Essas análises, aqui, propostas, nos trazem a percepção (ou comprovação) de que o discurso religioso tende a homogeneizar as diferentes vozes que apresenta em seu interior. Ou seja, ele fala sobre o outro, comenta sobre e não com o outro do seu discurso.
Nos diversos trechos em que rechaça tanto o capitalismo liberal quanto o materialismo coletivista e propõe uma sociedade mais voltada para os princípios cristãos ou quando nega
visões como a da ciência que reduz o homem a um princípio científico e, ainda, quando prega que a razão deve caminhar com a fé para promover o verdadeiro desenvolvimento do homem, revela a sua proposta como a verdade e não dá autonomia às vozes que representam o contrário. Ele promove um discurso sobre outro discurso.
Outra questão a ser refletida é que o autor, ao trazer para o seu discurso as vozes divergentes, o faz apresentando-as como discursos acabados, que já atingiram o seu ponto final e são interlocutores definidos sobre os quais ele reflete. Não abre a possibilidade de uma mudança ou de revisão desse discurso ao qual se opõe, tenta impedir o seu leitor final de escolher e o induz a aceitar a sua verdade.
De acordo com Bakhtin, num texto polifônico, as vozes que nele estão inseridas são dotadas de valor, são autênticas e inconclusas. E tal falta de acabamento dá a elas a abertura para um diálogo infinito e não a passividade de uma conclusão. “Ser significa comunica-se pelo diálogo. Quando termina o diálogo, tudo termina. Daí o diálogo, em essência, não poder nem dever terminar” (Bakhtin, 2011, p.292). Tais vozes são sujeitos do seu discurso, o que é lhes é negado, a princípio, nos textos aqui analisados. “O homem em Dostoiévski é o sujeito do apelo. Não se pode falar sobre ele, pode-se apenas dirigir-se a ele” (idem).
Ao apresentar, por exemplo, o “erro fundamental” do marxismo em esquecer o homem e sua liberdade, quer dar um acabamento a tal ideologia, restando ao interlocutor recusá-la diante das desolações que tal concepção gerou ao mundo, em decorrência da revolução russa. Dessa forma, não nega a existência dos discursos divergentes, mas apresenta suas vozes como acabadas e sem possibilidade de mudanças. Mas, como o seu texto pode fugir da abertura ao diálogo, as suas palavras produzem outros discursos que lhes são convergentes e também divergentes.
Apresenta, ainda, a questão da ciência – um interlocutor corrente em seus textos. A voz desse interlocutor é apresentada como que incompleta, se for fundamentada apenas nos seus próprios princípios. É um discurso também a ser rechaçado. A ciência necessita da fé, do amor/caridade para promover o homem em sua integridade e poder contribuir verdadeiramente para o seu desenvolvimento. Assim, o desenvolvimento que se pauta apenas na técnica e no materialismo não é verdadeiro.
Diante das vozes divergentes que são evocadas em seu discurso, há uma sensação de descarte, ou seja, tais vozes devem ser recusadas. Em seu texto, não existe a possibilidade de uma revisão, de uma defesa. Tal discurso, portanto, tende a querer negar, ao
interlocutor, a liberdade de julgamento, de uma avaliação pessoal diante dessas vozes recusadas.
Um aspecto, ainda, que marca a homogeneização do discurso das cartas está no fato de que o autor apresenta as concepções divergentes em relação ao tema que propõe e, após demonstrar os seus problemas, desmontando-as, apresenta a sua verdade, de forma praticamente irreplicável. Em muitas ocasiões, como vimos nas análises, tal procedimento se dá com a antecipação e negação da réplica do interlocutor. Isso reforça a tendência à homofonia, visto que, num texto polifônico, “uma voz nada termina e nada resolve” (Bakhtin, 2011, p.293) e existe uma convivência entre vozes dissonantes, ora “predomina uma voz, ora a outra, mas nenhuma pode vencer definitivamente a outra” (Bakhtin, 2011, p. 299).
Em toda parte um determinado conjunto de ideias, pensamentos e palavras passa por várias vozes imiscíveis, soando em cada uma de modo diferente. O objeto das aspirações do autor não é, em hipótese alguma, esse conjunto de idéias em si mesmo, como algo neutro e idêntico a si mesmo. Não, o objeto é precisamente a passagem do tema por muitas e deferentes vozes, a polifonia de princípio e, por assim dizer, irrevogável, e a dissonância do tema. A própria distribuição das vozes e sua interação (Bakhtin, 2011, p. 310).
Em vista desses fatos, a princípio, podemos entender as cartas como uma “literatura dogmática”, nas palavras de Bakhtin, que permite a existência da plurivocalidade, mas o que prevalece é uma visão hegemônica e absoluta e que esta centraliza e homogeneíza as possibilidades de interpretação dos temas abordados. Por outro lado, reconhecemos que há, na verdade, uma tentativa de centralização e homogeneização da interpretação, visto que a palavra está lançada e, na interpretação, há duas consciências que interagem, em determinado contexto.
Diante dessas reflexões, não podemos omitir uma questão: o gênero discursivo. Não estamos, aqui, diante de um romance polifônico de Dostoiévski, mas de uma carta encíclica da maior autoridade dentro da Igreja Católica. O leitor de tal gênero necessita da firmeza de uma verdade, de alguém que lhe mostre o caminho, a direção a seguir. E é isso o que o texto apresenta.
Ao lermos as encíclicas de Bento XVI, percebemos que ele faz uso do discurso adversário, que embasaria um contra-argumento, e antecipa as réplicas do interlocutor para, em seguida, rechaçá-los e justificar a sua tese. Mas isso não determina definitivamente o fechamento do seu discurso. Cada gênero apresenta a sua forma de atividade responsiva. “Cada réplica [...] possui uma conclusibilidade específica ao exprimir
certa posição do falante que suscita resposta, em relação à qual se pode assumir uma posição responsiva” (Bakhtin, 2006a, p.275). Bakhtin, ainda, nos aponta que tais réplicas, mesmo estando interligadas, “só são possíveis entre enunciações de diferentes sujeitos do discurso, pressupõem outros (em relação ao falante) membros da comunicação discursiva” (idem).
Podemos entender que as encíclicas são delimitadas pela alternância de sujeitos do discurso, mas está voltada para uma forma de atividade responsiva que pressupõe “influência educativa sobre os leitores, sobre suas convicções, respostas críticas, influência sobre seguidores e continuadores; determina as posições responsivas dos outros nas complexas condições de comunicação discursiva de um dado campo da cultura”. Assim como a réplica do diálogo, tal obra está vinculada a outras “às quais ela responde, e com aquelas que lhe respondem” e, ao mesmo tempo, “está separada daquelas pelos limites absolutos da alternância dos sujeitos do discurso” (Bakhtin, 2006a, p.279).
O discurso das cartas encíclicas tem como base outros discursos, ou seja, “os discursos que estão na origem de certo número de atos novos de fala que os retomam, os transformam ou falam deles” (Foucault, 2008, p.22). Falamos aqui dos evangelhos, dos Santos Padres, de Agostinho, de Marx, de Dostoievski, de Kant, de Engels, de Platão, de Bacon e tantos outros. Ao verificarmos tal confronto, nos colocamos diante da elaboração da ideologia de quem constrói esse novo discurso sobre um outro, transformando-o.
Diante da afirmação de que o discurso religioso desconsidera o contexto imediato e o utiliza apenas como motivação para pregar os textos sagrados, como afirmado por Orlandi (1996), penso que podemos reconhecer que o que se instaura, na verdade, é um diálogo entre a realidade vivida e os textos sagrados. E tal dinâmica é um instrumento que a Igreja usa para vivificar a fé e colocar à luz da Palavra divina os problemas que assolam as sociedades em todos os tempos. As próprias cartas encíclicas que o papa escreve são reflexões dos assuntos da atualidade à luz das escrituras sagradas e de doutores da Igreja. Não se trata, portanto, de dizer que o contexto imediato é ignorado; pelo contrário, é ele que dialoga com as escrituras sagradas. Ele não é uma mera ilustração para se fazer uma pregação da palavra de Deus, mas é ele que carece de orientação, segundo os critérios da Igreja. Assim também age o poder judiciário ao analisar um caso segundo os preceitos estabelecidos pela lei. O contexto imediato é sempre visto pelas “leis” que orientam a sociedade em suas diferentes esferas. Assim, a Igreja traz à luz das sagradas escrituras o entendimento do que pode motivar, por exemplo, um jovem a entrar numa escola e matar
friamente algumas crianças216
De acordo com Cattelan (1996)
. Esse mesmo entendimento é buscado pela medicina, pela justiça, pelo jornalismo, pelos poderes públicos, de acordo com os critérios que norteiam cada uma dessas esferas. Também nós buscamos repostas para muitas inquietações da nossa atividade humana na própria experiência de vida que construímos nas nossas relações sociais.
217
É evidente que qualquer gênero discursivo tem um conjunto de propriedades, porém há de se perceber que elas não são definitórias ou exclusivas de um gênero. Como se demonstrou, os gêneros se imitam; as suas propriedades transitam de um discurso para outro.
, Orlandi, em seu estudo sobre discurso religioso, faz uma tentativa de “enformar os gêneros a partir de um conjunto de propriedades discursivas” (p.170-171). Em sua análise, Cattelan demonstra que tais propriedades podem transitar de um discurso a outro e, assim, não serem argumentos suficientes para categorizar um gênero de discurso. Características como a recusa de leituras divergentes e a aceitação das convergentes; o silenciamento dialógico do seu interlocutor; o narcisismo discursivo; o chamado à conversão; o autoritarismo iluminado, entre outras, também são propriedades presentes em textos de Bakhtin e outros autores, ao refletirem seus postulados, como demonstrado por referida análise.
Tomem-se, por exemplo, as propriedades de reversibilidade e polissemia. Essas categorias conseguem, no seu limite, estabelecer agrupamentos discursivos que se caracterizam por serem autoritários, polêmicos ou lúdicos, não permitindo, porém, uma aproximação mais decisiva ao que realmente se pode chamar de discurso católico, científico, publicitário etc. Elas conseguem, no máximo, estabelecer as formas de relação que ocorrem entre o locutor desses discursos e os seus interlocutores. (Cattelan, 1996, p.173-174)
Ainda lembro que, em seu texto Discurso na vida e discurso na arte (1976), e, se referindo ao objeto artístico, Bakhtin nos diz que os pontos de vista sobre tais objetos pecam por pegar a estrutura de uma parte e apresentá-la como sendo a do todo. O todo não está na parte. Assim, muitas vezes, acontece com os discursos e as tentativas de enformá- los.
“O ‘artístico’ na sua total integridade não se localiza nem no artefato nem nas psiques do criador e contemplador consideradas separadamente; ele contém todos esses três fatores. O artístico é uma forma especial de interrelação entre criador e contemplador
216 Faço referência, aqui, à chacina ocorrida na escola municipal Tasso Silveira, no bairro do
Realengo, no Rio de Janeiro, onde Wellington Menezes de Oliveira, ex-aluno, de 24 anos, matou 12 crianças e feriu outras 18, na manhã do dia 7 de abril de 2011.
217 A dissertação do prof. Dr. João Carlos Cattelan, defendida em 1996, trabalha com o Gênero
Discursivo Religioso Católico, especificamente os documentos da Conferência de Puebla, analisando as relações dialógicas de tais documentos com outros aos quais fazem referência.
fixada em uma obra de arte” (Bakhtin, 1976, p.5) (grifos do autor). Tal concepção integra a experiência com os demais discursos.
Esse filósofo nos lembra, ainda, que, na vida, o discurso verbal sozinho não é autossuficiente, já que é construído numa situação extraverbal e dela não pode ser dissociado. É, ainda, este discurso vinculado à vida e se dela se desvincula, perde a sua significação (Bakhtin, 1976).
A situação extraverbal não é causa porque não age sobre o enunciado, de fora. Ela “se integra ao enunciado como uma parte constitutiva essencial da estrutura de sua significação” (Bakhtin, 1976, p.8)
Em relação ao texto de Orlandi (1996), quero destacar, também, a questão de ver a Igreja como um espaço de exclusão: os fiéis e os não-fiéis, ou, “os que pertencem a ela (os que acreditam) e os que não pertencem (os que não acreditam)” (p.250). A autora coloca a fé como o princípio norteador do discurso religioso e, logo, de tal exclusão: o discurso religioso é uma promessa para os que nele creem e uma ameaça para os que não creem. Bem, quando falamos em exclusão, estamos falando em omissão das diferenças. Então, temos que elucidar, a princípio, que não é a Igreja que escolhe seus fiéis; mas, sim, as pessoas escolhem que religião seguir ou não seguir nenhuma. Mesmo os textos sagrados, em passagens como Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida (Jo,8,12), remetem a um determinado contexto de ensinamento e a uma situação de comunicação imediata. “Quem me segue” não diz que apenas aquele que segue Jesus terá a luz da vida, mas que Jesus pode ser luz para os que se acham nas trevas. Diante disso, creio que a Igreja, em sua essência, não pressupõe exclusão, mas inclusão. Há uma ideia de separação quando comportamentos ou vestuário específico marcam determinada religião ou seita, mas essas marcas agregam pessoas que com elas se identificam. Isso ocorre devido ao seu caráter dito de acolhimento e não de rejeição. Pode haver exceções, sim, mas não expressam a verdadeira função da Igreja.
Isso tudo traz à tona muitos discursos acerca do objeto religioso, sejam eles de aceitação ou de recusa. Assim, a palavra se abre num diálogo infinito.
O enunciado existente, surgido de maneira significativa num determinado momento social e histórico, não pode deixar de tocar os milhares de fios ideológicos existentes, tecidos pela consciência ideológica em torno de um dado objeto de enunciação, não pode deixar de ser participante ativo do diálogo social. Ele também surge desse diálogo como seu prolongamento, como sua réplica, e não sabe de que lado ele se aproxima desse objeto. (Bakhtin, 1988, p.86) Diante dessa afirmação de Bakhtin, podemos inferir acerca do dialogismo nessas cartas que, embora se pretenda um texto de caráter doutrinador e apresente-se como
pregador de verdades, ele existe em função de outros discursos que o precederam, de discursos que ele mesmo traz à luz de sua palavra, mas que ganha uma nova significação a cada leitura, a cada novo contexto em que são inseridos tais discursos. As suas palavras não fecham o discurso, apenas lançam novos desafios aos seus interlocutores. Ainda que tais encíclicas tenham autoridade, pela própria função do gênero, não são autoritárias, como se pode supor de antemão.