Considerando que as máquinas colhedoras de cana-de-açúcar foram transferidas da Austrália para o Brasil, faz-se necessário discorrer brevemente sobre a questão da transferência de tecnologia.
Segundo Forsyth (1998 apud SHAHNAVAZ, 2000), transferência de tecnologia é a difusão de novos equipamentos técnicos, práticas e conhecimento de uma região para outra, a fim de fornecer oportunidades de desenvolver melhorias em segurança, operações, produtos e serviços.
Shahnavaz (2000) também afirma que uma tecnologia apropriada é aquela consistente com as necessidades e recursos do país, adequada à sua população usuária e sensível ao ambiente no qual opera. Ela leva em consideração a infra-estrutura local bem como as condições educacionais, sociais, culturais, econômicas e políticas da tecnologia receptora.
Entretanto, como aponta Wisner (1992), toda máquina é cultural. Isso significa que toda pessoa ou grupo de pessoas que concebe o sistema técnico o faz levando em consideração o uso que se fará, em condições e por pessoas que imagina ou crê conhecer. Assim, a essência das dificuldades encontradas pela transferência de tecnologia é a diferença entre os povos, divididos ou não pelas fronteiras de uma nação (WISNER, 1992).
Wisner (1995) em outro trabalho, afirma que após 20 anos de experiência em diversos países, é possível concluir que existem problemas específicos em cada um deles. Tais problemas estão ligados à enorme diversidade de situações dos países e regiões que adquirem a tecnologia e tentam implementá-la com vários graus de sucesso.
Segundo Shahnavaz (2000), em geral, as condições existentes e os requerimentos do país produtor da tecnologia determinam as características desta. Quando esta tecnologia é transferida para outro país, que pode ter características e requerimentos diferentes, algumas adaptações são necessárias para adequá-la ao país receptor. Se tais modificações não são
feitas, como resultado, ocorre transferência de tecnologia inapropriada, com altas taxas de acidentes e lesões, baixa produtividade e qualidade do trabalho, questões que podem ser resolvidas com a intervenção ergonômica (SHAHNAVAZ, 2000).
Como ressaltado por Wisner (1992), a ergonomia sempre teve interesse pelos problemas apresentados por países muito diferentes daqueles industrializados há mais tempo. Era preciso estudar a diversidade das dimensões corporais, quais códigos e sinais tinham o mesmo sentido, quais comandos podiam ser utilizados por pessoas de força muscular variável, etc. Porém, isso tudo permanecia na ergonomia baseada em experimentações laboratoriais, como já considerado no item anterior.
Assim, segundo o autor, certos ergonomistas da corrente francófona descobriram que parte dos insucessos da ação ergonômica nestes casos estava relacionada com o fato de confiarem na descrição do trabalho fornecida pela empresa, a tarefa prescrita, e não as suas exigências reais. Portanto, era necessário analisar a realidade do trabalho. De qualquer forma, ainda que permanecesse no quadro da ergonomia, haviam também dificuldades e exigências nos países em desenvolvimento industrial que eram de outra natureza: a nível coletivo, por isso foi desenvolvida a antropotecnologia (WISNER, 1992).
Seguindo a mesma linha, Moray (2004) coloca que mais do que incompatibilidades de usuários com relação às dimensões antropométricas, estereótipos de estímulo-resposta e interpretação linguística errada, existem fatores mais complexos a serem considerados na transferência de tecnologia: fatores culturais. Estes compreendem as relações entre as pessoas, a hierarquia, a motivação, que pode ser baseada em competição, cooperação, entre outros.
Alguns autores, como Hendrick (1997) se referem à esta temática como macroergonomia. Entretanto, Wisner (1992) ressalta que para sublinhar o salto epistemológico que era necessário dar, era preciso criar uma expressão claramente distinta.
Assim, o termo antropotecnologia, segundo Wisner (1995), destaca que o conhecimento útil quando se lida com questões difíceis da transferência pertence às ciências humanas e não às ciências humanas individuais, como a ergonomia. A antropotecnologia, portanto é a adaptação da tecnologia às pessoas, a ergonomia da transferência de tecnologia.
Enquanto a ergonomia estuda os operadores em seus postos de trabalho, a antropotecnologia vai além dos limites destes. Como descreve Rubio (1997), na procura de
soluções para melhorar o trabalho e a produção dentro do ambiente de trabalho, a antropotecnologia também traça as causas das dificuldades tanto dentro quanto fora da situação de trabalho do país onde os dispositivos importados são utilizados.
Este método ascendente permite chegar às múltiplas causas das dificuldades através de uma análise meticulosa do comportamento e atividade situada dos grupos (WISNER, 1995). Em outras palavras, ele proporciona a interpretação dos defeitos operacionais em sistemas técnicos que foram exportados e permite a criação de espaços em vários níveis a fim de resolver as dificuldades encontradas.
Segundo o autor, tal método torna-se ainda mais determinante em casos de países em desenvolvimento. Isto porque é uma sociedade estrangeira que fornece a tecnologia, de modo que a representação sobre a cognição situada é ainda mais remota do que o planejado, ou seja, o trabalho real é ainda mais distante do prescrito.
Geslin (2005) estudando o trabalho agrícola em vários países com uma abordagem antropotecnológica constatou que existem três situações em que a antropotecnologia pode ser utilizada:
• Quando a tecnologia ainda não foi transferida. Neste caso, no projeto do futuro sistema deve-se levar em conta as características especificas do futuro receptor final e busca-se apoiar o processo de projeto.
• Quando a tecnologia foi transferida, mas formas corrompidas de funcionamento aparecem no processo de transferência. Aqui, a abordagem antropotecnológica consiste em alterar um estado existente.
• Quando a tecnologia não foi transferida ainda mas a escolha tecnológica foi feita e está em operação no país fornecedor. Como na situação anterior, a abordagem consiste em alterar o sistema para adequá-lo ao pais receptor.
Os procedimentos metodológicos da antropotecnologia de acordo com Wisner (1995) são:
• Primeiramente, antes da transferência de tecnologia, um estudo sobre a tecnologia apresentada em operação deve ser feito a fim de ressaltar seus defeitos e corrigi-los no novo projeto. Esta fase é feita através da AET dos pontos críticos do sistema técnico no país de origem para evitar uma situação em que o sistema é necessariamente
considerado satisfatório.
• Em seguida, o mesmo método é aplicado para estudo dos aspectos críticos de um sistema técnico similar operando no país de destino ou em um pais com características semelhantes.
• Por fim, a instalação do novo sistema técnico pelas equipes de gestores e operadores dos dois países é acompanhada pelo ergonomista.
O autor ressalta que embora o método seja trabalhoso, ele fornece conhecimento que pode ser utilizado amplamente. Graças a sua abordagem, é possível rastrear as causas econômicas, sociais e antropológicas das dificuldades observadas e evita-las. E, de novo, a análise detalhada das atividades situadas levam à identificação dos obstáculos a serem removidos ou transformados.