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Fase I: Krigen truer

Fase 4: Kompromisset

4. KONKLUSJON

Para Vieira Pinto a técnica, como ato produtivo essencialmente humano, abriu caminhos para considerações teóricas e justificou a instituição de um setor próprio do conhecimento, com vistas a uma consciência e reflexão crítica sobre o processo objetivo de criação da humanidade, por ele definido como ciência da técnica, ou epistemologia da técnica. (VIEIRA PINTO, 2005, p. 220). Neste sentido, este autor esclarece que o termo tecnologia assume maior importância, pois além de indicar a necessidade de unificar as considerações sobre a técnica, concebendo-a como objeto da pesquisa filosófica, revela a existência de um campo original, específico de estudo, a ser elucidado mediante as categorias do pensamento dialético crítico. Ou seja, a técnica como um objeto real, uma ideia consciente, requer uma reflexão racional para seu esclarecimento teórico:

Se a técnica configura um dado da realidade objetiva, um produto da percepção humana que retorna ao mundo em forma de ação, materializado em instrumentos e máquinas, e entregue à transmissão cultural, compreende-se tenha obrigatoriamente de haver a ciência que o abrange e explora, dando em resultado um conjunto de formulações teóricas, recheadas de complexo e rico conteúdo epistemológico. Tal ciência deve ser chamada de “tecnologia”, conforme o uso generalizado na composição das denominações científicas. (VIEIRA PINTO, 2005, p. 221).

Vieira Pinto (2005) explica que a constituição de uma ciência da técnica surge da necessidade de reflexão crítica acerca dos aspectos do trabalho profissional, em que a sistematização dessas formulações possibilite uma imagem teórica da própria realidade existencial dentro do processo de trabalho, para que principalmente os técnicos possam ter clareza sobre a natureza de seu trabalho e sua função, tendo em vista que, por falta de formação crítica adequada, os técnicos revelam-se incapacitados de compreender a natureza do trabalho que executam e de sua função nele.

Além do mais, ao definir a Epistemologia da técnica como conceito primordial nas suas reflexões, Vieira Pinto aponta para a necessidade de uma compreensão mais ampla e universal acerca da técnica, ou seja, uma compreensão unitária da técnica, para que se possa perceber o universal contido em cada forma de técnica, ou ato produtivo. “Deste modo, a prática aparentemente mais grosseira ou confinante conduz, pela apreensão do seu significado teórico ou epistemológico, à aquisição do universal, representado pelo igual valor existencial do trabalho de cada homem”. (VIEIRA PINTO, 2005, p. 223).

Para o autor, a tecnologia, atrelada às condições sociais, necessita de um campo específico de estudo que dê conta de seu significado, valor e finalidades, considerando-se o contexto político, econômico e social, a que pertencem. “O domínio teórico da técnica pelo homem liberta-o da servidão prática à técnica, que vem sendo, crescentemente, o modo atual de vida pelo qual é definido e reconhecido”. (VIEIRA PINTO, 2005, p. 223).

Assim sendo, uma epistemologia da técnica, ao conferir ao termo tecnologia o seu real significado histórico, evita concepções enganosas e de origem muitas vezes supersticiosa, que tendem a ver a tecnologia como algo maléfico à

humanidade. Como se pudesse ser autônoma e dissociada das relações humanas, um fim em si mesma. Como se a tecnologia por si só fosse capaz de dominar os seres humanos e traçar o destino da humanidade. Um engano que, segundo Vieira Pinto (2005), para ser superado implica que a consciência do pensador liberte-se das abstrações idealistas em que tradicionalmente se formou e tome sua atenção aos suportes objetivos, ou seja, à realidade física e social em sua volta:

Ora, os suportes, no mundo hoje, são o sedimento de técnicas e objetos artificiais que recobrem a superfície da realidade física e social com que o homem tem contato. Deste modo o pensamento, ao tentar elaborar a compreensão do mundo, tem de fazê-lo entendendo por “mundo” cada vez mais o conjunto de objetos artificiais, filhos da técnica, que lhe estão ao alcance da mão e, por essa via, da reflexão”. (VIEIRA PINTO, 2005, p. 224).

Vieira Pinto (2005) explica que como a atenção dos homens agora se volta às suas próprias criações, ao mundo artificial projetado e criado segundo suas necessidades e vontades, deixamos de admirar a lua, as estrelas, e passamos a admirar os satélites artificiais, obras da própria criação humana. Esses objetos artificiais passam, então, a ser os suportes objetivos da contemporaneidade, o foco da admiração e reflexão que servirão para explicar aos homens a realidade de si mesmos. “Atualmente são os métodos de invenção humana que se substituem aos fenômenos, agora o termo fenômeno passa a indicar o comportamento humano, ao referir-se ao fenômeno o homem está referindo-se a si próprio”. (VIEIRA PINTO, 2005, p. 224).

O autor explica que essa transmutação, ou deslocamento de interesse, em que os objetos artificiais

tornaram-se o foco de admiração, ocorreu devido a força técnica criadora que possibilitou povoar cada vez mais o mundo com objetos criados pelo próprio homem. No entanto, esclarece que é nas relações sociais onde esses objetos adquirem conteúdo de valor neles reconhecidos. “Por isso o homem cada vez mais somente tem acesso aos fenômenos do mundo físico pela mediação social, pela qual se engendram as coisas de que necessita.” (VIEIRA PINTO, 2005, p. 224)

Dessa forma ao entender por “fenômeno” o comportamento dos outros homens, e não mais o comportamento da natureza, a técnica perde seu caráter primordial, o qual caracterizava o conceito de tecnologia como epistemologia da técnica. Ao ignorar as relações de propriedades invariáveis dos corpos naturais para encontrar formulação do seu conceito lógico, na maneira pela qual os homens organizaram as relações sócias de produção, a tecnologia passa a ser uma ideologia. Vieira Pinto explica:

Na qualidade de fundamento, é nas relações sociais que cada indivíduo encontra a possibilidade, ou não, de ter acesso aos bens de consumo a que aspira. Cria-se assim uma epistemologia da técnica, fundada não na relação do homem com a natureza, definidora do aspecto essencial, variando unicamente segundo as condições determinadas pelo progresso científico, mas sim nas relações dos homens uns com os outros, que são acidentais, enquanto formações históricas sucessivas. Elevando-a a categoria de ideologia social. (VIEIRA PINTO, 2005, p. 225).

Observa-se então, em acordo com Vieira Pinto (2005), que em nossa sociedade contemporânea a epistemologia da técnica vê-se fundada não mais nos fenômenos naturais, fundamento das invenções humanas, mas sim nas relações

sociais de produção inerentes ao sistema capitalista, em que a realidade dos sujeitos se constitui e se modifica na mesma velocidade em que surgem os novos suportes históricos, ou objetos artificiais que criam uma nova realidade. Assim, envolvida neste emaranhado de invenções cada vez mais complexas, para compreender a si mesma a humanidade busca não mais na natureza suas referência, mas nas obras de outros homens.

Vieira Pinto (2005) nos alerta que a origem de concepções ingênuas acerca da tecnologia reside no fato de não saber interpretar dialeticamente essa nova realidade objetiva. Ade mais, a falta de um esforço intelectual conjunto entre teóricos e práticos - ou pensadores e técnicos - e a negação da totalidade, também impedem a consolidação de uma compreensão superior unitária acerca das problemáticas decorrentes da tecnologia. Nesse sentido, “O processo histórico perde a natural força criadora, para se tornar o depósito de valorações emanadas de espíritos iluminados”. (VIEIRA PINTO, 2005, p. 230). Assim, essas concepções ingênuas acerca da tecnologia são aceitas como verdadeiras ao se perder de vista o fator histórico constitutivo do desenvolvimento tecnológico.

Para Vieira Pinto (2005) a tecnologia em seu primeiro sentido constitui um tema definido da reflexão filosófica, numa reflexão mais ampla a compreensão da tecnologia constituirá a verdadeira teoria da práxis, em que “Viver no mundo da técnica enuncia a normal definição da condição humana, porque expressa aquilo que a distingue do animal”. (VIEIRA PINTO, p. 254). Para o autor, a tecnologia em seu sentido mais amplo significa a capacidade e realização criadora da humanidade. Nesta perspectiva, o nome tecnologia refere-se à própria práxis humana. Uma práxis criadora, constituída num processo dialético onde a mediação do trabalho humano possibilita transformar e construir um mundo cada vez mais

artificial e que, ao criar uma nova realidade social, também transforma a si mesmo.