• No results found

As atribuições do Grupo de Trabalho de Humanização, de acordo com a PHAS/RS, são liderar a política de humanização nas instituições, traçar estratégias de comunicação, promover a integração entre os setores do serviço, avaliar projetos em desenvolvimento conforme os parâmetros de humanização propostos, estimular a participação da comunidade, promover a interação com o gestor municipal, estabelecer padrões de atendimento ao usuário, participar dos encontros de humanização e coordenar o voluntariado (Rio Grande do Sul, 2005).

No processo de composição dos GTH, observamos que três dos hospitais pesquisados formaram o GTH para atender a uma das exigências do contrato firmado com o governo estadual, sem a qual não é possível receber os recursos do

Programa Parceria Resolve. Isso se evidencia no relato da coordenadora do GTH de um desses hospitais.

Porque que começou? Por que havia uma verba do Parceria Resolve e daí tinha que montar um grupo. E o administrador da verba disse que tínhamos que montar um grupo porque senão não teríamos direito à verba do Parceria Resolve. Na verdade, a gente foi obrigada a montar. Foi montado o grupo e enviados os relatórios.

A escolha dos integrantes do GTH nos hospitais pesquisados foi feita pela direção da instituição ou pelos coordenadores. Todos os grupos procuraram integrar diferentes profissionais com representatividade nos setores. Em um hospital, o GTH chegou a integrar lideranças da comunidade local. Entretanto, observa-se um declínio na ação de parte desses grupos. Na ocasião da entrevista, apenas três GTH continuavam reunindo-se sistematicamente (Hospital São Lucas, Hospital Espírita e Hospital de Clínicas). Nos hospitais Parque Belém e Beneficência Portuguesa, os GTH foram sendo diluídos em meio à crise financeira, persistindo ainda algumas poucas ações levadas à frente por atores isolados. No Hospital Conceição, um dos motivos de desarticulação do GTH foi a falta de permeabilidade das propostas feitas pelo grupo à direção do hospital. De acordo com o entrevistado, as principais propostas do grupo (eleição para chefias e criação de ouvidorias funcionais para atender os trabalhadores) foram encaradas pela direção como algo difícil e complicado de ser efetuado naquele momento73. Isso desgastou a Comissão, que avaliou que suas propostas não estavam sendo valorizadas. O Hospital Conceição tem a peculiaridade de pertencer a um grupo de hospitais (hospitais Conceição, Criança Conceição, Cristo Redentor e Fêmina) que formam o Grupo Hospitalar Conceição. Quando contatei a direção do Grupo para identificar os coordenadores dos GTH, fui informada de que não havia um GTH constituído, pois a PNH estava implementada de forma diversificada, observando alguns de seus dispositivos. Em vista disso, fui à direção do Hospital Conceição. Após receber várias informações desencontradas, fui encaminhada pela secretaria ao gerente de pesquisa, que aceitou ser entrevistado com a ressalva de que não estava mais atuando no GTH. Passado algum tempo, pude perceber que a emergência do Hospital Conceição era uma das experiências exitosas de implementação do dispositivo da PNH

“Acolhimento com classificação de risco, constando no “Banco de Projetos Boas Práticas de Humanização na Atenção e Gestão do SUS”.

Observa-se que as propostas oriundas do GTH só são colocadas em prática quando existe interesse da administração por tal ação. Caso contrário, o poder de barganha desses grupos junto à direção é reduzido. Quando há participação de um representante da direção no GTH, a tendência é de que as propostas do grupo sejam implementadas. A participação de um membro da direção serve como um mecanismo de pré-ajustamento entre as expectativas da direção e as demandas do grupo.

A implementação das propostas também está relacionada aos recursos financeiros disponíveis. Embora o contrato do Parceria Resolve atribua 10% do valor a ser recebido pelos hospitais à existência de um grupo de trabalho, não é obrigatório que o percentual seja investido em ações de humanização. Nos hospitais que se encontram em dificuldades financeiras, algumas ações podem ser vistas como supérfluas, mesmo pelos trabalhadores. Um fato ocorrido em um dos hospitais pesquisados demonstra essa possibilidade. Mensalmente o grupo sorteava alguns trabalhadores para participar de um Café da Manhã com a direção do hospital. Diante das dificuldades financeiras e das críticas dos trabalhadores, a atividade foi suspensa. Conforme relato da coordenadora do grupo dessa instituição, os colegas chegavam até ela e indagavam: “A gente não está recebendo por causa do café, né?” “Estão gastando com o café, por isso que não tem dinheiro para nos pagar”. No caso dos hospitais onde há maior disponibilidade de recursos financeiros, as ações de humanização, que envolvem investimento de recursos financeiros, concorrem com demandas de outras áreas.

Em ambos os casos, quando não há recursos disponíveis, a tendência dos GTH é de realizar campanhas. Em um caso, o coordenador relatou que, quando o GTH resolveu fazer uma campanha pública de arrecadação de materiais de hotelaria hospitalar (lençóis, fronhas, cortinas, etc), a direção não foi simpática à idéia, pois implicava tornar públicas as dificuldades financeiras da instituição. “Mostrava o lado feio do lençol rasgado”. Em todos os hospitais pesquisados, a identificação da humanização com o aspecto caritativo é destacada. Todos os coordenadores de grupo fizeram menção, em algum momento, a esse tipo de ação. O mais inusitado é o caso de um voluntário que percorre a porta dos hospitais durante a madrugada distribuindo lanches para pessoas que aguardam atendimento ou para familiares de

pessoas internadas. Não são raros os casos de pessoas que não conseguiriam fazer um tratamento mais prolongado, como, por exemplo, uma quimioterapia, se não recebessem ajuda com vale-transporte.