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procuramos elucidar como o jogo de interesses se apresentava frente

ao Governo e como este teve que conciliar simultaneamente tendên­

cias políticas, ideológicas e econômicas muito diferenciadas. Se a

Assessoria Econômica da Presidência da República imprimiu a essa

administração um caráter inovador em termos nacionalistas, isso não

significou uma atitude hostil em relação a interesses vinculados ao

CONTRADIÇÃO OU COERhNCIA: ANÁLISE DE ALGUMAS POLÍTICAS GOVERNAMENTAIS 181

capital estrangeiro. Embora Vargas impusesse algumas restrições à participação desse capital na economia nacional, fazia-o em termos de um controle seletivo, porém não excludente. Em algumas situa­ ções, entretanto, tal controle não foi possível, e as concessões aos inte­ resses estrangeiros e conservadores se impuseram.

O resultado final foi a conciliação nos terrenos da política e da economia. Essa conciliação foi apropriada de diferentes formas pelas partes interessadas, e acabou por transformar-se concretamente em um obstáculo à continuidade de um Governo que carecia de uma proposta política institucional capaz de organizar e legitimar a atua· ção das diversas correntes político-partidárias. 55 A partir do que foi visto, algumas conclusões nos parecem procedentes. Em primeiro lugar, não se pode falar em duas fases distintas do Governo e, Conse­ qüentemente, numa "virada" de orientações responsável pela situa­ ção de crise que impediu o término do mandato do Presidente. Além do mais, quando se fala nessas duas pretensas fases - a conServa­ dora e a nacionalista -, usa-se como argumento central a associação entre posições conservadoras e interesses do capital estrangeiro, e a relação entre esquerda e nacionalismo econômico. A nosso ver, tais associações mecânicas não procedem, como de fato as diferentes posi­ ções econômicas e políticas coexistem durante todo o Governo e mar­ cam efetivamente sua pauta de atuação conciliatória, mas coerente em suas contradições.

A pensar numa mudança de orientação, essa estaria mais pró­ xima de acontecer a nível de todo o sistema político, e não a nível do Governo. O medo da mobilização social e do aumento da participação política das classes populares pode ter funcionado como elemento orga­ nizador das forças "direitistas". A ser correto esse raciocínio, tería­ mos tido concretamente uma situação em que o Governo não teria alte­ rado seu lugar no espaço das tendências políticas. Pelo contrário, o eixo do sistema · político se teria deslocado para a " direita" , dando a falsa impressão de que o Governo se voltara à "esquerda" .

Em segundo lugar, há que considerar que o relativo sucesso administrativo do Governo na tomada de grandes decisões se deu apesar das dificuldades político-institucionais, e que tais realizações não foram um sucesso político. Neste pónto, vale lembrar a influên­ cia do debate ideológico que, polarizando posições e superdimensio­ nando algumas questões, acaba dando prioridade apenas aos pro­ blemas que mais mobilizam a opinião pública, fazendo com que prevaleça, em primeiro plano, uma imagem negativa do Governo e de suas iniciativas. Outro dado importante é que a situação de crise que se observa não pode reduzir-se ao resultado de um conflito

182 O SEGUNDO GOVERNO VARGAS

entre nacionalismo e interesses estrangeiros. Ela é produto de uma série de fatores que, incluindo a referida ideologização do debate político, remetem diretamente à problemática da desorganização das bases institucionais de apoio.

Para o entendimento da anatomia dessa crise, deve�se recorrer necessariamente ao processo de formação e de deterioração das rela� ções de poder a nível da política institucional e das forças político­ partidárias. Considerando ainda que essa é urna situação de crise com características eIlÚnentemente políticas e de efeitos conjunturais, ela só pode ser explicada se considerarmos a crise de confiança que se instaurara a nível do sistema político a partir do retorno de Vargas ao poder, e se considerarmos também as dificuldades para a instituo cionaIização da nova ordem representativa em termos partidários e pluralistas. Em outras palavras, ela reflete um momento dramático da história política brasileira na busca de um padrão de participação política a nível das próprias lideranças e de níveis satisfatórios de legi· timidade do sistema político, desvinculados da figura de Vargas.

Por tudo isso, redimensionam-se os efeitos das ações do Presi­ dente, bem corno as intenções que as dirigiram. A oposição procu­ rou, por todos os lados e de todas as formas, as brechas que pudes­ sem comprovar a inoportunidade da presença de Vargas no poder e a ameaça que ele representava para a recém-criada democracia representativa, particularmente para uma atuação mais ampliada e autônoma por parte das cúpulas político-partidárias.

Notas

l Sobre a criação da Petrobrás e o debate nacionalista em torno da ques�

tão do petróleo em fins da década de 1940 e início da de 1950, ver, por exemplo, os seguintes trabalhos: Carvalho, 1976; Pereira, 1975; Cuper­ tino, 1976; Wirth, 1973; Cohn, 1968.

2 Almeida, 1980.

3 Idem, ibidem. Sobre a atuação da Assessoria Econômica, pode-se recor-

rer também a: Almeida, in: Pereira, Jesus Soares, 1975; e Leite, 1959. , Almeida, 1980.

5 Idem, ibidem. 1980. 6 Idem, ibidem. 7 Idem, ibidem. 8 Idem, ibidem.

CO�'TRADIÇÂO OU COERÍÔNC1A: ANÁLlSE DE ALGLlMAS POL!TICAS GOVERNAMEl\'TAIS 183

9 A inibição publicitária do Governo é explicada, e m grande parte, pelas

críticas à publicidade oficial, interpretada então como resquício imoral do arbítrio es.tado-novista e como possível reedição do DIP. Esses temo­ res forçam o Governo a privar-se de uma publicidade governista e a ter que arcar com os efeitos de uma liberdade de imprensa que lhe custou, na prática, a oposição de todos os grandes meios de comunicação.

10 Carvalho, 1976, p. 206.

I I Sobre as circunstâncias em que foi convocada a Conferência, ver carta

de Rômulo de Almeida a Getúlio Vargas, de 23 de fevereiro de 1951, em GV 5 1 .03. 1 6/ 1 .

12 GV 50.12.26; GV 50. 1 1 .02; GV 50.12.29.

13 Carta de Rômulo de Almeida a Getúlio Vargas de 26 de março de 1951

em GV 5 1 .03 . 16/ 1 .

14 Ver GV 5 1 . 03. 16/1.

15 Comissão Mista Brasil-Estados Unidos para o Desenvolvimento Econô-

mico, 1954; Martins, 1976. 16 GV 5 1 .01.0111; GV 5 1 .01.0412. 17 GV 5 1 .02 . 1 9/ 1 . 1 8 GV 5 1 .03.16/1. 19 GV 5 1 .04.05/2. 20 GV 5 1 .04.09/4; GV 5 1 .04.12/2. 21 GV 5 1 .03.16/1. 22 GV 5 1 .03. 16/1; GV 5 1 .04.00/1 .

23 Em carta a Getúlio Vargas, João Neves d a Fontoura faz a seguinte ava­

liação dos resultados de sua atuação: "Dando hoje um balanço nessas negociações, tenho a impressão de que elas representam um ponto de partida auspicioso, sobretudo considerando que o teu Governo recebe uma má herança, no tocante às relações entre o Brasil e os Estados Uni­ dos. Este ponto de partida tem a principal vantagem de ser sólido, pois representa um ajustamento das nossas pretensões às reais possibilidades do Banco Internacional e dos Estados Unidos. Em resumo, estás habili­ tado a contar com o seguinte:

1 . Constituição de uma Comissão Mista, integrada por elementos ameri­ canos de valor, e fortemente prestigiada pelo Departamento de Estado, a qual estudará os planos básicos de desenvolvimento brasileiro, forne­ cendo a cooperação técnica e financeira dos Estados Unidos; 2. Auxílio de US$ 300.000.000 pelo Banco Internacional para financia­

mentos dos projetos que forem aprovados pela referida Comissão; 3. Representação permanente do Banco Internacional, no Rio, para

acompanhar os projetos da Comissão, sistematizando-os de maneira a evitar demoras e providências de verificação em momento posterior; 4. Auxílio do Banco sob a forma de financiamento para a importação de bens colocáveis à vista no mercado brasileiro, para a recuperação de cruzeiros a serem utilizados peJo Governo brasileiro nos planos de desenvolvimento;

184 O SEGUNDO GOVERNO VARGAS

5. Contato permanente, através do Presidente americano da Comissão Mista, Sr. F rancis Truslow, com a repartição encarregada da conces­ são de prioridades, para que os planos de desenvolvimento não sofram retardamentos na execução e entrega das respectivas encomendas;

6. Concessão de vinte bolsas especiais da Divisão de Assistência Técnica das Nações Unidas, para treinamento intensivo de economistas e técni­ cos brasileiros junto às principais instituições norte-americanas e ingle­ sas, tendo em vista as tarefas de desenvolvimento econômico;

7. Criação, no Rio de Janeiro, de um grupo americano-brasileiro com a função de examinar as quotas de suprimentos essenciais para a manu­ tenção de nossa economia, diante do racionamento adotado na pre­ sente emergência" .

Fonte: OV 5 1 .03.16/1.

24 OV 5 1 .09.1211; OV 52. 1 1 .10/1; OV 52.12.04/3. 25 Integram os mais altos cargos de comissão:

Seção Brasileira

Presidente: Ari Frederico Torres

Representantes sucessivos do Ministério das Relações Exteriores: Embai­ xadores Abelardo Bretanha Bueno do Prado, Edgar Bandeira Fraga de Castro, Décio Honorato de Moura.

Conselheiros: Valentim F. Bouças - Assuntos Financeiros; Roberto de Oliveira Campos - Assuntos Econômicos; Glycon de Paiva Teixeira - Assuntos Geológicos e Minérios; Lucas Lopes - Assuntos Técnicos. Secretário geral: Vitor da Silva Alves Filho.

Seção Norte-Americana

Presidente: Merwin L. Bohan - de 19.07. 1951 a 1 5 . 10.1951 e de

19.08.1952 a 3 1 . 12.1953.

J. Bruke Knayb - de 16.10.1951 a 18.08.1952.

Vice-presidente: William C. Ladd. Diretor administrativo: Robert G. Groves.

Secretário executivo: Harold M. Medkiff, John D. GilIet.

Fonte: Comissão Mista Brasil-Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico, 1954, Tomo 2.

26 Idem, ibidem, p. 164-5.

27 Leff, 1977, p. 50. Para outro autor, Armando Boito, a Instrução 70

representou uma vitória da fração da burguesia industrial, liderada pelos industriais paulistas, sobre a fração comercial. Para os industriais, inte­ ressavam o alto valor externo do cruzeiro e subsídios para as importa­ ções de bens de capital e matérias-primas, assim como um rigoroso con­ trole na importação de manufaturados. Segundo Boito, embora a Instru­ ção representasse uma perda para os setores comerciais que até então se vinham mostrando politicamente mais fortes frente ao Governo, não teve um efeito acelerador sobre o conflito "intraburguês". Isso porque, a partir desse momento, verificar-se-ia, ainda segundo Baita, uma aliança entre as frações de classe da burguesia contra a ameaça do movimento operário, que recrudescera a partir de 1953, configurando abertamente uma luta entre classes. Boito Junior, 1976.

CONTRADIÇÃO OU COERENClA: A..'\!ÁLlSE DE ALGUMi\S POLfT1CAS GOVERNAMENTAIS 185 28 Conforme declarações de Simões Lopes, diretor da Cexim, a O Jornal,

8 de janeiro de 1952.

29 OV 52.0 1 . 1 8 . 30 O V 52.01.3 1/4.

31 Decreto 1 . 807. de 07. 1 l . i953. 3 2 Leff, 1977, p. 43.

33 Ver, por exemplo, as opiniões de Góis Monteiro, Osvaldo Aranha e San-

tiago Dantas a esse respeito em GV 5 1 .04.00/1 e GV 5 1 .05.10/4.

34 GV 5 1 .06.0712: OV 5 1 .06.14. 35 OV 5 1 .06.2712. 36 OV 5 1 .06.2712. 37 Coutinho, 1955. 3 8 OV 5 1 .06.2712. 39 OV 5 1 .08.09/3: OV 5 1 .08.14/1; Sodré, 1965.

40 Cartas de João Neves da Fontoura a Gillitavo Capanema de I de novem­

bro de 1952 e 9 de fevereiro de 1953, Arquivo Gustavo Capanema, pasta Kf.

41 Entre os deputados acusados de defenderem os interesses comunistas con­

tra o Acordo, Fontoura refere-se a Hélio Cabal (UDN/BA), relator da Comissão de Diplomacia, Lima Figueiredo (PSD/SP), Roberto Morena (PRT/DF) e Lucio Bittencourt (PTB/MO) (OV 52.02.16).

42 Brasil, Congresso, Câmara dos Deputados, Anais da Câmara dos Depu-

tados. 1951-1954, vol. 20, p. 599-606; vol. 2 1 , p. 144-50.

43 Idem , ibidem, vol. 19, p. 103. 44 Idem, ibidem, vol. 19, p. 104.

" Idem, ibidem, vol. 4, p. 303-8.

46 Franco, 1965, p. 237-8 e 2 5 1 .

4 7 Brasil, Presidentes (1951-1954: Vargas) 1952-1959, vol. m, p. 285. 48 Entrevista a O Estado de São Paulo a 28 de maio de 1952. 49 Skidmore, 1969. 50 OV 5 1 . 09.09. 51 GV 52.03 . 1 5 . 52 O V 52.04.14/3. 5 3 OV 54.02.20/5. 54 OV 54.02.2312; OV 54.02.0015.

55 Uma lacuna de nosso trabalho é certamente a ausência de qualquer refe­

rência acerca da Lei de Segurança Nacional. Criada em 1935, ela é modi­ ficada no decorrer do Estado Novo e durante o Governo constitucional de Vargas, e será novamente reformulada pelos Governos militares. As razões para a reforma ocorrida em 1953 merecem um exame cuidadoso, tarefa que, pelo que conseguimos apurar, não foi ainda iniciada.

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