• No results found

(Apud Ateneu de Náucratis, Deipnosofistas 13.37.1-4)

—————————————————————————————————— Fragmenta 5a3 Athenaeus XIII: Θεµιστοκλῆς τε, ὥς φησιν Ἰδοµενεὺς, οὐχ ἅρµα ζευξάµενος ἑταιρῶν πληθούσης ἀγορᾶς εἰσήλασεν εἰς τὸ ἄστυ; Ἦσαν δὲ αὗται Λάµια, καὶ Σκιώνη καὶ Σατύρα καὶ Νάννιον. Tradução: Fragmentos 5a3

Ateneu XIII: E Temístocles, como disse Idomeneu, não adentrou a cidade, pela

Ágora lotada, num carro equipado com hetairas? Eram elas Lâmia, Síone, Satura e

Nânion.

Comentário:

ἑταιρῶν: o trecho recortado teria vindo de uma obra a respeito da vida de

Temístocles e é citado na obra Deipnosofistas, de Ateneu de Náucratis.367 Nela,

Ateneu cita esse comentário que Idomeneu teria feito: Temístocles adentrando a cidade de Atenas após uma de suas vitórias, em um carro equipado com quatro

367 Temístocles (ca. 524-459 a.C.) foi um político ateniense de grande renome, que desempenhou as

funções de arconte e estratego. Foi ele quem iniciou as obras preparatórias para a construção do Pireu como porto principal de Atenas, e quem aprovou um gasto maior de prata para que se aumentasse a frota naval ateniense de setenta para duzentos navios de guerra, que acabram se tornando parte crucial da defesa da cidade nas batalhas navais contra os persas. Foi ele, ainda, que liderou a cidade contra os persas em 480 a.C., durante as Guerras Médicas, tanto na batalha terrestre da Tessália, quanto nas batalhas navais de Artemísio e Salamina. Contudo, na batalha final em 479 a.C. não há registros de sua participação, e os ateniensess foram liderados por Aristides e Xantipo, enquanto os gregos todos foram liderados pelos reis espartanos Pausânias (neto de Leônidas), em terra, e Leotíquides, no mar. Temístocles entrou em conflito com os espartanos, e acabou sendo ostracizado em 470 a.C., indo viver em Argos e perambulando pelas cidades do Peloponeso que eram contrárias aos espartanos. Foi, por fim, acusado pelos espartanos de estar em contato com Pausânias e ambos estarem tramando com os persas, e fugiu para a Ásia Menor, tendo sido condenado à morte pelos atenienses em sua ausência. Em 465 a.C. o rei persa, Artaxerxes I, proclamou-o governador da Magnésia, onde ele viveu o resto de seus dias. Cf. Hornblower & Spawforth, 1996, pp. 1497-1498;cf. Ateneu, Deipnosofistas 13.37.1-13.37.4, que pode ser encontrado nesta tese em Ateneu de Náucrates, pp. 219-233.

hetairas, pela praça pública repleta de cidadãos. Uma dessas hetairas se chamava

Lâmia, obviamente não a mesma de Demétrio Poliorcetes, pois há muitos anos de

diferença entre os dois.368 A Lâmia de Temístocles é menos famosa que a de

Demétrio, da qual muito se falou.369 A de Temístocles só aparece nesse fragmento.

O LSJ define a palavra grega ἑταίρα como "companheira" em primeira acepção, e "cortesã", como segunda; já πόρνη é definida como "meretriz,

prostituta".370 Chantraine segue o verbete do LSJ e define a primeira palavra da

mesma maneira, como "companheira, cortesã", mas faz uma comparação entre três palavras usadas pelos gregos antigos para designar as atividades femininas de "cuidado" dos homens, ao definir a segunda palavra: πόρνη, "prostituta, puta", "dito de uma mulher que é prostituída ou que se prostitui, honestamente diferente (e mais

pejorativo) que ἑταίρα, 'namorada' e de παλλακή, 'concubina'".371

Portanto, fica entendido que há uma diferença entre as classes de "cuidadoras" delimitada pelo emprego de cada uma dessas palavras. Essa é a afirmação de Demóstenes, em seu discurso Contra Neera, em que afirma que "pois temos as

hetairas para o prazer, as concubinas para o cuidado diário do corpo, e as esposas

para fazer filhos e para ter uma guardiã confiável das coisas domésticas".372

Demóstenes não usa a palavra πόρνη, as mulheres que servem para o prazer são as ἑταίραι.

Marina Gurina afirma que a ligação da hetaira com seu(s) amante(s) era duradoura e longa, na maioria das vezes, e é por isso que muitas acabaram citadas na literatura pelo nome de seus amantes, como "a hetaira de Olimpiodoro", "a hetaira de

Atenogenes".373 Todavia, existe uma discussão a respeito das diferenças entre a

hetaira e a porne. A própria Gurina pontua que essa diferença não é bem estabelecida

368 Entre a morte de Temístocles, ca. 542-459 a.C., e o nascimento de Demétrio Poliorcetes, 337-283

a.C., há, exatamente 122 anos.

369 Para ler os relatos sobre a Lâmia de Demétrio, cf. nesta tese Demócares, pp. 115-116; Mácon, pp.

127-128; Filarco, p. 129; Polemon de Atenas, pp. 130-131; Plutarco, Demétrio, pp. 173-184,

Comparação entre Demétrio e Antônio, pp. 184-185; Ateneu de Náucratis, pp. 219-233; Clemente de

Alexandria, pp. 242-244; Alcífron, pp. 249-253; Cláudio Eliano, pp. 262-263. 370

LSJ, 1996, p. 700 e p. 1450, respectivamente.

371 Chantraine, 2009, p. 363 ἑταίρα, entrada do verbo πέρνηµι p. 856 ("dit d'une femme que l'on

prostitue ou que se prostitue, franchement diférent (et plus péjoratif) de ἑταίρα «petite amie» παλλακή «concubine»"), redirecionado a partir de πόρνη, p. 895. Chantraine, 2009, p. 823, afirma que a palavra παλλακή "também é empregada na prostituição ritual" ("le mot s'emploie aussi pour la prostituition rituelle").

372 Cf. Demóstenes, Contra Neera 122.4-7: "τὰς µὲν γὰρ ἑταίρας ἡδονῆς ἕνεκ' ἔχοµεν, τὰς δὲ παλλακὰς

τῆς καθ' ἡµέραν θεραπείας τοῦ σώµατος, τὰς δὲ γυναῖκας τοῦ παιδοποιεῖσθαι γνησίως καὶ τῶν ἔνδον φύλακα πιστὴν ἔχειν". Texto grego retirado de Rennie, 1960 = TLG.

e afirma que

as diferenças entre as heteras e as pornai nos textos não são claras, mas na historiografia moderna tende-se a estabelecer uma oposição em termos de status: a hetera seria a cortesã de luxo ou amante, muitas vezes mantida por apenas um ou dois homens. Ao contrário a porne seria a prostituta de rua ou de bordel, que ofereceria sexo por dinheiro a uma numerosa e anônima clientela. Na verdade há uma superposição frequente dos dois termos nas fontes antigas e muitas vezes é difícil manter a distinção. Tanto a hetera quanto a porne podem ser escravas ou livres, ambas podem ter um mantenedor ou ser autônomas.374

Dessa maneira, parece ser complexo precisar as diferenças entre o emprego dessas

duas palavras, já que seu uso é, muitas vezes, indiscriminado.375

Todavia, Lisley Kurke pontua que a palavra πόρνη parece ser mais usada

pejorativamente na poesia grega arcaica, enquanto a palavra ἑταίρα aparece mais

vezes em contextos de delicadeza e com uma aura de refinamento. Na verdade, ela afirma que ἑταίρα nunca aparece explicitada nos poemas do âmbito do simpósio, e que são frases sutis que deixam o apreciador dessa poesia perceber que é de uma

hetaira que se está falando. Por essa razão Kurke sustenta que "isso sugere que

'hetaira' é um termo de escárnio, aplicado por aqueles de fora do simpósio aristocrático para zombar da igualdade simpótica entre prostituta e participante da

elite (hetairos)".376 Ela ainda discorda da liberdade e independência que alguns dizem

que a hetaira tinha, pois afirma que durante o simpósio "as mulheres funcionavam assim como a mobília simpótica, como os sofás e travesseiros — objetos para servir

às necessidades dos simposiastas, e criar uma certa atmosfera".377 Assim, Demóstenes

não soa errado ao mencionar a divisão do papel social da mulher nas três categorias de hetaira, concubina e esposa, todas com o único propósito de servir os homens em

374

Gurina, 2008, p. 134: "Las diferencias entre las heteras y las pornai en los textos no son claras pero en la historiografía moderna se ha tendido a estabelecer una oposición en términos de estatus: la hetera, sería la cortesana de lujo o amante, a menudo mantenida solo por uno o dos hombres. En cambio la

porne sería la prostituta de la calle o del burdel, que afrecía sexo por dinero a una numerosa y anónima

clientela. En realidad, hay una superposición frecuente de los dos términos en las fuentes antiguas y a menudo es difícil mantener la distinción. Tanto la hetera quanto la porne pueden ser esclavas o libres, ambas pueden tener un mantenido o ser autónomas".

375 Cf. Gurina, 2008, pp. 131-134; Kurke, 1997, pp. 107-108, em que ela aponta as dificuldades dessa

distinção, e os enganos cometidos pelos pesquisadores

376 Cf. Kurke, 1997, pp. 112-113, especialmente p. 113: "This suggests that 'hetaira' is a term of

derision, applied by those outside the aristocratic symposium to mock the sympotic equality of protitute and elite participant ('hetairos')".

377

Cf. Kurke, 1997, p. 119: "[...] the women functioned as so much the sympotic furniture, like the couches and pillows — objects to serve the needs of the male symposiasts and create a certain atmosphere".

suas necessidades básicas: prazer, cuidados corporais e prole.

De modo que tanto Kurke quanto Gurina acabam por concluir que, embora possam ser usadas como sinônimos, essas duas palavras são aplicadas em discursos diferentes. Segundo Kurke

A oposição entre hetaira e porne parece funcionar dentro de uma complexa rede de diferenciação econômica, social e política de tradições médias e elitistas, em que o simpósio aristocrático inventa a hetaira para proteger-se da esfera pública, que ele imagina e traduz através da obscenidade da porne.378

Assim, as relações entre essas duas figuras femininas englobariam mais do que apenas papéis ou status diversos na sociedade patriarcal grega. Gurina, no entanto, não parece concordar totalmente com Kurke, pois sustenta que

Pode-se dizer que há dois discursos distintos sobre as mulheres que obtêm dinheiro com o sexo. No primeiro associa-se a figura das heteras com mulheres concretas, muitas vezes identificadas com um nome específico e das quais assinala-se o controle que exercem sobre os homens e seus apetites. Outro discurso, associado à porne, tenta despersonalizar e codificar seu corpo e seus serviços.379

Assim, podemos pensar que a hetaira de Demétrio Poliorcetes, referida como uma

auletrida chamada Lâmia, dependia dele para sobreviver e era sustentada por ele com

o único objetivo de lhe dar prazer, e que sua vida, assim como as vidas das outras

hetairas (e por que não, das mulheres), estava nas mãos de seus benfeitores.

Portanto, ainda que tanto hetairai quanto pornai sejam construtos linguísticos, o fato é que elas estavam ligadas às atividades de entretenimento masculino na Antiguidade, e sua condição, econômica, política e social, estava intrinsecamente conectada aos favores recebidos em troca dos serviços prestados aos cidadãos da

pólis. Não se pode ademais desprezar o fato de Lâmia ser nome dado a mulheres da

profissão acima descrita, associadas à voracidade sexual.

378 Cf. Kurke, 1997, p. 145: "The opposition of hetaira and pornê seems to function within a complex

network of economic, social, and political differentiation of middling and elitist traditions, whereby the aristocratic symposium invents the hetaira to shield itself from the public sphere, which it figures and traduces through the obscenity of the pornê".

379 Cf. Gurina, 2008, p. 134: "Puede decirse que hay dos discursos distintos sobre las mujeres que

obtienen dinero por el sexo. En el primero se asocia la figura de las heteras a mujeres concretas, a menudo identificadas con un nombre específico y de quienes se señala el control que ejercen sobre los hombres y sus apetitos. Otro discurso, asociado a la porne, intenta despersonalizar y codificar su cuerpo y sus servicios".

——————————————————————————————————