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Apesar do razoável desenvolvimento científico que o país possui, a distância necessária para realizar pesquisa e desenvolvimento de novas drogas terapêuticas é ainda muito grande. Aponta-se para tal distanciamento, não somente o longo tempo e os altos custos envolvidos, a exigência de equipes multidisciplinares e competentes para a tarefa específica, trabalho este com pouca tradição na universidade brasileira.

O investimento em pesquisa e desenvolvimento é uma questão de sobrevivência futura e devemos aproveitar a experiência e as estratégias da indústria internacional, que realiza parcerias com universidades e centros de pesquisa, e aproveitar os recursos humanos e naturais existentes no País.

As universidades são os centros de excelência para formar os recursos humanos altamente capacitados nas diversas áreas relacionadas à pesquisa e ao desenvolvimento de novos medicamentos como a Farmácia, Química, Biologia, Medicina, etc. Além disso, a universidade, cada vez mais, necessita apresentar resultados práticos que atendam à demanda da comunidade.

O caráter multi e interdisciplinar que permeia toda a pesquisa têm sido reconhecidos como ponto crucial para o desenvolvimento de estudos mais elaborados, profundos e, conseqüentemente, de maior credibilidade científica e menor probabilidades de erros.

Aproveitar a estrutura existente nas universidades, laboratórios e profissionais capacitados, é uma estratégia para atender à necessidade social de desenvolver medicamentos a um custo mais acessível. Entretanto estas associações são ainda tímidas, pois envolve ainda poucos grupos.

Soma-se a este quadro a situação da pesquisa de fármacos no país, que apresenta dificuldades principalmente no tocante a recursos financeiros disponíveis, ausência de instalações adequadas, infra-estrutura deficiente e falta de massa crítica nas áreas de toxicologia e clínica. Em resumo: a capacitação tecnológica do Brasil é insuficiente. O Brasil possui muitos PhDs, quando comparado a outros países em desenvolvimento. Entretanto, não há capacitação e internalização tecnológica para gerar mais tecnologia.

Além disso, o investimento em pesquisa e desenvolvimento de fármacos continua incipiente. Os recursos para pesquisa provêm basicamente das agências federais e estaduais de fomento, embora alguns laboratórios privados estejam começando a apostar em parcerias com as universidades, o que poderá minimizar a defasagem do Brasil em relação a outros países quanto aos investimentos privados em P&D. Uma das dificuldades, porém, para avaliar quantitativa e qualitativamente esse investimento é a própria falta de dados sistematizados, específicos para o setor.

Estatísticas da Coordenação de Programas de Pesquisa em Saúde do CNPq, por sua vez, mostram apenas um panorama geral do investimento da instituição por área de conhecimento. De 1998 a 2000, o investimento total do CNPq em Farmacologia, incluindo bolsas de estudo e fomento à pesquisa, subiu de R$ 4,6 milhões para R$ 5,6 milhões. Em Farmácia, subiu de R$ 2,5 milhões para R$ 3,2 milhões.

Grande parte da produção de fármacos, no entanto, pode ter origem na pesquisa em Química, uma das áreas que mais receberam recursos do CNPq no ano de 2000. O difícil é saber quanto dos R$ 22,4 milhões investidos em Química se destinou ao desenvolvimento de fármacos. Outra área que também pode gerar produtos farmacológicos é a Bioquímica, que recebeu R$ 11,1 milhões do CNPq em 2000.

Para concorrer em um mercado global extremamente ágil e competitivo, a indústria farmacêutica nacional vem sendo fortemente compelida a investir com determinação em P&D, buscando inovações e melhorias. A maior parte do parque

fabril farmacêutico brasileiro é composta de pequenas e médias empresas, e não há muitas alternativas nessa busca, a não ser a cooperação empresa-universidade. Essa cooperação tem se configurado cada vez mais viável e segura, tanto em termos de redução de custos quanto em retornos obtidos.

Uma vez que buscar financiamento governamental tem se tornado difícil e com escasso retorno, a parceria empresa-universidade é um caminho alternativo aos mecanismos tradicionais e uma forma de financiar a sobrevivência acadêmica e industrial.

Para atender às necessidades da indústria farmacêutica, na busca pela inovação tecnológica, o modelo de universidade empreendedora, voltada ao provimento das demandas da sociedade por avanços sociais e conhecimentos científicos, surge como a base para suportar e se adaptar às novas pressões por uma cooperação mais intensa e relevante da universidade com a indústria.

Entretanto, as pesquisas universitárias encontram-se pulverizadas e descontinuadas e na maioria das vezes não atendem às demandas comerciais dos laboratórios. Os integrantes dessa rede corporativa ainda estão distantes de um mútuo entendimento. A universidade reclama da falta de financiamentos e as empresas não têm seus interesses comerciais contemplados.

O cenário apresentado demonstra que existe um enorme campo de pesquisa à disposição, universidades com interesse em pesquisa e indústrias farmacêuticas com interesse em investir e explorar comercialmente os resultados obtidos. Dentro desse contexto, nota-se claramente uma busca, ainda que não totalmente formatada, de um maior e melhor relacionamento entre universidade e indústria, buscando cooperação mútua.

Por outro lado, é importante citar também o papel do governo, o qual tem, através de medidas do órgão regulatório e da abertura de possibilidades interessantes de financiamento, via BNDES, FINEP, FAPESP e outros órgãos de financiamento e suporte, uma participação fundamental como um elo de apoio e catalisador para as iniciativas, tanto da universidade quanto das indústrias.

Podemos citar alguns exemplos que representam modelos que devem ser seguidos e ampliados de parcerias entre a indústria e a universidade:

A parceria entre a Universidade de São Paulo (USP) e o Aché Laboratórios Farmacêuticos é um exemplo da importância da cooperação entre a iniciativa privada e o meio acadêmico. Estimulados pelo Programa de Inovação Tecnológica da FAPESP, que incentiva a parceria entre uma instituição científica e a iniciativa privada, o Laboratório Aché associou-se ao Laboratório de Farmacologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e desenvolveu um novo medicamento antiinflamatório.

Outro exemplo de colaboração entre as universidades e o setor privado foi a parceria entre os pesquisadores do Departamento de Biologia Molecular da Universidade de Brasília e a empresa Bioquímica do Brasil (BIOBRÁS) para o desenvolvimento de insulina humana recombinante. Este processo permitiu fabricar insulina em apenas 30 dias, um terço do tempo necessário para obtê-la pelo método tradicional. Na época, somente quatro empresas no mundo, incluindo a BIOBRÁS, tinham esta tecnologia.

Já o Laboratório Eurofarma financiou o projeto "Definição de Estratégias para Pesquisa e Desenvolvimento de Novos Fármacos no Brasil" durante 1998 e 1999 com o objetivo de identificar projetos e competências no país com potencial para desenvolvimento futuro pela empresa. Vários dos projetos e grupos de pesquisa identificados neste levantamento atualmente recebem financiamento da Eurofarma Laboratórios. Um destes projetos, "Desenvolvimento de Inibidores específicos de COX-2 Humano", conta com a participação de membros do Centro de Biotecnologia Molecular Estrutural (CBME) do Instituto de Física da USP de São Carlos, junto com o grupo do Laboratório de Avaliação e Síntese de Substâncias Bioativas (LASSBIO) da Universidade Federal de Rio de Janeiro.

Mas nem sempre é possível estabelecer estas parcerias e é aí que o setor público deve atuar para suprir as lacunas deixadas pelos grandes laboratórios farmacêuticos, cujas prioridades estão majoritariamente voltadas para a população com poder de compra. Como exemplo, o Instituto de Tecnologia em Fármacos (Far-

Manguinhos), laboratório público da Fundação Oswaldo Cruz vinculado ao Ministério da Saúde, é uma instituição onde a atividade de pesquisa, desenvolvimento e produção de fármacos vêm crescendo significativamente nos últimos anos. Far- Manguinhos vendeu cerca de R$ 8 milhões em medicamentos em 1997. Essa venda saltou para cerca de R$ 70 milhões em 1999, tendo como destaque os medicamentos antiretrovirais. Isto se deve ao fato do laboratório ter passado por um processo de modernização e expansão contínua e que assegura que sua atual capacidade instalada seja superior a um bilhão de unidades farmacêuticas, compreendendo cápsulas, bisnagas e comprimidos. O Laboratório Far-Manguinhos passou a se destacar e a distanciar-se tecnologicamente dos demais laboratórios brasileiros públicos produtores de medicamentos, pelo fato de passar a operar estrategicamente, identificando a plataforma tecnológica, ou seja, os elos da cadeia produtiva como é a posturada de empresas privadas. O seu núcleo de Planejamento e Gestão de Projetos, por intermédio de um sistema de gerenciamento de projetos assegura que um determinado projeto passe por todas as etapas até chegar ao produto final, o fármaco ou a especialidade farmacêutica. Esse núcleo, além do gerenciamento dos projetos de P&D, faz planejamento estratégico, gestão tecnológica, acompanhamento de contratos; gerência às parcerias público-público e público-privado, bem como aos contratos de transferência de tecnologia e outro acordos de cooperação técnica, além da coordenação da proteção intelectual.

A participação dos laboratórios públicos brasileiros na produção adquirida pelo governo federal, que em 1999 estava abaixo de 20%, em 2000 passou dos 50%. O valor da receita de Far-Manguinhos, incluindo venda de medicamentos e orçamento da União, foi de R$ 109 milhões. No primeiro semestre de 2001, essa receita atingiu R$ 79 milhões. Em 2000, os gastos com pesquisa e desenvolvimento tecnológico na Fiocruz representaram 26% das despesas totais em programas da instituição.

Outro projeto que recebeu apoio de instituição governamental foi o de desenvolvimento de vacinas gênicas para a tuberculose coordenada pelo pesquisador Célio Silva da Universidade de Ribeirão Preto, São Paulo (USP). A importância desta vacina e do domínio deste tipo de tecnologia é essencial para o desenvolvimento científico e tecnológico do país. Suas vantagens são múltiplas e

certamente atendem as necessidades da realidade brasileira. O impacto sobre o controle das doenças infecciosas que podem ser prevenidas por imunização gênica será, provavelmente, uma das aquisições mais importantes advindas do domínio dessa nova tecnologia. O desenvolvimento de novas vacinas que evitem, num futuro próximo, o aumento descontrolado de doenças como dengue, hepatite, meningite, malária, esquistossomose, e outras certamente serão de extrema importância para a humanidade.

Ou seja, os exemplos acima demonstraram que os primeiros passos foram dados, mas a caminhada é muito longa e é preciso avançar muito mais, pois os obstáculos são inúmeros. Para se modificar este cenário, novas estratégias são essenciais. É indispensável favorecer o crescimento da pesquisa e do processo de formação de recursos humanos e lutar pelo estabelecimento de programas direcionados para a investigação científica e tecnológica na área de P&D de fármacos.

É evidente a necessidade de se estimular a aproximação da indústria farmacêutica com a academia para se tentar constituir um novo modo de pensar que tem como objetivo encorajar projetos empreendedores.

Concluindo, diante deste quadro, é essencial que os vários segmentos envolvidos nesta área passem a trabalhar em conjunto para definir estratégias e, traçar a médio e longo prazos, planos e metas ambiciosas. É indispensável encorajar o crescimento e o fortalecimento dos grupos já implantados e em funcionamento assim como daqueles em fase de inserção. Ademais, é preciso estimular a criação de novos grupos de preferência distribuídos em todo o país. Está clara a necessidade de se discutir como as ações induzidas, editais, parcerias do governo estadual, federal e privado podem contribuir para o sucesso deste empreendimento.