Identificação: D.Juju, 61 anos, casada, mineira, nível de escolaridade superior completo, católica não praticante, reside com o marido e uma filha.
IIª PARTE: Você tem 30 minutos para fazer um desenho com os seguintes elementos: uma queda, uma espada, um refúgio, um monstro devorante, alguma coisa cíclica (que gira, que produz, ou que progride), um personagem, água, um animal (pássaro, peixe, réptil ou mamífero), fogo.
Segue ilustração:
IIIª PARTE: Escreva aqui a história do seu desenho.
A queda refere-se a uma queda d’água, a qual pode estar no mesmo local do refúgio aonde se observa uma pequena casa nas montanhas, com plantas (flores) e pássaros no céu aonde brilha o sol. Não sei o porque da espada e nem sei porque ficou virada ao contrário, talvez para não cortar. O monstro ficou com cara de bonzinho, mas tem xifres que lhe dão certa credibilidade. O lago com peixinhos também faz parte do recanto da casinha sossegada. O fogo, por ser produzido, ou seja, vir de uma fogueira, também aquece o jardim
da casa e aonde pode-se assar pinhões. A personagem não sei quem é? Senti dificuldades de encontrar sua identidade.
IVª PARTE: Responda de modo preciso às seguintes questões: A) Sobre que idéia você centrou sua composição?
Sobre a ideia de uma casa aconchegante, num lugar quieto, menos urbano.
B) Você foi eventualmente inspirado?
Sim, pelo desejo de passar uns dias naquele lugar.
C) Entre os nove elementos do teste de sua composição indique:
1. Os elementos essenciais em torno dos quais você construiu o desenho:
O refúgio, o lago, a fogueira.
2. Os elementos que você teria vontade de eliminar. Por quê?
O monstro não tem nada a ver com minha quietude e não me assombra e a personagem, pela dificuldade em identificá-la.
D) Como acaba a cena que você imaginou?
Com paz, descanso e refazimento.
E) Se você tivesse que participar da cena composta onde você estaria? O que faria?
Na casa, numa noite fria, tomando vinho e escutando música.
No quadro seguinte, você deve especificar:
1. Por meio de que você representou os 9 elementos do teste (coluna A).
2. O papel, a função, a razão de ser de cada uma de suas representações (coluna B). 3. O que simboliza, para você, cada um dos 9 elementos do teste (coluna C).
Elemento A. Representado por B. Função/Papel C. Simbolizando
Queda Cachoeira Barulho de água caindo Sossego
Espada Espada Decorar Nada
Refúgio Casa na montanha Abrigo Sossego
Monstro Carranca De divertir Personagem de histórias infantis
Cíclico Relógio Marcar o tempo de ficar e de voltar Tempo
Elemento A. Representado por B. Função/Papel C. Simbolizando
Personagem Mulher Compor o quadro descrito Ninguém, não sei identificar
Água Lago Proporcionar prazer do banho, da pesca Quietude
Animal Peixe Colorir o lago, embelezar Quietude
Fogo Fogueira alimentos rústicos Aquecer, preparar Aquecimento, utilidade
Análise:
No início da análise do protocolo do teste AT-9 da D. Juju pensamos estar diante de um micro universo mítico desestruturado ou pseudo-desestruturado pelo mesmo apresentar alguns elementos grafados pictoricamente de forma separados, isolados uns dos outros, sem deixar muito evidente a correlação entre eles.
Lembramos que o imaginário não significa apenas um conjunto de imagens, mas sim, um conjunto relacional de imagens. A relação desses elementos/imagens grafadas no protocolo é que nos darão as pistas para a decodificação do secreto imaginário que vamos encontrar no trajeto antropológico.
No entanto, com uma mais aguçada mirada ao desenho, encontramos o elemento refúgio, representado por D. Juju por uma casa na montanha, aconchegante com plantas janelas e porta. Para Bachelard (1988, p. 145):
Todo canto de uma casa, todo ângulo de um quarto, todo espaço reduzido onde gostamos de encolher-nos, de recolher-nos em nós mesmos, é, para a imaginação, uma solidão, ou seja, o germe de um quarto, o germe de uma casa [...] O canto é assim a negação do Universo. [...] todo retiro da alma tem figuras de refúgio. D Juju deixa ver em sua fala a necessidade e a vontade de tranquilidade e responde às questões do teste registrando desejo de passar uns dias naquele lugar e cita como elementos essenciais na dramatização imaginada o refúgio, o lago, a fogueira. Os elementos que gostaria de excluir da história foram o monstro, pois não tem nada a ver com minha quietude e não me
assombra e a personagem, pela dificuldade em identificá-la. A cena acaba com paz, descanso e refazimento e o sujeito autor gostaria de estar na casa, numa noite fria, tomando vinho e escutando música. Tudo isto leva a crer tratar-se de um microuniverso mítico místico.
Aparece, no desenho, uma mulher, dita no quadro a personagem, em pé, o que poderia remeter a um heroísmo, porém sem portar uma espada e com as mãos na cintura em posição de descanso ou de apenas observação. D. Juju deixa ver na sua fala o sofrimento (menarca
volumosa... muito doloroso... desconforto... muito sofrida), o medo (fiquei muito assustada) e
vontade de paz (a sexualidade é maior do que o sexo... trocar carícias... mudar de ambiente...
mais relaxada...). Ela reage pouco (mãos na cintura no desenho do teste) e para agradar ao
marido procura um médico (a impureza heróica em um microuniverso mítico místico). Não se identifica como protagonista da dramatização, como pode ser verificado em sua fala e no simbolismo atribuído ao elemento personagem, no quadro do teste: ninguém, não sei
identificar tem apenas o papel, representada como mulher para compor o quadro descrito.
Os demais elementos estão desenhados soltos, uma espada invertida se sobrepondo ao desenho todo e que é dita pelo sujeito autor não saber por que e nem para que: não sei o
porque da espada e nem porque ficou virada ao contrário, talvez para não cortar (o que pode
estar deixando ver, na sua postura não ereta, laivos iniciais de antifrasia e de não luta). A espada por sua figura pode estar lembrando um símbolo fálico, pois na fala de D. Juju ela confessa ter medo e até desprazer no ato sexual (para não cortar), valorizando a sexualidade, o carinho preliminar a este. Ela diz que casou virgem e que o sexo no início era mais doloroso
que prazeroso, depois de procurar o auxílio de um médico tudo ficou tranqüilo até a chegada
da menopausa com o ressecamento, ardência... sofrida mesmo.
Na narrativa do teste o elemento monstro, que teve como imagem desenhada uma
carranca divertida como personagem de histórias infantis, leva-nos a constatar a eufemização
do elemento monstro devorante colocado no teste AT-9 por Yves Durand para suscitar a ideia, o arquétipo da morte. Na sua fala D. Juju reclama da postura do marido ele não aceita o sexo
sem penetração. O ato sexual parece ser o monstro da sua vida, mas ela eufemiza o dissabor
repetindo, referindo-se muitas vezes à paciência do marido (o monstro), ele teve muita
paciência... foi muito paciente... apesar da paciência. D. Juju completa a representação do
elemento monstro dizendo que ele está com xifres que lhe dão credibilidade, como pode ser visto no desenho pictografado no protocolo do teste. Com este adendo colocado sobre o elemento monstro pode-se perceber que, para o sujeito autor, o monstro com cara de bonzinho não deixa de fazê-la (sofrer) pensar na morte. Muito pouco aparece de heroísmo nessa história, a não ser pelas imagens do sol, dos pássaros e da espada, apesar de invertida, e da carranca, mas tanto o elemento espada como o elemento monstro, elementos que identificam o heroísmo, existem na dramatização imaginada – a espada como decoração (decorar) e o monstro como personagem de história infantil – o que suaviza ou descaracteriza um possível heroísmo que não chega a se atualizar. Eles aparecem apenas como uma impureza no imaginário místico da D. Juju. Situação corroborada pelo pensamento de Yves Durand ao
analisar uma estrutura mística impura em que afirma que “monstro e ou espada apesar de desenhados não terão nenhum papel funcional útil para o personagem; sua presença será justificada no discurso por uma seqüência sem relação direta com o tema principal” (DURAND, 1988, p. 97). Na fala D. Juju ensaia uma reação (luta) ao conversar com o marido: pra ele me tratar como mulher, como esposa pra gente sair, namorar, mas ela não entende que o marido não aceite sexo sem penetração, pois ela confessa que pela dor física que causa, não me dá prazer, não me dá conforto, me dá até rejeição, por conta da dor
mesmo.
Quando da realização do teste com D. Juju, esta demonstrou dificuldade em se identificar como personagem protagonista de uma história, ela desenha uma mulher e ao relacionar o elemento personagem no quadro do teste, também a representa como uma
mulher, o que nos leva a entender, que ela se identifica ou se assume como esta mulher. A sua
fala registra que ela fica a mercê, primeiro da mãe que a critica, depois de médicos e ainda do marido que reclama dela. Ao longo de sua vida ela foi conduzida pelos outros, tutorada sem reagir às criticas, satisfazendo os desejos alheios em detrimento das suas vontades. Não lutou contra o pré estabelecido, o que deixa ver subjacente às suas ações um imaginário místico.
O elemento cíclico foi representado pictoricamente por um relógio que segundo o sujeito autor tem função de marcar o tempo, de ficar e de voltar simbolizando o tempo. No entanto, esse tempo simbolizado não está incluído no discurso do sujeito autor. Entretanto pode-se constatar na fala colhida com a D. Juju que ela sente este tempo que passa referindo- se ao início, menarca, à vida mais tranquila depois das orientações médicas e do retorno do desprazer com a chegada da menopausa: outra vez começou a ficar complicado.
Por tudo isso, podemos identificar a estrutura do imaginário representada neste protocolo como uma estrutura mística com pequenas impurezas do regime diurno – sol, espada e monstro – o que nos leva a entender estarmos presente, não como pensamos de início, mas sim depois dessa análise, a um imaginário com ESTRUTURA MÍSTICA IMPURA.
Conforme nos explicita o criador do teste AT-9 (DURAND, Y. 2005, p. 24-25), a estrutura mística é constituída por realizações caracterizadas pela representação de uma “ação” pacífica, de “vida pacífica” reinante o que implica em particular uma “desfuncionalização” dos elementos monstro e da espada.