Antes que os indivíduos sejam membros de uma comunidade, existe algo que ultrapassa a globalidade da sociedade. Tal dimensão é a cultura, o pano de fundo em que cada sujeito está inserido, muitas vezes, sem perceber. Quando uma cultura fica saturada, perde evidência, o conjunto social que está nele inserido desorienta-se, fica sem consciência sobre o que é (MAFFESOLI in SCHULER; SILVA, 2006).
Os indivíduos pós-modernos encontram-se nesse estado, já que há uma excessiva miscigenação de culturas e de modos de ser (consigo mesmo e com os outros) – impulsionados pela globalização. Não há mais somente uma possibilidade, uma realidade na qual se inserir, mas diferentes maneiras de concebê-la, de vivê-la. Por isso, evidencia-se a
necessidade do emocional que funciona como conector, facilitador, ao permitir que o sujeito se identifique com outros tendo como base os sentimentos.
A reconfiguração da noção de emoção e de paixão comum é resultante do presenteísmo predominante atualmente. Maffesoli defende que, para compreender uma sociedade, é preciso evidenciar qual elemento da tríade temporal nela se destaca. Existem sociedades que se fixam no passado, como as chamadas sociedades tradicionais; outras, que tem foco no futuro, como é o caso da sociedade moderna fundada sob o mito do progresso; e ainda as que se baseiam no presente, como a pós-moderna (MAFFESOLI, 2014).
Quando o foco está no presente, há uma espécie de retorno da eternidade, do prazer, de aproveitar o aqui e agora. O aspecto experimental é valorizado, e a rigidez perde força quando se abrem portas para as contínuas renovações, ao dinamismo existencial. A cultura (e as paixões e emoções que a constituem) se mostra essencial já que composta por elementos simples que servem de cimento ao estar-junto, ao viver-junto (MAFFESOLI, 2012).
Para bem compreender o que está em jogo na socialidade pós-moderna, é importante captar a estreita ligação existente entre o fato de estar, com outras pessoas, em um local determinado, e a temporalidade caracterizando essa divisão: o presente. É, com efeito, a partir desse presenteísmo que o ‘lugar cria laço’ (MAFFESOLI, 2012, p.24, grifo do autor).
O sentido da vida pós-moderna é buscado no aqui agora, não mais no futuro. É na importância do corpo, do cuidar, do vestir, do construir, que habita um impulso vital que abriga o retorno à lógica do sentido. O indivíduo, agora, se harmoniza com diversos ritmos da existência, e a isso Maffesoli (2012) chama de invaginação. Isto é, não se pode mais pensar o humano somente a partir do cérebro, mas é preciso considerar o corpo, o corporeísmo que assinala o declínio político e ascende o aspecto mítico da vida.
A criatividade tem papel fundamental nessa nova configuração, pois possibilita que o indivíduo construa a sua existência a partir de perspectivas plurais. As características não são mais concebidas com foco somente no racional, mas são atravessadas por um carga imaginal (MAFFESOLI, 2012). Isso significa que aquilo que antes não fazia sentido, porque não se explicava através da razão, agora tem seu espaço e sua defesa no imaginário – relaciona-se com o emocional, o instintivo, se sente. Fala-se aqui do termo imaginário no sentido simples “[...] em seu aspecto matricial, o imaginário como matriz, sublinhando que, juntamente com aspectos puramente racionais do social, há uma dimensão stricto sensu mítica” (MAFFESOLI in SCHULER; SILVA, 2006, p.28, grifo do autor).
O imaginário é o que garante a coesão do conjunto social. No mundo pós-moderno, só é possível entender o real a partir do irreal, já que a existência é permeada por um realismo mágico: quando realismo porque se mostra em todos os lados da vida quotidiana, e mágico pois atribui a esses lados uma aura imaterial, um aspecto espiritual.
A volta desse lúdico encontra no desenvolvimento tecnológico auxílio para se manifestar – e assim forma-se o mais inusitado paradoxo pós-moderno. Na internet, o imaginário se manifesta em redes sociais, blogues, jogos on-line: todos existentes no virtual, mas com visíveis consequências no mundo real, já que estabelecem laços e, devido a isso, criam a sociedade. A comunicação é, assim, também um ritual, um estar-junto. Afinal, a imagem faz vínculo, estabelece ligação. “Existe, portanto, uma dimensão comungante na partilha de imagens eletrônicas. Para além do aprisionamento individual, são causa e efeito de um verdadeiro corpo social que não é redutível à racionalidade” (MAFFESOLI, 2012, p.91).
É preciso enfatizar que a relevância do imaginário manifesta-se também nas artes, que necessitam dele para existir e existem porque com ele podem contar. Pinturas, filmes, peças de teatro, livros: todos materiais ancorados na eficácia do imaterial, na capacidade do ser humano de imaginar. O artista/produtor se mostra como decodificador e recodificador de imaginários compartilhados que se transformam em obras e utilizam da fantasia suscitada no espectador para fazer sentir, existir.
Ainda, pode se ver no presente a constituição de tribos urbanas que partilham do mesmo imaginário social em relação às artes. É o caso da Associação Cultural Vila Flores que reúne artistas em um centro cultural no bairro Floresta, em Porto Alegre (RS-Brasil). O projeto tem como objetivo ser espaço para indivíduos que trabalham e gostam de artes, lugar de trocas e de invenções e reconfigurações culturais. 41 Isto é, os sujeitos compartilham dos mesmos valores referentes às artes e, por isso, habitam um mesmo espaço que propõe tal sinergia.
Sendo assim,
A pós-modernidade se (re)constrói sobre outras fundações. Na matéria sobre um original comunitário (tribal). Original fundando o original de hoje. Eis que é o ingresso, cujo orbe é vasto e cujas manifestações são múltiplas. Cada um, pessoa plural em sua tribo de escolha, vai ser o que é a partir das ligações que o constituem. Ligações de afetos, odores, gostos, sentimentos, sensações, tudo fazendo com que
cresçamos com (MAFFESOLI, 2012, p.12, grifo do autor).
41 ASSOCIAÇÃO CULTURAL VILA FLORES. Disponível em: <https://vilaflores.wordpress.com/associacao-
A pós-modernidade de Michel Maffesoli é heterogênea, dá lugar às pluralizações. Ela repousa na ênfase do presente, da mestiçagem, no emocional, na diversificação de crenças, nas diversas formas de reencantamento. Para ele, o sensível deve ser levado a sério e entendido como uma categoria capaz de conviver harmoniosamente com a razão. O indivíduo pode lidar com seu pensamento e sua emoção, deixando que um auxilie o outro no descobrimento do mundo contemporâneo.