a partir dos questionamentos, confrontações, reflexões que este momento pôde favorecer e, mais especificamente, conversas sobre sua forma de pensar e repensar a sua prática e quais estratégias usam para registrar pensamentos e emoções.
→ Conversas exploratórias: diferente das conversas informais em que as informações surgem sem o uso de instrumentos específicos, a conversa exploratória vem no sentido de complementar uma informação ou uma observação realizada com o participante da pesquisa. A conversa exploratória, assim, pode aproximar ainda mais o pesquisador de algumas questões que ficaram confusas ou levantaram dúvidas ao longo da pesquisa. Apresenta uma intencionalidade e, por isso, não a consideramos como conversa informal.
Entrevista semi-estruturada
Além dos sistemas conversacionais, consideramos que a entrevista também é um instrumento que contribui para a aproximação dos colaboradores e para compreender as formas de planejamento e organização de sua prática pedagógica. A entrevista semi- estruturada foi organizada por um roteiro com pontos que nos ajudaram a trazer os professores ao tema da pesquisa, pois, assim, a conversa com eles poderia fluir com mais intimidade e flexibilidade. Nessa modalidade, o pesquisador foi ampliando o diálogo aproveitando o espaço para tirar algumas dúvidas que surgiram nos outros instrumentos, completar ou desdobrar informações. Por isso, ela foi considerada um instrumento importante para esta pesquisa (Apêndice B).
Instrumentos escritos:
Segundo González Rey esses instrumentos têm por objetivo “facilitar expressões do sujeito que se complementem entre si, permitindo-nos uma construção, mais ampla possível, dos sentidos subjetivos e dos processos simbólicos diferentes, que caracterizam as configurações subjetivas do estudado” (GONZÁLEZ REY, 2005b, p. 51). Foram eles:
→ Completamento de frases: instrumento adaptado por González Rey e Martínez (1989) que consiste em indutores curtos diretos ou indiretos que permitem ao pesquisador levantar indicadores capazes de gerar hipóteses, principalmente sobre a configuração subjetiva dos colaboradores pesquisados. A presente pesquisa utilizou o completamento de frases para se aproximar de aspectos subjetivos relacionados a pontos específicos de reflexão dos participantes (Apêndice E).
→ Redação: a redação trata-se de um instrumento que permite a expressão individual do colaborador pesquisado sobre um tema específico. As redações possibilitam a elaboração pessoal e contribuem na produção de informações e de indicadores quando somados a outros instrumentos. “As redações, ainda que estejam direcionadas pela intencionalidade do sujeito, representam uma fonte rica de indicadores sobre os sentidos subjetivos da pessoa estudada, os quais permanecem além de suas possibilidades conscientes”
(GONZÁLEZ REY, 2005b, p. 63). Nesta pesquisa, a redação teve a proposição de pedir ao professor uma reflexão sobre o sentido de sua vida e de sua profissão, cujo objetivo era aproximar de sua história e identificar elementos subjetivos presentes nessa trajetória (Apêndice D)
Análise documental:
A análise documental caracteriza-se por buscar documentos diversos ou materiais escritos que possam contribuir com o pesquisador. Os documentos “não são apenas uma fonte de informação contextualizada, mas surgem num determinado contexto e fornecem informações sobre esse mesmo contexto” (LUDKE; ANDRÉ, 2012, p. 39). Nesta pesquisa, fizemos uma análise dos seguintes documentos que fazem parte do cotidiano da escola:
o planejamento e sequência didática elaborada pelos professores em conjunto; os relatórios dos alunos;
anotações pessoais dos professores; caderno de planejamento dos professores; fichas dos conselhos de classe;
Projeto Político Pedagógico da Instituição Educacional Produção simbólica:
Esses indutores são
parte do infinito repertório de operações simbólicas das pessoas em seus contextos culturais, os quais se convertem em instrumentos quando estão desenhados para produzir um tipo de expressão dentro de um contexto particular (o da pesquisa) com vistas à produção de conhecimento. (GONZÁLEZ REY, 2005b, p. 65).
O uso desses instrumentos pode facilitar a expressão singular dos colaboradores que participaram da pesquisa. Foram eles:
→ Caixa-museu: consistiu em solicitar aos participantes que colocassem em uma caixa tudo o que trazia lembranças, boas ou ruins, da sua trajetória escolar e profissional. Neste momento, o intuito era trazer elementos, objetos, fotos, textos,
reflexões que pudessem expressar as alegrias e frustrações da profissão de professor e como isso interferia ou não em sua ação docente (Apêndice C).
→ Caderno reflexivo: este instrumento consistiu em um caderno com algumas frases incompletas relacionadas à pratica docente dos participantes da pesquisa. Ao recebe-lo, a professora podia completar a pergunta da forma como quisesse, utilizando imagens, texto, recortes de revistas ou jornais de forma que tornasse clara a sua posição em relação à frase. A ideia de acrescentar o caderno como instrumento de pesquisa deu-se pelo fato de identificarmos a importância de o professor colaborador registrar sobre alguns pontos relacionados à sua organização pedagógica e à sua turma e refletir sobre eles, de maneira que pudesse contribuir com o desenvolvimento de sua ação docente (Apêndice F).
Momentos informais:
Muitas vezes, é na informalidade que os colaboradores manifestam elementos que ainda se encontram confusos para o pesquisador. Na perspectiva da Epistemologia Qualitativa, as informações obtidas na informalidade têm o mesmo valor e a mesma legitimidade que àquelas que foram obtidas por meio dos instrumentos planejados.