A primeira esfera de conhecimento volta-se à origem dual da noção de sustentabilidade, pela biologia e pela economia. No primeiro caso, por meio da ecologia, a ideia de sustentabilidade está agregada ao entendimento de resiliência dos ecossistemas diante de distúrbios antrópicos ou naturais (NASCIMENTO, 2012).
No segundo caso, pela economia, toma-se o termo “sustentabilidade” como um adjetivo para a noção de desenvolvimento, face à percepção crescente, ao longo do século XX, da
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impossibilidade de se perdurar um padrão de produção e consumo em expansão, dado à finitude dos recursos naturais (NASCIMENTO, 2012).
A utilização do termo, neste último caso, perpassou por um novo entendimento de desenvolvimento que, até nos anos 70, restringia-se ao sinônimo de enriquecimento, progresso material, ou qualquer outra conotação de mero crescimento econômico (VEIGA, 2005).
Dessa forma, ultrapassou a noção puramente economicista de fundamentalistas de mercado, que voltavam-se ao “efeito cascata” ao considerarem que o desenvolvimento – por eles tratado como conceito redundante - viria naturalmente, como resultado do progresso econômico (SACHS, 2008).
Mais do que isso. Configurou-se em um modelo ideológico fundamentado por um processo histórico-evolutivo de importantes reflexões e marcos nos campos da socioeconomia e do meio ambiente. Dentre outros, estão destacados no Quadro 6:
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A emersão das discussões sobre a problemática ambiental (EHRLICH, 1968; CARSON, 1962; HARDIN, 1968; BOULDING, 1966; GEORGESCU-ROEGEN, 1971; NELISSEN et al., 1997;) no período marcado pela expansão da economia capitalista global e a industrialização das economias periféricas, compreendido entre o pós-guerra e 1972 (MACHADO, 2005).
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O debate central da publicação Limits to Growth (Limites do Crescimento), patrocinado pelo Clube de Roma (MEADOWS et al., 1972), no qual se popularizou a questão ambiental, ao tempo em que foram apresentadas as problemáticas da exploração de recursos naturais finitos e da poluição como elementos determinantes nos processos social e econômico (NOBRE & AMAZONAS, 2002).
A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano (CNUMAH), em Estocolmo, que trouxe à tona a necessidade de se repensar o processo produtivo dominante, insatisfatório, e a adesão da perspectiva ambientalista ao discurso do desenvolvimento (MACHADO, 2005), com forma de erradicação da pobreza.
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A formulação do conceito de “ecodesenvolvimento”, por Maurice Strong, primeiro diretor- executivo da United Nations Environment Programme (UNEP) e integrante da Comissão Brundtland (NOBRE & AMAZONAS, 2002). Os princípios básicos dessa nova perspectiva de desenvolvimento, formulados por Ignacy Sachs, foram: solidariedade com as futuras gerações; atendimento das necessidades básicas; preservação dos recursos naturais e do meio ambiente como um todo; elaboração de um sistema social que garanta respeito cultural, segurança social e emprego; programas de educação; e participação da população envolvida (BRÜSEKE in CAVALCANTI, 1995).
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As contribuições de Celso Furtado sobre a necessidade de se instaurar um padrão de desenvolvimento mais igualitário, pelo ajuste de padrões de consumo específicos de grupos privilegiados, com foco na redução do desperdício, na extinção da dependência e do mimetismo cultural, na diminuição da concentração de renda, e na simetria das relações norte-sul (FURTADO, 1974).
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O relatório Our Common Future (Nosso Futuro Comum), também conhecido por “Relatório Brundtland”, apresentado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD). Nesse momento tratou-se com maior profundidade a perspectiva da responsabilidade intergeracional e, como maior contribuição, a definição do conceito de “desenvolvimento sustentável” (CMMAD, 1991; VEIGA, 2005).
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A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), realizada no Rio de Janeiro. Suas discussões, assim como em 1972, fortaleceram a aproximação da dimensão social – além da ambiental – à noção de desenvolvimento. Implicou na necessidade de se englobar aspectos como a equidade social, a solidariedade e a ética à sustentabilidade (NASCIMENTO, 2012). O foco esteve na busca por modos eficientes no uso dos recursos naturais pensando no desenvolvimento sustentável de populações carentes. Nessa oportunidade foi apresentada a “Agenda 21”, primeiro documento condensado em princípios de sustentabilidade ambiental, lançado como compromisso internacional (BURSZTYN & BURSZTYN, 2010).
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7 A assinatura do Protocolo de Kyoto, quando foi estabelecido um compromisso de redução,
em 5%, das emissões de gases de efeito estufa, relativas aos valores do ano de 1990, pelos países industrializados com maiores taxas de emissão (BURSZTYN, 2004).
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A publicação da Agenda 21 Brasileira, posicionando preocupações nacionais – como distribuição de renda, reforma agrária, segurança populacional, saneamento básico, e fome – à frente de discussões globais sobre temáticas ambientais, tais como buracos na camada de ozônio, efeito estufa, e a poluição dos mares (BURSZTYN, 2002 in BURSZTYN & BURSZTYN, 2010).
A Conferência de Joanesburgo, ou também conhecida por Rio+10, a qual teve o intuito de revisar os compromissos da Rio 92, porém, onde foi debatida, com maior ênfase, a questão do enfrentamento da pobreza, graças à insistência dos países africanos (BURSZTYN & BURSZTYN, 2006 in BURSZTYN & BURSZTYN, 2010).
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A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (CNUDS), ou Rio+20. Seu objetivo primário foi o de identificar lacunas nos compromissos anteriormente firmados, e reforçar o compromisso político das nações em relação ao desenvolvimento sustentável (VIEIRA, 2012). Teve como principal tema de discussão a Economia Verde (VEIGA, 2012). O relatório gerado - The Future We Want (O Futuro que Queremos) – acabou postergando intensões e frustrando expectativas mais imediatistas.
Quadro 6: Marcos históricos das reflexões sobre sustentabilidade Fonte: Próprio autor.
Estes e muitos outros debates sobre sustentabilidade e desenvolvimento, tratados historicamente nos campos político, acadêmico e ideológico, têm se tornado, na verdade, um campo de disputa (NASCIMENTO & COSTA, 2010; NOBRE & AMAZONAS, 2002) – sentido utilizado por Bourdieu – no qual podem ser notados momentos de oposição nos discursos e, em outros momentos, de complementação (NASCIMENTO, 2012).
Naturalmente, os processos de complementação se deram pela complexificação tanto do substantivo “desenvolvimento”, quanto do adjetivo “sustentável”. No primeiro, pela adição de novos subjetivos como econômico, político, cultural, local, social, territorial, ambiental (SACHS, 2008). Já no segundo, pela expansão das perspectivas antes restritas ao social e ao ambiental, e que passam a fazer menção, também, à universalização de direitos sociais, como moradia, saúde, trabalho e educação (BELLEN, 2006), assim como à ética e à liberdade individual (SEN, 2000).
Todo esse processo de criação e de recriação dos discursos e da teoria do desenvolvimento sustentável como um novo paradigma, ou mesmo como uma ideia contida num
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processo de transição paradigmática, pressupõe não apenas a ampliação das teorias precedentes, mas a reavaliação e a reconstrução das mesmas:
É por isso que uma nova teoria, por mais particular que seja seu âmbito de aplicação, nunca ou quase nunca é um mero incremento ao que já é conhecido. Sua assimilação requer a reconstrução da teoria precedente e a reavaliação dos fatos anteriores. (KUHN, 2012, p.07, tradução livre pelo próprio autor)
Seja ele visto como uma ideia poderosa (REDCLIFT, 1987), uma ambiguidade de conceitos (O’RIORDAN, 1993; DRYZEH 1997; WORSTER, 1993), uma nova ideologia (BAUDIN, 2009), um discurso (MACHADO, 2005), um novo valor (VEIGA, 2010), um conceito político-normativo (NOBRE & AMAZONAS, 2002), um conceito transitório (ALLEMAND, 2007), um oximoro (LATOUCHE, 2011; FRIEND, 1992), ou mesmo uma fraude (RICHARDSON, 1997), o Desenvolvimento Sustentável e seus pressupostos têm sido fortemente incorporados aos estudos e às discussões sobre Turismo.