“Esse é um lugar que está preso, não dá pra ver nada lá...”.
(Depoimento oral)
Com a definição pelo Sistema de Unidade de Conservação, um dos passos importantes na definição das Unidades de Conservação (UC’s) são as categorias relacionadas às Estações Ecológicas que foram instituídas pela Lei nº 6902, em 27 de abril de 1981. No artigo 1º (Brasil, 19981) está estabelecido que as UC’s sejam áreas representativas dos ecossistemas brasileiros, destinadas à realização de pesquisa ecológica, que devem considerar as necessidades de não colocar em perigo a sobrevivência das populações das espécies ali existentes.
Desde o início do estabelecimento das áreas protegidas no Brasil, as unidades de conservação, o objetivo maior tem sido o de manter os recursos naturais em seu estado original, para usufruto das gerações atuais e futuras. As atividades desenvolvidas vêm, desde então, fundamentando-se nos princípios metodológicos que norteiam a filosofia do trabalho e nas bases conceituais que as orientam (Ibama, 2001, p.1)
Em Mato Grosso, a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Sesc Pantanal, tem se tornado um espaço ecológico que possibilita a ancoragem deste estudo com a experimentação direta com o meio natural, em condições de estimular o interesse e facilitar a integração das comunidades biorregionais do entorno. Assim, este estudo busca verificar a perspectiva útil do referido espaço ecológico para a população pantaneira de São Pedro Joselândia. Nesta trilha vamos mergulhar na construção deste espaço ecológico, na esfera do imaginário que não se desvincula, e não se pode desvincular, das outras esferas pela própria natureza, pela essência da percepção do Pantanal que a comunidade de Joselândia possui.
“Sonha-se antes de contemplar. Antes de ser um espetáculo consciente, toda paisagem é uma experiência onírica. Só olharmos com uma paixão estética as paisagens que vimos antes em sonho”. (BACHELARD, 1989, apud PAIVA 2005, p. 127)
A idéia é compreender como a comunidade de Joselândia vê a criação da RPPN Sesc Pantanal dentro de espaço ecológico que possui fortes relações com a sobrevivência da comunidade há décadas. Por meio de depoimentos orais, buscou-se verificar a característica e o desenvolvimento do potencial do lugar, com base na tarefa biorregional de ver se este potencial pode ser realizado dentro da fronteira da região entre as idéias de preservação e conservação do ecossistema natural e cultural do Pantanal.
“Cada lugar tem uma história de como as possibilidades humanas e naturais da região foram exploradas. Muitas dessas histórias podem ainda ser resgatadas através da tradição oral e do conhecimento folclórico. Não se trata de voltamos a viver como os antigos, mas de explorar histórica e antropologicamente um pouco da sabedoria das culturas anteriores. Podemos também explorar criticamente a história de como essas culturas foram suprimidas ou exterminadas pelo desenvolvimento. A história de nossas biorregiões é também a nossa história”. (GRÜN, 2002, p. 94)
Este estudo pretende conhecer as percepções imaginárias dos moradores de São Pedro Joselândia, com a criação da RPPN pelo Sesc Pantanal. Segundo Maroti (2002, p.4), as UC’s continuam recebendo vários tipos de pressão por parte das comunidades de entorno, traduzidas na forma de ações de invasões, desmatamento, extração de produtos naturais, caça e pesca predatórias, expansão das atividades agrícolas, entre outros, comprometendo a conservação dos recursos naturais e culturais dessas unidades.
A RPPN do Sesc Pantanal, localizada entre os rios Cuiabá e São Lourenço, a 145 km de Cuiabá, com área de 110 mil hectares, representa aumento de um terço do total de ecossistema preservado no Estado de Mato Grosso. Encontra-se localizada no Pantanal de Poconé e Barão de Melgaço, integrado por uma estação ecológica e um Parque Ecológico conhecido como Parque Sesc Baía das Pedras. O ambiente é adequado à pesquisa científica e educação ambiental, além de contemplar a preservação e o uso dos recursos naturais associados a programas recreativos, educativos e acadêmicos para públicos diversificados, inclusive turistas nacionais e internacionais.
No entorno da Estação ecológica do Sesc Pantanal as comunidades biorregionais contemplam um amplo programa de reabilitação da fauna e flora locais, que até o
No entorno da Estação ecológica do Sesc Pantanal as comunidades biorregionais contemplam um amplo programa de reabilitação da fauna e flora locais, que até o presente vêm sofrendo o impacto da ocupação desordenada do solo. Entretanto, essas comunidades há séculos acumulam conhecimentos e experiências com as águas do Pantanal, que merecem ser objeto de pesquisa, visando traçar as percepções de meio ambiente e dos recursos naturais da região. Acredita-se que essas comunidades podem oferecer significativos subsídios para a compreensão dos impactos ecológicos, culturais e antropológicos com a implementação de uma unidade de conservação em território pantaneiro.
Diante dos graves problemas ambientais que vêm afetando os ecossistemas pantaneiros com o uso desordenado dos recursos naturais da região, há a necessidade de novos estudos das interações ser humano-sociedade-natureza no marco da comunidade São Pedro Joselândia. Todavia, a educação ambiental, pelo seu espírito epistemológico, apresenta novas alternativas que podem não apenas sensibilizar as pessoas sobre a teia da vida pantaneira, mas iniciar um processo de formação da consciência crítica através da mediação pedagógica pela sensibilização ambiental.
A nossa tentativa é evitar as falhas da grande parte dos programas de educação ambiental em unidades de conservação, que ignoram o etnoconhecimento biorregional e as necessidades das populações. Por conta disso, este estudo buscou verificar as mudanças pretéritas e atuais sobre a criação da RPPN Sesc Pantanal, e compreender os problemas que vêm interferindo na dinâmica sociocultural da comunidade. Com essa análise, pretendemos fornecer subsídios do etnoconhecimento pantaneiro que possam contribuir com os projetos de manejo e EA no Pantanal.
Nesta perspectiva da fenomenologia imaginária, os estudos do etnoconhecimento pantaneiro representam uma opção científica que visa determinar um método que considera a imaginação na ciência, na poética, na sociologia e na antropologia, que pressuponha equilíbrio, estabilidade e funcionalidade na sensibilização das comunidades biorregionais do entorno dos ecossistemas pantaneiros.