Sobre a presença do caráter clínico, aqui aproximado do sentido de terapêutico, e pontuado pelas pesquisadoras, no questionário, como o processo e a relação estabelecida entre as partes – no caso, terapeuta ocupacional e segurado – a partir dos quais se realizam as intervenções:
Nas entrevistas, conforme já referido no presente texto, observou-se que o distanciamento da prática clínica, à qual grande parte delas estava habituada, significou um distanciamento do próprio 'ser TO', da própria identidade profissional. Outro aspecto que expressa o caráter terapêutico presente nas concepções e formas de atuação das participantes é a composição das equipes considerada como a mais apropriada para a Reabilitação Profissional (p. 128), tendo uma parcela significativa delas assinalado profissões (além da própria, mencionada por todas) encontradas com frequência na área da saúde e com as quais a terapia ocupacional costuma compor equipes multiprofissionais, como a medicina, a psicologia, o serviço social e a fisioterapia, em detrimento de outras como a sociologia, a antropologia e o direito.
Algumas das entrevistadas falaram sobre a identificação de demandas dos segurados que, a seu ver, deveriam ser atendidas clínica/terapeuticamente, ora referindo o desejo de possuir a 'permissão' e/ou a estrutura necessária para a realização desses atendimentos; ora contando sobre as estratégias por elas criadas para dar conta, ao menos parcialmente, dessas demandas – denominando suas ações como de orientação ou de educação –; ora falando
sobre o pesar sentido quando constatam a insuficiência da rede de atenção à saúde para suprir tais demandas e a consequente dificuldade e/ou impossibilidade de realização dos encaminhamentos necessários. Percebe-se que a clínica referida diz respeito, principalmente, a ações na área de reabilitação física e funcional, como o trabalho para aquisição e/ou reaquisição de habilidades, ampliando-se para a confecção de adaptações para atividades cotidianas realizadas pelos segurados e orientações sobre formas de realização das mesmas, também sendo pontuadas, por algumas das entrevistadas, questões de outras ordens, como as referentes à saúde psíquica dos segurados.
Quanto ao encaminhamento e/ou acompanhamento dos segurados para tratamentos de reabilitação, como nas áreas física, mental/psicossocial, psicopedagógica, entre outras, 80% das terapeutas ocupacionais declaram que realizam esse tipo de ação e 20% referem não o fazer, por não se tratar de uma atribuição enquanto terapeuta ocupacional do Programa.
Acho que daria para fazer a questão de (...) troca de dominância, que agora a gente está com alguns casos com alguma coisa bem específica da terapia ocupacional (…) que eu falo “Não, aqui no INSS eu não conseguiria fazer esse atendimento clínico que eu não tenho condições”, mas eu fico conversando com o segurado sobre a troca de dominância e eu estou começando a pensar o que eu posso orientar, já que eu estou orientando esses segurados, para que eles possam fazer em casa, começar a usar a mão esquerda e de que forma eu posso orientar isso (E5, p. 20).
Acho que a mais importante é essa primeira vez que eu resolvi: “não, vou comprar o EVA porque eu não aguento mais”, não vou ficar dando a caneta na mão do segurado para ele pegar fazendo uma preensão com o polegar todo torto, (...) como eu, como TO, vou sustentar ficar vendo isso? Eu vejo o cara indo na TO, fez algumas sessões, ninguém orientou nada para ele (E4, p. 17).
Você faz na maior parte das vezes a pergunta: “você está acompanhando terapeuticamente com um psicólogo, com um terapeuta ocupacional, com algum profissional da área de saúde mental?” “Não”. Então aí você identifica outros problemas, que são muitos (…), não sei enumerar, mas que é questão da saúde não estar sendo cuidada, estar sendo mal cuidada (E2, p. 7).
Oliveira (2004) coloca que a constituição da terapia ocupacional no Brasil se deu dentro das perspectivas de um trabalho basicamente clínico, mesmo quando inserido em programas vocacionais, mantendo-se essa característica até o final dos anos 1970. Nesse período, os terapeutas ocupacionais, ao se confrontarem com seu papel de adaptadores, foram levados a exercer um papel mais participativo e crítico, tanto nos espaços de saúde quanto nos espaços sociais, trabalhando junto aos indivíduos na direção do exercício de seus direitos e de
melhores condições de vida (OLIVEIRA, 2004).
Acreditamos na impossibilidade de transposição, para a realidade do trabalho com os segurados no INSS, da lógica e das ações da prática clínica, devendo ser criadas estratégias que contemplem as necessidades dessa nova prática, considerando-se, ainda, que o tratamento terapêutico não se encontra entre as atribuições das terapeutas ocupacionais do Programa. Na realidade, não existe um rol de atribuições específicas da terapia ocupacional no Instituto, sendo esperado que elas desempenhem as atividades previstas por todos os membros da equipe designados como responsáveis pela orientação profissional, que dizem respeito às etapas do processo de reabilitação profissional, desde a definição da elegibilidade dos segurados até a capacitação profissional e o posterior desligamento do Programa.
E5 traz colocações a respeito do caráter dos atendimentos, já enunciando algumas das estratégias possíveis dentro da realidade de trabalho no Instituto. São as terapeutas ocupacionais sendo chamadas ao exercício de outros papeis para além da clínica, que devem levar a novas modalidades de ações junto aos indivíduos na construção de caminhos para o seu retorno ao trabalho e para um exercício digno e consciente de suas atividades enquanto trabalhadores.
Porque eu acho que não dá para explicar a nossa prática lá com os mesmos conhecimentos e abordagens que a gente tem na clínica, isso talvez que leve um pouco à crise (…); o que eu trago da formação é essa questão de pensar que a gente (...) está dentro de um sistema, dentro de políticas (…). A gente tem que tentar construir essa clínica, não é essa clínica, eu acho que é atendimento, essa relação que eu não sei ainda como chamar, mas contextualizada dentro do que é o INSS, dentro do que é reabilitação profissional (E5, p. 19-20).
Consideramos, no entanto, que a questão fundamental a ser colocada é anterior à da clínica. Cremos que a clínica, tal qual foi apresentada nos questionários e entrevistas, não se aplica à realidade da Reabilitação Profissional do Instituto e às suas atribuições. Porém, as novas modalidades de práticas e concepções que estão sendo construídas têm encontrado lugar para concretização dentro da lógica do Instituto? Terá a terapia ocupacional a possibilidade de exercer o seu potencial de transformação da realidade junto aos segurados em seus processos de retorno ao trabalho?
Acreditamos que isto poderá se concretizar, ao menos em parte, se houver melhoria da estrutura do Programa de Reabilitação Profissional (estrutura física das salas de atendimento, maior flexibilidade com relação às etapas do processo, incremento das possibilidades de
qualificação profissional oferecidas, dentre inúmeros outros aspectos) e das condições de trabalho das equipes, bem como uma mudança da lógica do Instituto, fundamentada na incapacidade de trabalho circunscrita somente aos segurados e às suas habilidades individuais. Importante ressaltar, ainda, a necessária articulação com os demais setores governamentais e da sociedade civil envolvidos, direta ou indiretamente, com as questões da Reabilitação Profissional – educação, cultura, emprego, saúde –, e de acontecimentos muito mais amplos como as transformações no mundo do trabalho, no qual se tem verificado uma crescente precarização.
Do contrário, as ações nas quais os indivíduos voltam a trabalhar de uma maneira “cheia de sentido” (ANTUNES, 2008) permanecerão restritas aos casos em que imperam a resistência e/ou a boa vontade de membros da equipe e de segurados que parecem conseguir um satisfatório retorno à atividade profissional mais por características individuais e/ou situacionais do que pela garantia de reais mecanismos de inserção e/ou inclusão no trabalho, por meio de políticas públicas articuladas e que vão ao encontro das necessidades dos trabalhadores brasileiros.