A família pode entendida como um sistema, um todo, uma globalidade, que só numa visão holística pode ser correctamente compreendida (Imaginário, 2004; Alarcão, 2002). É um grupo de duas ou mais pessoas, unidas ou não por laços de parentesco, que podem ou não residir na mesma habitação e que se unem na partilha de laços emocionais (Stanhope e Lancaster, 1999). A família é encarada como um sistema, pois é composta por objectos e respectivos atributos e relações, contém sub-sistemas e é contida por diversos outros sistemas, ou supra-sistemas, todos eles ligados de forma hierarquicamente organizada e possui limites e fronteiras que a distinguem do seu meio. É um sistema aberto pois estabelece trocas com o exterior e co-evolui a par com contextos mais vastos. Enquanto sistema o comportamento de um elemento não é suficiente para explicar o comportamento de outro elemento e vice-versa. Para esta autora a família muda de estrutura1 mantendo a sua organização face a situações de crise2 (Alarcão, 2002).
Todavia, o mundo contemporâneo favorece o modelo familiar que dá primazia ao imediato, à satisfação dos momentâneos prazeres da vida, perdendo-se em consequência, os compromissos definitivos, torando-se a família uma estrutura instável. Apesar de a família estar em mudança, no sentido de acompanhar o processo dinâmico das sociedades, não pode, contudo, ser esquecido que ela é e continua a ser o local privilegiado das relações estruturantes do indivíduo. A família continua pois, a ser considerada a unidade fundamental da sociedade, assim consagrada em declarações e constituições políticas, traduzindo uma especial centralidade em momentos do ciclo de vida específicos, como na fase da senescência de um dos seus elementos (Imaginário, 2004).
A contribuição da família para o grupo etário do idoso é tão importante que se defende a nível mundial que nenhuma instituição possa substituir a família na prestação de apoio para o idoso. A família é, no entanto, o suporte e o lugar privilegiado para o idoso. (Imaginário, 2004).
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Estrutura: “conjunto de relações que se estabelecem em cada etapa da vida da família e que lhe vão conferindo configurações particulares, sem nunca lhe modificar a identidade básica”(Alarcão, 2002, p.49)
2
“A crise surge porque o sistema se sente ameaçado pela imprevisibilidade que a mudança pode causar” (Alarcão, 2002, p. 96)
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É de referir que um idoso dependente na esfera familiar altera indiscutivelmente o movimento natural do ciclo familiar, podendo ocorrer mudanças a nível a individualidade e da autonomia de todos os elementos da família, podendo alguns elementos ter necessidade de alterar ou desistir de alguns projectos de vida, contribuindo tudo isto para modificar a estrutura familiar e para criar novas relações entre os seu membros.
Conforme abordado, a família tem vindo a manter uma importância básica e fundamental nas funções de protecção e cuidado aos seus membros, observando-se também nas relações familiares, sentimentos de solidariedade e reciprocidade manifestados de diversas formas (Imaginário, 2004).
As características dos membros da família individualmente ajudam a determinar o carácter do sistema familiar, mas este sistema familiar é mais que a soma das características dos seus indivíduos, daí a importância de se abordar a perda inerente ao sistema familiar (Worden, 1998). Por outro lado, a avaliação da perda no sistema familiar é essencial, pois, o luto não resolvido pode, não só servir como factor-chave na patologia familiar, mas também contribuir para relações patológicas através de gerações (Worden, 1998).
A partir de uma perspectiva familiar sistémica, a perda pode ser encarada como um processo transacional que envolve a pessoa que faleceu e os sobreviventes num ciclo de vida comum, que reconhece tanto a finalidade da morte como a continuidade da vida (Walsh e McGoldrick, 1998). Embora se reconheça uma variedade de reacções à perda, entende-se que os processos familiares são determinantes na adaptação saudável ou disfuncional à perda, para além de todos os outros factores já enunciados em capítulo anterior. A perturbação individual após uma perda, não se deve somente ao sofrimento e pesar, mas poderá também esta ser influenciada por mudanças na estrutura e no realinhamento emocional da família, consequente de uma perda (Walsh e McGoldrick, 1998).
A perda tem um impacto perturbador no equilíbrio familiar (Walsh e McGoldrick, 1998), (Worden, 1998) que poderá depender da fase específica do desenvolvimento do ciclo de vida em que o sistema familiar se encontra (Walsh e McGoldrick, 1998).
Quando se aborda a perda e os sistemas familiares, há necessidade de considerar, pelo menos, três áreas: a posição funcional ou o papel que a pessoa falecida desempenhava na família; a integração emocional da família; e a forma como a família facilita ou dificulta a expressão emocional (Worden, 1998)
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Para promover a adaptação e reorganização imediatas e a longo prazo da família à perda, bem como uma redefinição da sua própria identidade e objectivos, são identificadas duas tarefas familiares principais (Walsh e McGoldrick, 1998), que de alguma forma se sobrepõem às tarefas adaptativas individuais enumeradas por Worden em 1982:
O conhecimento compartilhado da realidade da morte e a experiência comum da perda: todos os membros da família (a seu modo) deverão confrontar a realidade da morte, o que poderá ser facilitado pela informação clara e comunicação aberta sobre os factos e circunstâncias da morte e pela compartilha do sofrimento e da experiência da perda.
A reorganização do sistema familiar e o reinvestimento noutros projectos de vida: a perda perturba o equilíbrio familiar e os padrões estabelecidos de interacção, sendo que o processo de recuperação, envolve um realinhamento das relações e uma redistribuição de papéis para compensar a perda e prosseguir com a vida familiar, sendo que a promoção da coesão e a flexibilidade no sistema familiar é crucial.
Torna-se importante referir e reconhecer que nem todos os elementos da família realizarão as mesmas tarefas adaptativas ao mesmo tempo (Worden, 1998).
São também descritos e enumerados factores que influenciam a adaptação familiar à perda como: a forma da morte; rede familiar e social; momento da perda no ciclo de vida; e o contexto socio-cultural da morte. Estes factores são coincidentes com os factores enumerados em capítulo anterior como factores de risco individuais para um processo mal adaptativo à perda (Walsh e McGoldrick, 1998).
Perante a perda são também vivenciados pelas famílias e sociedades alguns rituais que poderão facilitar a integração da morte, bem como as transformações dos sobreviventes e que são observáveis ao longo da história da humanidade e nas mais diversas culturas (Walsh e McGoldrick, 1998). Os rituais poderão ter como função uma transmissão de sabedoria de gerações anteriores com a esperança de que esta mesma sabedoria poderá ajudar a geração presente a lidar com problemas semelhantes (Sanders, 1999).
Na sociedade actual, cada vez mais tecnicista e individual, verificam-se inversamente, rituais cada vez mais discretos e em constante modificação (SFAP, 2000). O rito é definido como “um gesto simbólico comum a um grupo ou uma sociedade, cuja reprodução permite ultrapassar a violência da realidade que o suscita. A
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reprodução de gestos numa sequência bem ordenada constitui o ritual. Face à morte fala-se de rito e ritual funerários” (SFAP, 2000, p.45) que permitem dar segurança e conforto aos que vivem, temporizando a angústia que a morte gera e proporcionando um sentido para a morte (SFAP, 2000; Firth, 1993). O rito possibilita a passagem da realidade ao simbólico, ajudando a superar a violência do acontecimento, simbolizando a esperança e o desejo de sobreviver (SFAP, 2000).
O ritual funerário, como uma sequência de acontecimentos que se seguem à morte, permite ajudar no trabalho de luto e quando é eficaz assegura uma boa qualidade do mesmo, pois permite uma boa integração da perda e facilita a elaboração de um projecto de vida sem o familiar (SFAP, 2000). Por outro lado, o ritual funerário permite também uma compartilha do sofrimento e receber conforto da rede de apoio (Walsh e McGoldrick, 1998; Firth, 1993) Todavia, é importante o rito ter um sentido pessoal para a pessoa enlutada, pois, se tal não acontecer o seu valor terapêutico perde-se (Sanders, 1999).
A abordagem dos rituais inerentes à morte torna-se particularmente importante para o prestador de cuidados, pois permite compreender as crenças religiosas e as tradições culturais de cada comunidade de forma a se proporcionar um cuidado culturalmente sensível a cada pessoa (Firth, 1993; Twonsend, 2011).