As cenas de despedida de João Baraúna de seu barranco são carregadas de sentimentos que misturam tristezas e uma saudade antecipada. Ele estava retirando-se de
sua terra. A cena em que seu pai o leva para a cidade, para que de lá pudesse sair embarcado em uma barca, nos remete às cenas do conto “A terceira margem do rio” de João Guimarães Rosa.
Acompanhei o velho. Pela segunda vez, na minha vida, não ia voltar com ele. A primeira foi quando fiquei para a escola; a segunda, agora. Acompanhei-o até a beira do rio. Ele desamarrou a canoa e agasalhou os trens a salvo da molhação. E, já embarcado, eu lhe tomei a benção, a mão estendida, a cabeça descoberta:
– A benção pai.
– Deus que te dê boa sorte. – A benção para minha mãe.
E, desencalhando a canoa, com um bolo enorme na garganta, eu lhe disse uma coisa que não sei se ele ouviu, recado que não acredito que a velha tenha recebido: – Diga a ela... que me perdoe...
E baixei a cara. Virei-a. Nem vi a manobra que o velho fez. Mas me dominei. Puxei para a garganta a molhação que estava descendo, dos olhos para a venta. Olhei para baixo. Lá se ia meu pai. Acabrunhado. Arrasado. A alma em pedaços. O remo pesando, como nunca, nos seus braços cansados. Mas ia descendo. Descendo todos os santos ajudam. Ele seria ajudado pelos santos, já que perdera o seu João (Ruy Santos, 1953, p. 112).
E o velho ia ficar ainda mais só. A catinga. Plantara um pé de saudade no seu peito. Agora era um pedaço do velho catingueiro que se ia, na figura do filho, na minha figura que todo mundo dizia ser a cara dele. Todo mundo tem seu destino. Meu pai era catingueiro e estava condenado àquela prisão, metido naquele barranco molhado de vazante e coberto de mandioca; eu que era barranqueiro, deixava o meu barranco pela coxia de uma barca. O mundo é assim. (Ruy Santos, 1953, p. 113)
No conto “A terceira margem”, de João Guimarães Rosa, o pai constrói uma canoa e decide terminar a vida dentro do rio, vagando entre as duas margens. O filho, ao ver o pai envelhecido dentro do rio, oferece-se para ficar no lugar dele dentro da canoa, mas ao perceber e ouvir um sim do pai, perde a coragem de assumir o lugar dele. Na narrativa, João Baraúna dá adeus ao pai, deixando-o voltar na velha canoa de sempre para se lançar dentro de uma barca no meio do rio. “Lá se ia meu pai. Acabrunhado. Arrasado. A alma em pedaços. O remo pesando, como nunca, nos seus braços cansados” (Ruy Santos, 1953, p. 112). Ele domina os sentimentos e deixa o pai ir, mesmo sabendo que ele estava velho para dar prosseguimento à rotineira vida de camponês. Não volta com ele e manda o recado para a mãe pedindo o perdão pela decisão de partir ao invés de assumir o lugar do pai na canoa. Na tradição camponesa, o filho mais novo, normalmente o último a se casar constrói sua casa no mesmo terreno dos pais e ali permanece cuidando deles e da terra. João quebra a tradição, talvez procurasse no rio a sua terceira margem.
dono do cercado em que a sua família vivia e cuidava. Ele envolve-se com as pessoas da cidade de Casa-Nova e, dentre elas, o Dr. Luiz, um juiz que acabava de chegar à cidade e que o contratara para ser seu ajudante. Os dois tornaram-se amigos e, dias antes do embarque de João Baraúna, o Dr. Luiz, disse a ele: “ - Pense bem João. Aquilo não é vida para você. Você é um rapaz de trato que já sabe ler e que pode ter outro futuro. Talvez até eu pudesse lhe fazer oficial de justiça”. João lhe disse que não. “Eu falava rindo, com os dentes de fora, numa alegria de que não me arrependo. E pedi que me desculpasse” (Ruy Santos, 1953, p. 225).
Ele parecia cumprir uma espécie de destino: o chamado do rio e da barca. Ao dizer que não arrepende-se da alegria vivida naquele dia, ele deixa transparecer um lado mais positivo da vida de remeiro, sobretudo, porque tinha nas mãos a opção de ficar e estudar, de ser um oficial de justiça. Ao contrário de Orindo Brotas, o personagem de “Porto Calendário” que só consegue libertar-se da cadeia de Juazeiro porque o sargento lhe alugou para a barca do Capitão Antão, e de Miguel Faiscô, que não vê outra opção de vida que não fosse a de um remo na mão, João Baraúna diz não à oportunidade de viver entre os livros, o tão desejado sonho de Orindo Brotas, para alugar-se na barca.
Ia realizar, afinal, o maior sonho da minha vida. Andei pela coxia como que a experimentando. Meu pés haviam de corrê-la, milhares de vezes, na minha labuta de remeiro. Recostei-me à casa grande de rapadura. Experimente o peso de uma das varas que estavam sobre ela. Qual seria a minha? Remeiro não pega na vara com que outro trabalha, a não ser numa grande necessidade. Cada um tem seu instrumento de trabalho, a que se acostuma e se afeiçoa. (…) Eu estava apenas pegando em tudo, tocando tudo, olhando tudo, por curiosidade. Talvez todos não tivessem feito o que eu estava fazendo. Há gente que se joga para uma barca como uma solução, uma necessidade. Mas eu não. Eu ia ser remeiro porque queria ser, porque sempre desejei ser. Claro que a Mariinha me impeliu mais precipitadamente para a barca; mas eu sonhara, muitas vezes, embarcado. (Ruy Santos, 1953, p. 231)
O personagem toca a barca como se estivesse tocando uma pessoa ou mesmo um presente conquistado. Ia realizar o sonho que povoara o seu imaginário de menino. João transmite ser um homem de paixões: a Mariinha, o rio e agora a barca, sua nova paixão. “Eu tinha uma fome danada de trabalho e uma sede doida de correr o meu rio, para baixo e para cima” (Ruy Santos, 1953, p. 231). Ele deixa claro que ia ser remeiro porque sempre desejou ser, não foi uma necessidade imposta pelo meio. “Se eu não parasse, certos momentos, era capaz de esquecer a Mariinha” (Ruy santos, 1953, p. 230). Ele transfere o
amor que sente para a barca e para o rio, transformava-se em uma barca sem leme, deixando ser guiado pelas próprias águas do rio. Para onde iria ele? Em busca de uma terceira margem do rio, talvez?
A sua nova vida era suavizada por uma amizade que unia uns aos outros os remeiros de toda a barca. “Um não fazia cara feia quando o outro pedia qualquer ajuda; o mais velho não explorava o mais novo” (Ruy Santos, 1953, p. 248). A narrativa cheia de lirismo, conta em miúdos o cotidiano do remeiro, o trabalho, a viagem, as conversas, as paradas. Estes aspectos narrados não divergem das outras duas narrativas “Remeiros e romeiros do São Francisco” e “Porto Calendário”. A diferença está no estilo de escrita, na suavidade das frases de Ruy Santos e no fato de que o narrador é mais positivo do que os outros.