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Konklusjon

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Neste capítulo, procurar-se-á desenhar o perfil das duas áreas de conhecimento que protagonizam este estudo: a medicina e o jornalismo. Assim, quer num caso, quer noutro, irá perceber-se que ambos representam mais do que territórios científicos peculiares. Em primeiro lugar, será analisada a afirmação da medicina como área científica, bem como a ligação desta disciplina com a arte. Isto porque além de existirem múltiplas referências a uma vertente de arte na prática médica, também se verifica uma forte ligação entre os médicos e várias atividades artísticas. Em segundo lugar, serão apresentadas as principais características do jornalismo em vários níveis: como área de investigação científica, como atividade profissional e como negócio. Neste último ponto ver-se-ão as dificuldades de conciliar os objetivos empresariais – o lucro – com os objetivos editoriais, que passam, acima de tudo, por produzir informação interessante, pertinente, atual, verdadeira, isenta, rigorosa e abrangente.

1.1) A medicina como ciência

A medicina tem sido sempre, ao longo de todo o seu desenvolvimento, uma área muito particular da ciência. O interesse deste facto para esta tese é que tal singularidade da medicina irá refletir-se no tratamento jornalístico de que a mesma é alvo, bem como em certas características da imprensa médica. Por isso mesmo, este ponto dedica-se ao posicionamento da medicina no universo científico, tendo em conta a sua evolução até à atualidade.

Até há relativamente pouco tempo, uma das ideias dominantes era que a Medicina não chegava a ser uma Ciência, sendo inferior às outras áreas do conhecimento científico. Por exemplo, George Sarton acreditava numa “hierarquia das Ciências”, em que a Matemática estava no topo, e bem atrás as Ciências Biológicas, mais abaixo ainda a Medicina, que considerava ser uma “arte prática” (Cit. in DEBUS 1984: 90-93). Mesmo na atualidade, Héctor Fraiman assume uma posição radical, ao defender que a medicina não é uma ciência. E justifica:

querer que a medicina seja uma ciência é um erro conceptual; afirmar o contrário não constitui um menosprezo nem um detrimento da atividade, mas sim uma proposição baseada na análise das características intrínsecas que surgem de uma mínima reflexão epistemológica. Nem o humanismo nem a ética permitiriam aplicar a metodologia estritamente científica para compreender o funcionamento íntimo, metafísico do ser humano, das suas doenças e dos seus possíveis tratamentos. Devemos pois, admitir que a medicina, caracterizada na atualidade e com vocábulos apropriados à época, seria um saber e uma prática, que implicariam

estudo, investigação, meditação, inteligência e prudência. O que não é pouco (FRAIMAN 1997: 2).

Esta ideia poderá dever-se a aspetos concretos da evolução da Medicina. “Até há mesmo muito pouco tempo, quase todos os procedimentos médicos eram mágicos. Hoje, porém, a Medicina é um ramo da Ciência da mais cara e ao mais alto nível” (LEACH 1992: 23). Isto significa que “na segunda metade do século XX, a Medicina desenvolveu-se de uma arte incerta para algo que se aproxima da Ciência” (BURKETT 1990: 155).

O binómio “ciência-arte” está emblematicamente presente no carácter da medicina, sendo um dos seus problemas mais antigos. Aliás, a História da medicina é complexa e deve ser feita uma retrospetiva de longo alcance, para compreender que os profundos e fascinantes progressos científicos dos últimos 200 anos não impediram a permanência de uma certa irracionalidade e ritos mágicos dos primórdios da medicina. O homem contemporâneo deposita a sua confiança na alta tecnologia hospitalar, mas mantém a sua fé nas curas miraculosas, florescendo as chamadas medicinas alternativas. Neste sentido,

o que vemos no auge da pretensão científica do saber médico é na realidade uma medicina o menos científica possível, pois que ela acaba por resgatar um tom mágico-religioso da sua prática, próprio da antiguidade. Médico e paciente são atravessados por uma representação do processo saúde-doença que confere aos novos objetos técnicos a antiga ilusão de dominação mágica do mundo (RESENDE 2008: 126).

O carácter dual da medicina como ciência-arte é destacado por Pedro Zulaica: “o dicionário define a Medicina como ciência e arte de prevenir e curar as doenças do corpo humano, tendo passado de princípios do século XX de muita Arte e pouca Ciência para a atualidade de muita Ciência e igual Arte” (ZULAICA 1995: 14).

A nível da História da medicina, é inevitável referir a Grécia, em meados do século IV e século V a.C., e uma figura de referência: Hipócrates (460-390 a.C.). Aquele que é considerado o pai da medicina moderna criou uma renomada escola de medicina na ilha de Cos onde os estudantes aprendiam a diagnosticar doenças através da observação. Foi desta escola que surgiu a primeira versão do Juramento Hipocrático, que “traduz a dignidade moral da profissão, a elevada competência técnica que lhe é exigida e o respeito pelo outro, na pessoa do doente. Servirá de modelo não só à ética profissional da medicina mas também, posteriormente, a todas as outras profissões” (CARVALHO 2002: 44). É também importante a forma como Hipócrates define medicina: “libertar completamente os doentes dos seus sofrimentos ou amortecer a violência das doenças, e não tratar dos doentes que se encontram vencidos pelas doenças, sabendo que a medicina pode tudo isso” (CARVALHO 2002: 42). Note- se como a par da preocupação com a medicina curativa (“libertar completamente os doentes dos seus sofrimentos”) e com a medicina paliativa (“amortecer a violência das doenças”) se

encontra a consciência que há limites ao saber/poder” (Cf. CARVALHO 2002: 42). Apesar da inegável rutura com o pensamento mágico, deve-se ter atenção no seguinte:

qualificar a medicina hipocrática como científica requer algum cuidado pois não podemos pretender comparar a “ciência” que se produziu naquele tempo com a ciência atual. Mas, se entendermos por ciência, em sentido lato, a produção racional de leis gerais explicativas dos fenómenos baseada na observação sistemática de casos individuais acompanhada de princípios e métodos de investigação, então estamos, indubitavelmente, perante uma nova atitude face à doença, o primeiro esforço da medicina para se libertar do pensamento mágico e constituir-se como racionalidade (CARVALHO 2002: 41).

Os primórdios da medicina como ciência encontram-se, pois, na escola hipocrática, onde exercitou-se o registo minucioso de casos clínicos: manifestações da doença, evolução, desfecho e terapêuticas utilizadas. Como destaca Maria Manuela Carvalho, estes registos foram “conscientemente produzidos para servirem de fundamento às regras gerais da prática médica. A partir do indivíduo, do conhecimento das diferenças assistiu-se à criação de um eidos comum a todas as doenças que permitisse encontrar tipos ou classes de doenças.” (CARVALHO 2002: 43) Nesta medida, “se bem que embrionariamente, estamos perante uma das condições essenciais da investigação científica: a existência de um método” (CARVALHO 2002: 43).

Enfim, a medicina atual – plena de progressos científicos, técnicos e tecnológicos – assume-se como uma ciência. Concomitantemente, subsiste o conceito de arte médica, isto é, “a aptidão que deve ter o médico de ativar sua criatividade em todos os atos, clínicos ou cirúrgicos, da assistência ao paciente” (MARTINS 1993: 162). Na mesma linha de pensamento, a “medicina é uma ciência que para ser útil requer a arte do médico para se aproximar do paciente. Arte entendida como um não ao reducionismo (neste caso científico) e ao dogmatismo (de escola), e sim uma abertura à singularidade de cada ser humano” (GUTIÉRREZ-FUENTES 2008: 11).

1.1.1) Medicina e Arte

Como se concluiu no ponto anterior, alguns autores referem-se à medicina como Arte ou uma área muito próxima desta. “A medicina é a mais ‘humana’ de todas as profissões, aquela que, como a arte, tem por objeto o ‘homem total’” (DANTAS 1947: 9), defende Júlio Dantas. O mesmo acrescenta: “o médico é fundamentalmente, essencialmente um ‘artista’ e quando não o é, de uma maneira ou de outra, poucas vezes conseguirá ser um grande médico” (DANTAS 1947: 9). A experiência clínica ensina que a racionalidade é uma condição necessária, mas não suficiente, para o exercício da medicina. O que quer dizer que trabalhar as emoções pode servir para melhorar a eficácia do exercício da profissão, porque a relação

médico e doente (e por extensão a que se estabelece entre qualquer profissional de saúde e os doentes) está impregnada de comunicação emocional.

Contudo, o binómio “medicina-arte” não se fica por aqui, pois há uma longa tradição de médicos ligados a atividades artísticas, incluindo Música, Artes Plásticas e Literatura. Esta última constitui um caso muito particular, devido à maior dimensão e relevo em relação às outras artes. “É um facto que, desde sempre, os médicos, algum deles, se dedicaram, ou dedicaram algum do seu tempo, à literatura, nas suas mais variadas formas” (REIS 2003: 12). Além do mais, isto constitui um fenómeno deveras pertinente para esta investigação, na medida em que o jornalismo era considerado, em tempos idos, um ramo da literatura. O problema que se põe é que “não são claras e muito menos definitivas as razões, ou a razão, porque isto se tem passado assim ao longo de séculos de conhecimento, em que se verifica uma marcada tendência dos médicos para a escrita” (REIS 2003: 12). No entanto, Carlos Vieira Reis assegura: “há que ressalvar e realçar a importância que a prática médica pode trazer ao escritor. É uma verdade incontornável que a relação médico-doente é um caldo de cultura de sentimentos, difíceis de cozinhar noutras relações menos intensas” (REIS 2003: 12). “Por isso se poderá dizer que os médicos são observadores privilegiados da vida exterior e interior em real e prime time”, conclui (REIS 2003: 13). Seguindo este fio condutor de pensamento, Armando Moreno coloca a questão: “Porque escrevem certos médicos? A que responderei: porque têm alma de artista, porque dominam a língua, porque convivem com o sofrimento, porque conhecem as questões sociais, porque admiram o belo, porque gostam de criar, porque respeitam a vida, porque admiram a vida e as belezas que encerra” (MORENO 2003: 35).

As razões desta forte ligação dos médicos à atividade artística são registadas por outros autores, como Luís de Pina, que enumera: “por insatisfação na rotina profissional, por intenso e inabalável desejo de extroversão do permanente materialismo dos mesteres técnicos” (PINA 1964: 6). Uma das ideias é que “as letras e as artes tornar-se-ão, para a maioria dos médicos, um refúgio e uma diversão indispensável” (LAEMMER 1941: 3). Na visão de Dante Gallian,

a substancial inserção do médico em seu meio sociocultural, fazia com que seu papel não se restringisse ao de simplesmente curar ou não as enfermidades. Ele era também aquele que, frente aos limites e impossibilidades médicas, sabia acompanhar o enfermo e seus familiares, ajudando-os no sofrimento, na preparação para a morte, além de intervir como orientador nos assuntos mais diversos, tais como o despertar da sexualidade nos adolescentes, os problemas de relacionamento do casal e inúmeras outras questões da vida familiar. Não se pode estranhar portanto que o médico acabasse assumindo outras atividades além da medicina: as artes, as ciências, a história, a literatura, a política, entre outras (GALLIAN 2000).

O médico e escritor João Lobo Antunes, numa conferência intitulada “A(s) Arte (s) e a Medicina” (decorrida na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em 16 de Novembro de 2010), destacou a importância da relação entre a Arte e a Saúde:

a Medicina, dentro da área das Ciências, é das profissões mais representada pelos artistas. E é representada de várias formas: começou com a Anatomia, continuou com a representação de inúmeros atos médicos, muitos atos cirúrgicos, ilustrações cirúrgicas, obras com a expressão do sofrimento, muitos retratos de médicos famosos, fotografia de alta qualidade, muita representação da criança doente, e tantas outras imagens que enquadram o mundo da Medicina no seio das Artes Plásticas.

No mesmo evento, Miguel Gomes Arruda, Presidente do Conselho Diretivo da Faculdade de Belas Artes, sublinhou: “a relação entre a Medicina e a Arte deve ser considerada como uma relação efetiva. E efetiva porque no seio da classe médica encontramos, para além de grandes apreciadores de arte, grandes artistas”.

A existência de associações nacionais e internacionais de médicos artistas comprova a importância da Arte para estes profissionais. Existe, então, a União Mundial dos Escritores Médicos (UNEM) que, tratando-se de uma organização mundial, reúne Sociedades de Médicos Escritores de todos os países. Em Portugal, a SOPEAM – Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos é uma realidade desde 1969. Esta foi criada inicialmente com a designação de Sociedade Portuguesa dos Escritores Médicos – SOPEM, e teve como seu primeiro presidente, Barahona Fernandes; como vice-presidente, Fernando Namora e como secretário- geral, Mário Cardia. No ano de 1992, resolveu-se alargar a SOPEM aos artistas médicos, passando então a chamar-se Sociedade Portuguesa dos Escritores e Artistas Médicos – SOPEAM. Foi também criada a União dos Médicos Escritores e Artistas Lusófonos – UMEAL, juntando numa mesma sociedade todos os médicos que usam o português como língua.

Dos muitos médicos portugueses que deixaram a sua marca nas artes podem ser aqui enumerados alguns, tais como: Luz Soriano, Andrade Corvo, Teixeira de Queirós, Sousa Viterbo, Marcelino Mesquita, Fialho de Almeida, Queirós Veloso, Samuel Maia, Campos Monteiro, António Patrício, Pedro Vitorino, Jaime Cortesão, Abel Salazar, Júlio Dinis, Júlio Dantas, Silva Gaio, Brito Camacho, Leite de Vasconcelos, João de Araújo Correia, Celestino Gomes, José Crespo, Luís de Pina, Fernando de Almeida, Félix Ribeiro, Miguel Torga, Fernando Namora, Bernardo Santareno, Prista Monteiro, Graça Pina de Morais, entre outros. Na atualidade, há várias iniciativas que incluem a divulgação e a promoção do desenvolvimento de atividades artísticas por parte dos médicos, através de exposições, concertos, eventos culturais, lançamento de livros, prémios literários, entre outros. Sendo assim, não é de estranhar que nas publicações destinadas aos médicos haja espaço para

existe mesmo uma secção intitulada “Médicos Artistas”, que engloba áreas como Música, Literatura, Escultura, Fotografia e Pintura. “Mais do que médicos, mais do que artistas… médicos com alma de artista. A Medicina e a Arte sempre andaram de mãos dadas. Nomes sobejamente conhecidos e consagrados da Medicina, grandes mentores de descobertas médicas são igualmente artistas de corpo e alma”, lê-se na descrição desta secção.

Mesmo na televisão pública generalista portuguesa, a Rádio Televisão Portuguesa (RTP), produziram-se em 2007 duas séries documentais: “Médicos Artistas Portugueses” e “Médicos Escritores Portugueses”. Tendo a primeira quatro programas e a segunda doze, ambas foram da autoria de Armando Moreno, um médico estudioso desta temática. O objetivo dos documentários era evidenciar a ligação entre a Arte e a Medicina, através da apresentação de exemplos de médicos com mérito artístico em diversas áreas, particularmente na Literatura.

1.2) A cientificidade do jornalismo

Se até agora foram referidas dificuldades e peculiaridades da afirmação da medicina como área científica, irá agora estudar-se o mesmo problema no âmbito do jornalismo. Isto é, irá explicar-se a afirmação do jornalismo como área de investigação científica. Para tal, traçar- se-á uma perspetiva da evolução dos estudos jornalísticos, que lhes permitiu serem classificados como saber científico, inclusivamente em Portugal.

A dificuldade da afirmação do jornalismo como área científica prevalece: “mesmo entre os estudiosos não há consenso se o jornalismo deve ou não ser considerado como ciência” (ROCHA 2008: 2). Referindo-se à realidade brasileira, mas podendo fazer-se um paralelismo com a realidade portuguesa, no que respeita à formação em jornalismo, Paula Rocha realça que “grande parte das grades dos cursos de jornalismo no país é constituída de ciências humanas e disciplinas técnicas. Poucas tratam o jornalismo como ciência” (ROCHA 2008: 4). Recordando as origens do pensamento científico sobre a comunicação e o jornalismo, saliente-se que “da obra dos pensadores da comunicação pioneiros emerge a ideia de que é preciso compreender a comunicação, incluindo o jornalismo, como o processo social que baseia a interação entre os indivíduos e permite o desenvolvimento das instituições sociais.” (SOUSA 2008a: 16) Acerca destes primórdios, Jorge Pedor Sousa evoca que, num tempo em

que ainda não se falava nem de jornalistas nem de jornalismo, mas em que a imprensa ganhava quotidianamente enorme importância, a tese de doutoramento de Peucer, apresentada em 1690, foi o primeiro trabalho académico sobre as notícias com validade científica. Por isso, encara Peucer como o progenitor não apenas dos Estudos Jornalísticos, como hoje se concebem, mas também das Ciências da Comunicação (Cf. SOUSA 2008a: 18).

Peucer “valoriza e aborda essencialmente a vertente informativa dos jornais que relatam acontecimentos, contam novidades, em suma, dão notícias, percecionando, claramente, que a comunicação jornalística, embora possa ter outras finalidades, serve, essencialmente, para informar” (SOUSA 2008a: 18).

Os estudos jornalísticos assumem um carácter científico, pois: “o conhecimento científico procura conhecer metódica e sistematicamente as relações de causalidade (relações de causa - efeito) entre os fenómenos percetíveis (pelos órgãos dos sentidos ou através de instrumentos), visando, em última análise, encontrar as leis que determinam e regulam essas relações” (SOUSA 2006: 612). Jorge Pedro Sousa exemplifica:

a resposta à questão “por que é que uma determinada notícia surgiu e é como é?” essencialmente consiste numa resposta a “como é que o fenómeno notícia X surgiu e como é que surgiu com determinada forma e determinado conteúdo, quais as causas do fenómeno notícia X?”. Cientificamente, responde-se a essa questão

esclarecendo os processos de recolha, seleção, hierarquização, processamento e difusão de informação jornalística (SOUSA 2006: 612).

Passando para outras características da ciência, esta “pretende chegar a leis universais e a teorias integradoras. Portanto, a ciência é preditiva. A lei científica, mesmo que seja uma lei probabilística, prediz o que acontecerá no futuro em todos os casos iguais àqueles que são explicados pela lei” (SOUSA 2006: 614). Novamente, Jorge Pedro Sousa ilustra com um caso concreto: “Garcia, Stark e Miller (1991) chegaram a uma ‘lei’ probabilística que tem genericamente o seguinte enunciado: ‘quanto maior for uma fotografia publicada num jornal, mais probabilidades tem de ser observada por um leitor’” (SOUSA 2006: 614).

Um aspeto fulcral nos estudos científicos do jornalismo é a inevitável interdisciplinaridade, para a qual Jorge Pedro Sousa chama a atenção:

o campo das ciências sociais e humanas é dos mais marcados pela interdisciplinaridade, dada a profusão de saberes que pode ser reclamada por várias ciências e a complexidade dos objetos de estudo - o homem e a sociedade. Por exemplo, para a definição do campo científico das Ciências da Comunicação concorrem conhecimentos da psicologia, da psicossociologia, da sociologia, da antropologia, etc. (SOUSA 2006: 613).

O mesmo autor declara:

os pesquisadores do jornalismo estudaram globalmente o processo jornalístico no âmbito de um ecossistema social, ideológico, cultural e histórico, que proporciona ao jornalismo, simultaneamente, referentes discursivos (acontecimentos e problemáticas) e enquadramentos, ou seja, estudaram, ao mesmo tempo, objetos como: os jornalistas, as organizações em que estes trabalham; os diversos constrangimentos (pessoais, sociais, ideológicos, culturais...) ao processo produtivo jornalístico; as mensagens (notícias) que são emitidas, através de determinados meios, para uma audiência, tendo em conta circunstâncias de mercado; a influência do mercado e da audiência sobre as notícias; os efeitos das notícias, etc. (SOUSA 2008b: 3).

A investigação científica em jornalismo tem um marco em 1978, pois, “nesse ano, assistiu-se à publicação de quatro importantes textos no estudo do jornalismo, no universo da língua inglesa” (SANTOS, R. 2010: 219). Rogério Santos enumera os quatro textos fulcrais editados nesse ano: “Discovering the news” de Michael Schudson, no qual se destaca o papel da objetividade nas notícias como produto social; “Policing the crisis” de Stuart Hall e colegas, em que prevaleceu uma posição marcadamente sociológica e estruturalista, com base numa análise de conteúdo sobre notícias, pela qual se conclui a preponderância das fontes no enquadramento dos acontecimentos; “Putting ‘reality together’” de Schlesinger, sobre o trabalho interno da BBC, analisando a notícia como resultado do tempo e espaço disponíveis, bem como do controlo exercido sobre os jornalistas através do sistema editorial e da

ideologia empresarial e, finalmente, “Making news: a study in the construction of reality” de Gaye Tuchman, que estudou as atividades dos jornalistas e seguiu as histórias jornalísticas do começo até à sua impressão, apresentando a notícia como uma construção social e como narrativa (Cf. SANTOS, R. 2010: 220).

Na atualidade, “a maioria dos estudos jornalísticos contemporâneos tem por base uma perspetiva sociológica” (SOUSA 2008b: 3). De facto, “há autores que escreveram sobre

sociologia do jornalismo (Neveu, 2001; McNair, 1998; Schlesinger, 1990), enquanto outros se debruçaram sobre sociologia dos media (Curran, 1996) e sociologia da produção noticiosa (Schudson, 2000)” (SANTOS, R. 2010: 229). Segundo Rémy Rieffel,

a sociologia dos media propõe-se estudar as diversas modalidades de produção e de receção da informação, as relações que se instauram entre o emissor e o recetor das mensagens, a influência dos media sobre a sociedade, interessando-se mais especificamente pelo

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