Como uma atividade humana, as relações de ensino e aprendizagem envolvem motivos, desejos, necessidades e emoções. Neste sentido, a função maior do educador é a de transformar a atividade de ensino em atividade de aprendizagem para o estudante.
Nesta discussão – entre a relação aprendizagem, desenvolvimento e ensino – encontramos um conceito muito importante desenvolvido por Vigotski. Trata-se da noção de zona de desenvolvimento proximal, definida por Vigotski como:
A distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes. (VYGOTSKY, 1998, p.110).
Tal conceito, por mim aprendido no contato com a teoria de Vigotski, durante o mestrado, possibilitou-me repensar as práticas desenvolvidas com Fernando. Ao trabalhar com qualquer estímulo com ele, eu constatava um conjunto de reações que o projetavam e o potencializavam, uma vez que, ele acumulava experiências e fazia a síntese, demonstrando principalmente com o olhar suas evoluções, até poder descrevê- las com o mouse ocular. Tal situação pode agora ser denominada de zona de desenvolvimento proximal.
Pelo fato de estar criando estímulos auxiliares na forma de instrumentos mediadores consegui, a partir deles, transformar a realidade de Fernando e lhe apresentar outras dimensões do processo de comunicação, o que o fez inscrever-se historicamente, se é que podemos denominar de processo de humanização.
Vigotski afirma que para entendermos o individuo, precisamos entender suas relações sociais, não a relação apenas com os objetos, mas a relação entre as pessoas.
Leontiev (1978) afirma não a dominação da natureza, pelo homem, mas sua adaptação:
Pela sua atividade, os homens não fazem senão adaptar-se à natureza. Eles modificam-na em função do desenvolvimento das suas necessidades. Criam os objetos que devem satisfazer as suas necessidades e igualmente os meios de produção destes objetos, dos instrumentos às máquinas mais complexas. Constroem habitações, produzem as suas roupas e outros bens materiais. Os progressos realizados na produção de bens materiais são acompanhados pelo desenvolvimento da cultura dos homens; o seu conhecimento do mundo circundante e deles mesmos enriquece-se, desenvolvem-se a ciência e a arte (LEONTIEV, 1978, p. 265).
O desenvolvimento de uma criança na história é determinado pelo seu desenvolvimento orgânico e pelo seu domínio no uso de instrumentos. Ao usar e manipular os instrumentos, a criança se torna mais experiente. Ela adquire e compreende um número maior de modelos. Para Vigotski “Esses modelos representam um esquema cumulativo refinado de todas as ações similares, ao mesmo tempo, que constituem um plano preliminar para vários tipos possíveis de ação a se realizarem no futuro” (VYGOTSKY, 1998, p.24).
Nas linhas do desenvolvimento histórico, os seres humanos vivenciam limites de superações impostos pela natureza. Suas funções psicológicas evoluem para uma organização nova e culturalmente elaborada de seu desenvolvimento através dos signos: “A verdadeira essência da memória humana está no fato de os seres humanos serem capazes de lembrar ativamente com a ajuda de signos.” (VYGOTSKY 1998, p. 58).
Outro conceito vigotskiano que me auxilia a repensar a experiência vivida com Fernando é o de “situação social de desenvolvimento”, que ele considera a "máquina" do desenvolvimento. Isto se traduz em que ao longo da sua vida, a criança passa por momentos em que ela, ao estabelecer uma relação com o meio ambiente, com
o adulto, com crianças mais desenvolvidas, ela muda, ela se desenvolve, ela se modifica. Vigotski relata-nos que:
No início de cada período de idade a relação que se estabelece entre a criança e o meio que lhe rodeiam, sobretudo o social, é totalmente peculiar, específica, única e irrepetível para esta idade. Denominamos essa relação como situação social de desenvolvimento em dita idade. A situação social de desenvolvimento é o ponto de partida para todas as mudanças dinâmicas que se produzem no desenvolvimento durante o período de cada idade. Determina plenamente e por inteiro as formas e a trajetória que permitem a criança adquirir novas propriedades da personalidade, já que a realidade social é verdadeira fonte do desenvolvimento, a possibilidade de que o social se transforme em individual (VYGOTSKI, 1996, p.264).
Este conceito de “situação social de desenvolvimento” toma outra dimensão quando o aproximamos da noção, também desenvolvida por Vigotski, de perejivanie, traduzida como vivência, que foi proposta como a unidade que associa personalidade e meio social. “A criança é uma parte da situação social, sua relação com o contexto e a relação deste com ele se realiza através da vivência e da atividade da própria criança; as forças do meio adquirem significado orientador graças às vivências da criança” (VYGOTSKI, 1996, p. 389).
As mudanças de vivências das crianças e dos adolescentes são marcadas pelas crises. É na situação social de desenvolvimento caracterizada por momentos onde elas vivenciam as crises, pois seu contato com o meio requer sínteses e situações novas de desenvolvimento social e pessoal.
Este contato do meio com a personalidade forma a unidade de experiências emocionais. Nesses períodos de crises, sínteses, as crianças e os adolescentes são forçados a deixarem suas posições, anteriormente aprendidas, para novas mudanças no desenvolvimento de suas funções psicológicas superiores.
As etapas das idades produzem uma reestruturação e passam a uma nova etapa de desenvolvimento. Vigotski ressalta: “o essencial para cada crise é o fato de que as mudanças internas produzem em maior escala que as mudanças no ambiente exterior e por ele parece sempre que se trata de uma crise interna” (VYGOTSKI, 1996, p. 385).
O avanço no desenvolvimento da criança está diretamente determinado, então, pelo anterior, ou seja, por tudo aquilo que tem surgido e se tem formado na etapa anterior.
A essência de toda crise reside na reestruturação da vivência interior, reestruturação que fundamenta na mudança do momento essencial que determina a relação da criança com o meio, quer dizer, da mudança de suas necessidades e motivos que são os motores do seu comportamento (VYGOTSKI, 1996, p. 385).
É nas mudanças, nas necessidades e desejos da criança e do adolescente que nascem novos impulsos, novos motivos cujos valores se tornam os propulsores de suas atividades, pois o que era essencial faz-se relativo e pouco importante na etapa seguinte, ou vice-versa. Vigotski atribui a esses motivos, necessidades e revisões de valores, um momento essencial no passo de uma idade a outra, porque, ao mesmo tempo, neste momento, modifica-se também o meio.