RIKSARKIVET I OSLO
KAPITTEL 5: KONKLUSJON
[...]. Pensar hoje o campo religioso brasileiro, sem dúvida nenhuma é pensar sobre essas realidades de longa duração, aparentemente superadas pelo tempo, mas que reaparecem a todo momento, relacionadas com a violência física contra os pobres, contra os negros, contra os índios, contra os considerados ainda em nossos dias diferentes de um brasileiro inexistente, produto de delírios (o problemático é que não são apenas delírios) de parte da elite brasileira, mas também de um padrão de
245 MACHADO, Maria Clara Tomaz. Candomblé, ritual e fé: quintais do passado. In: KATRIB, Cairo Mohamad
Ibrahim. MACHADO, Maria Clara Tomaz. PULGA, Vera Lúcia (org.) Mulheres de Fé: indivíduos no candomblé e na umbanda. Uberlândia: Composer, 2018. p. 107-108
246 A exposição de longa duração chamada “As Religiões Afro-Brasileiras” é descrita como: Núcleo consagrado
às religiões e cultos brasileiros que possuem matriz africana. Visões de mundo e mitologias são ressaltadas por meio de rica iconografia, com destaque ao panteão de santos, orixás e outras entidades cultuadas no Brasil. No espaço reservado ao núcleo pode ser observado vestimentas de Egungun e de orixás, instrumentos musicais, além de pinturas, gravuras, esculturas, instalações e fotografias dedicadas ao tema.” – Disponível em: www.museuafrobrasil.org.br – assim como outras informações sobre o funcionamento do museu e seu acervo.
comportamento extremamente assumido por diferentes segmentos sociais no Brasil de hoje.247
O campo religioso no Brasil é bastante complexo, havendo diversas vertentes e sentidos. No entanto, em alguns momentos, ele pode ser utilizado como um elemento que auxilia a forjar a ideia de nacionalidade, agregando as pessoas em prol de um objetivo comum, como é o caso do reconhecimento de Nossa Senhora Aparecida, “eleita” a padroeira do Brasil, inclusive pela demanda popular.
Para pensar de que forma a religiosidade pode ser vista como resistência e a que se deve isso, é necessário estudar as origens desses processos no Brasil e suas religiões fundantes. Sabemos que as religiões fazem parte das experiências das pessoas a partir de “crenças difundidas, costumes internalizados, ideações do cotidiano” que formam “uma “etnografia do familiar”, buscando estranhar um passado que não é tão afastado, mas cuja memória já começa a fraquejar”248
O diálogo entre o público e o privado, ao falar de religiões, acaba sendo uma maneira de perceber essa temática. No entanto, para compreender como essas relações foram estabelecidas é necessário avaliar como o universo religioso adentrou no país e como se consolidou. Estamos falando dos sincretismos perpetuados ao longo dos anos. Sobre isso, Lilian Schwarcz discute um pouco do que é essa brasilidade religiosa:
[...]. Moderno e arcaico são adjetivos que, apesar de opostos, neste caso podem ser entendidos na sua absoluta simultaneidade. O Brasil nunca foi tão integrado e jamais tão particular [...] o fato é que no país as imagens que trazem a convivência de pólos opostos multiplicam-se. Altares com santos dispostos lado a lado com a televisão; casas de construção improvisada onde os aparelhos elétricos servem como motivo de decoração; a convivência de hábitos que lembram origens distintas, ou mesmo, [...] costumes misturados quando são Cosme e são Damião recebem doces tradicionais como oferenda, além de Coca-Cola, goiabada em lata e outros produtos industrializados. [...] O novo momento se anuncia a partir dos anos 30, com Getúlio Vargas, talvez o grande símbolo de como fazer da política a introdução do privado na vida pública e da vida pública no privado249.
O Brasil é historicamente considerado como um país que lida com as suas diferenças, até mesmo na ideia de sua mestiçagem, como Clara defende a partir da década de 1970. Todavia, vale questionar se na prática isso é realmente válido quando pensamos nas causas
247 ISAIA, Artur Cesar. O Campo Religioso Brasileiro e suas transformações históricas. In: Revista Brasileira
de História das Religiões – ano I, n.3, jan. 2009. Dossiê Tolerância e Intolerância nas manifestações religiosas.
p. 98.
248 SCHWARCZ, Lilia M. Introdução. Sobre semelhanças e diferenças. In: SCHWARCZ, Lilia M. (org.)
História da Vida Privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. (Coordenador-geral da coleção
Fernando A. Novais) São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 08.
religiosas. Por exemplo, quando em 12 de outubro de 1995, o bispo da Igreja Universal Sérgio von Helder chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida, no dia de sua comemoração e em uma emissora de rede aberta de televisão, no caso, a TV Record, podemos perceber que isso nem sempre é uma verdade, visto que a não aceitação se manifesta de várias formas. É natural que alguém que acredita em algo defenda seu ponto de vista. Porém, é necessário ponderar sobre até que ponto isso pode ocorrer, ainda mais quando vemos uma mercantilização do sagrado e a necessidade de sempre haver uma conversão do outro. Por isso, deve-se refletir sobre se o país realmente lida com as suas diferenças ou se esse é um discurso político que visa transmitir uma imagem de uma nação heterogênea e pacifista. Nessa perspectiva, Maria Lúcia Montes diagnostica o final da década de 1990 da seguinte forma:
[...] a partir da expansão do protestantismo, religião histórica da tolerância e do valor da razão como base da crença – o enrijecimento das posições institucionais, a disputa do interior do campo religioso em cada uma das confissões e a intolerância para com as crenças das igrejas ou formas de religiosidade rivais, elevando ao mesmo tempo o irracionalismo aparentemente mais delirante à condição de prova de fé. Da mesma forma, à privatização e intimização das crenças e práticas constatadas no universo religioso corresponderia, contraditoriamente, mostrando uma outra face dessa modernidade, um envolvimento cada vez maior e mais complexo por parte das igrejas com o mundo social, sua busca de controle dos instrumentos de riqueza e prestígio, e a disputa aberta de posições de poder na vida pública, graças à participação direta na política.250
É preciso ressaltar, no entanto, que essa discussão proposta pela autora é datada, uma vez que não só o campo religioso, mas as análises feitas são históricas, ou seja, dependem do seu momento e do seu lugar. Por isso, é preciso compreender as mudanças que ocorreram, lembrando do aumento de poder da bancada evangélica no Congresso Nacional e os vários casos de preconceito religioso vividos por diversos grupos, principalmente os ataques aos terreiros da Umbanda e do Candomblé. Ou seja, é uma questão ampla e que necessita ser constantemente refletida e reorientada para que não se produzam análises anacrônicas.
De forma geral, as religiões compõem um universo mítico dentro de um contexto de cultura. Por conta disso, podemos entender esse fenômeno a partir de diferentes perspectivas, sendo que Montes introduz o tema da seguinte forma:
[...]. Entendendo a religião como parte do universo da cultura, os antropólogos se acostumaram a considerar como característica que lhe é inerente seu poder de criar um corpo consistente de símbolos, práticas e ritos, valores, crenças e regras de conduta – em outras palavras, um “sistema cultural” – capaz de responder às situações-limites, como o sofrimento e a morte, a ameaça de colapso dos valores morais ou a perda de inteligibilidade da experiência do mundo, em vista das quais se
250 MONTES, Maria Lúcia. Op. Cit. p. 71.
torna necessário ao homem recorrer a um outro mundo para ainda atribuir sentido ao que lhe ocorre nesta vida.251
Ou seja, busca-se em outro lugar as explicações para o tempo presente. Ainda sobre o tema, a autora afirma:
[...] a religião pode desempenhar um papel de maior ou menor relevância, dependendo, em diferentes contextos ecológicos e sociais, do grau de integração a que é suscetível a experiência humana nessas várias esferas, podendo agregar-se de forma mais ou menos coerente em uma mesma visão de mundo, ou, mais propriamente, uma mesma cosmologia. [...] E é diante desse quadro que se pode caracterizar o lugar que compete à religião, na definição das práticas e valores, das normas e das crenças que norteiam a ação do homem nesses diferentes domínios.252 Precisamos observar a formas como as principais religiões brasileiras se organizaram no século XX. Primeiramente, é preciso deixar claro de quais religiões estamos falando aqui. De acordo com Pierucci: “Três das principais religiões classificadas pela sociologia como tradicionais, mesmo que cada qual seja tradicional à sua maneira”253, são elas: o catolicismo;
o luteranismo e suas formas de protestantismo; e, a umbanda, a mais abrangente das religiões mediúnicas.
O que é perceptível é que as religiões encontraram uma crise na sua organização, sendo necessária toda uma reformulação em suas principais expressões. Por exemplo, a Igreja Católica no início do século XX elege seus “novos inimigos”, de acordo com Montes:
[...]. Por isso, os “inimigos” da Igreja católica ainda são o protestantismo e as religiões afro-brasileiras, incorporadas sob a designação vaga de “espiritismo”, ao lado do pensamento cientificista e da secularização, que ameaçam a posição institucional e a hegemonia espiritual do catolicismo num Brasil “verdadeiramente cristão” [...] a Igreja Católica pauta seus posicionamentos perante a vida pública, sendo a ética da vida privada, sobretudo a moral familiar, a ser cultivada inclusive nos Círculos Operários e no seio das Forças Armadas, a principal ênfase de sua vertente doutrinária e eclesial. De certa forma, a Igreja ainda continuava a manter-se de costas para o povo, temendo fazer frente às suas demandas sociais e recusando-se a entender a linguagem em que tradicionalmente manifestara suas aspirações espirituais254
Essa realidade muda somente nos anos 1960, com as alterações drásticas no cenário brasileiro, em que a fé católica precisa se posicionar diante das novas demandas sociais. A partir dos anos 1970, a Igreja inicia o que Montes chama de “uma verdadeira revolução”, que nos parece ser a Teologia da Libertação:
251 MONTES, Maria Lúcia. Op. Cit. p.71-72. 252 Idem. p. 72.
253 PIERUCCI, Antonio Flávio. “Bye Bye, Brasil” – o declínio das religiões tradicionais no Censo 2000.
Estudos Avançados 12 (52), 2004.
[...]. A Igreja daria início a uma verdadeira revolução, orientada por uma profunda e dilacerada revisão autocrítica de sua própria história, procurando redescobrir ou reinventar sua vocação com base em uma releitura de sua atuação “do ponto de vista do povo”. Embora a descentralização e a democratização das estruturas de poder que resultaram desse processo, assim como a progressiva organização-incorporação das comunidades leigas de fiéis a ele concomitante, estivessem fundadas em uma preocupação profunda e sincera com o revigoramento da mensagem católica, pela vivência integral, individual e comunitária, do seu significado, que deveria ser absorvido como uma ética coerente capaz de reger a conduta do fiel na vida pública assim como na vida privada, o envolvimento social e político que, a partir de então, progressivamente iria tomar conta da Igreja nas décadas seguintes acabaria por levar sua atuação a pender mais a vertente pública da vida social que para a interioridade da fé na vida privada.255
É desse momento também que surgiu o grupo da “Tradição, Família e Propriedade” que defendeu ideias bastante conservadoras do catolicismo, como também os carismáticos, uma cópia malfeita dos neopentecostais. Em contraposição, não podemos nos esquecer que, na época da ditadura militar, esse grupo de esquerda intitulado “Teologia da Libertação” atuou na América Latina e no Brasil especialmente defendendo a democratização do país, lutou contra a violência política e em favor das camadas populares, exigindo a justiça social e a observância dos direitos políticos. São exemplos desta corrente: D. Helder Câmara, D. Evaristo Arns, D. Tomás Balduíno, Leonardo Boff, Frei Betto, entre tanto outros, muitos deles perseguidos.256 Essa reviravolta conservadora para a interiorização dos dogmas católicos acaba abrindo espaço para que outras religiões ganhassem igualmente um lugar no cenário brasileiro, principalmente as religiões protestantes que se estabelecem ou se fortalecem nesse momento, e também as afro-brasileiras que, de acordo com Montes: “enfim conquistavam reconhecimento e legitimidade no campo religioso no Brasil”.257
A questão de como lidamos com a cultura do outro e o modo com que interage com a nossa, muitas vezes, transformando-a a tal ponto que promove o aparecimento de uma terceira, é uma preocupação que aflige o homem moderno desde o “descobrimento” do Novo Mundo, principalmente a América e também, depois com a vinda (imposta) dos africanos para este continente.
255 MONTES, Maria Lúcia. Op. Cit. p. 78.
256 Para mais informações sobre a Teologia da Libertação e sobre o catolicismo, cf.: STEIL, Carlos Alberto.
TONIO, Rodrigo. O catolicismo e a igreja católica no Brasil à luz dos dados sobre religião no Censo de 2010. In:
Debates do NER, Porto Alegre, ano 14, n. 24, p. 223-243, jul./dez. 2013. ARNS, Paulo Evaristo. Brasil Nunca Mais. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1985. BOFF, Leonardo. Teologia da Libertação no debate atual. Petrópolis,
RJ: Editora Vozes, 1985.
É inegável as trocas culturais que ocorrem entre os nativos americanos, os europeus colonizados e os africanos escravizados, e que ainda acontecem, só mudando os nomes dos agentes. Desse intenso contato entre as três vertentes emerge a cultura brasileira, em grande parte como ainda a conhecemos hoje. É interessante perceber como o Brasil sempre foi visto como uma nação de tolerância, uma vez que em sua própria composição encontramos uma grande miscigenação.
No entanto, devemos pensar em algumas questões para entendermos a forma como foi, a partir dessa multiplicidade, que desenvolveu uma “nova” cultura, caracterizada, principalmente, por sua diversidade, mas temos que nos atentar para que esse discurso não seja entendido como uma aceitação generalizada pelo diferente, uma vez que a miscigenação por si só não garante.
No século XIX, muitas considerações foram feitas sobre a África e seus habitantes, quase sempre para denegrir a imagem deles, seus modos de vida e seus afazeres, como é possível observar que até mesmo um importante filósofo/historiador tinha essa visão deturpada da realidade africana, no caso, Hegel: “[...] África não é uma parte histórica do mundo. Não tem movimentos, progressos a mostrar [...] nós os vemos hoje em dia como sempre foram.”258. Ou seja, não havia mutabilidade e por isso não havia história. Isso
demonstra que, por ser analisada através de padrões eurocêntricos, o continente africano era considerado “sem códigos de escrita, sem arte, sem cultura, sem história e pelo “não ser do escravo”259.
Isso também pode ser compreendido com a tentativa do europeu, visto aqui como colonizador, de se mostrar como superior por meio da inferiorização dos que não são iguais a eles em suas concepções. Sendo assim, os povos dos demais continentes eram desumanizados por intermédio de imagens que exaltavam o isolamento de seus grupos e do seu “primitivismo”, necessitando do civilismo europeu para ser possível sua humanização e a recuperação das suas almas perdidas.
Dessa forma, observamos que desde o começo das relações entre europeus e qualquer outro grupo social que não pertencesse ao que eles consideravam certos, eram vistos como
258 ANTONACCI, Maria Antonieta – África/Brasil: corpos, tempos e histórias silenciadas. Tempo e
Argumento. v. 1. n. 1. jan./jun. 2009. p. 47.
inferiores, antes mesmo de qualquer convívio, ou seja, o preconceito já era enrustido na mentalidade europeia antes mesmo do conhecimento dessas pessoas. Sobre a questão da miscigenação, Ronaldo Vainfas nos diz:
[...] Miscigenação étnica e mescla cultural são problemáticas afins, embora não idênticas, que atualmente estão na ordem do dia na historiografia ocidental produzida sobre a colonização ibérica nas Américas. No entanto, é questão que, entre nós, vem de longe, modificando-se ao longo do tempo os termos, a valoração e o sentido das interpretações.260
Lidar com a questão de miscigenação étnica e mescla cultural no Brasil ainda gera muitos tabus, e muitas questões que são geralmente evitadas, sendo assim uma constante desconhecida, por assim dizer.
É certo que devemos reformular o modo como pensamos e vemos a miscigenação no Brasil, para assim podermos lidar com o preconceito mascarado (ou não) existente no país. A ideia de aceitação brasileira ocorre em decorrência da pacificidade com que os protestantes puderam se instalar no Brasil no início do século XX, principalmente. A evolução deste, no entanto, se inicia de forma lenta e gradual até que, após as guerras, no período em que Hobsbawm nomeia como a Era de Ouro do século XX, há uma radicalização dos movimentos protestantes que culminam, nos anos 1950, na “Cruzada Nacional de Evangelização”.
As igrejas intituladas evangélicas ou neopentecostais criadas nesse período se diferenciam da católica, por exemplo, por apresentar inovações quanto ao processo de evangelização, que se dá sobretudo pelos meios de comunicação de massa, como o rádio inicialmente, até chegar nas redes de televisão.261
Sobre isso, Montes argumenta que além dessa forma de angariar seguidores, as religiões pentecostais a partir da década de 1970 se utilizaram de uma nova lógica para propagar sua fé:
[...] rapidamente se implantam e passam a ganhar centenas de milhares de adeptos em velocidade crescente, sobretudo entre as camadas mais modestas da população. Será a partir de então que o “protestantismo” começará de fato a inquietar a hierarquia católica, passando a ser sistematicamente incluído entre os “inimigos” a cujo combate deveria entregar-se a fé católica, ao lado do “espiritismo” kardecista e do “baixo espiritismo” como eram comumente designadas as religiões afro-
260 VAINFAS, Ronaldo. – Colonização, miscigenação e questão racial: notas sobre equívocos e tabus da
historiografia brasileira. Tempo 8: ago. 1999. p. 1.
261 Um caso que evidencia isso é a compra da TV Record pela Igreja Universal do Reino de Deus, nos anos
1990, o que permitiu maior divulgação dos dogmas dessa religião. Além disso, atualmente, a programação dessa emissora possui bastante conteúdo religioso, como o caso de novelas que trazem para uma linguagem próxima do público as mensagens e passagens bíblicas.
brasileiras. É que esse novo protestantismo de massa, ou “protestantismo de conversão” trazia importantes inovações para o campo religioso, sob vários aspectos. Primeiro no uso de instrumentos não convencionais de evangelização, centrados sobretudo na comunicação de massa. [...] Mas, inovava também em sua própria mensagem, a “cura divina”, para as doenças do corpo, da mente e da alma, aquelas mesmas que, firmemente ancoradas na imediatidade física do corpo ou na interioridade recôndita do espírito, mais de perto diziam respeito ao indivíduo. [...] Por fim, o novo pentecostalismo inovava ainda, num país majoritariamente católico, do ponto de vista teológico e organizacional: suas igrejas prescindiam da hierarquia sacerdotal e negavam ao catolicismo e seus prelados o monopólio da salvação, agora colocada nas mãos dos próprios fiéis.262
Muda-se o lugar do sagrado e do profano para alguns. O sagrado passa a estar na responsabilidade do crente, que deve, por temor a Deus, agir corretamente e, apesar de a Igreja ainda ser o lugar de adoração por excelência, ela passa também a ser lugar de socialização, uma vez que esse ambiente ajuda a ressignificar os laços tradicionais que podem ser perdidos na cidade. De acordo com Montes, “[...] reconstituem para esses novos trabalhadores que chegam aos grandes centros urbanos os laços de solidariedade primária de seu local de origem, perdidos com o processo migratório, dando-lhes enfim o sentimento de pertencimento que lhes falta na cidade grande.”263. Mas, dentro das religiões afro, o sagrado
ainda está nos terreiros, no espaço destinado ao culto dos orixás, apesar de ser possível carregar em partes este para o interior das casas, por exemplo, em altares e proteções.
A religião torna a ser algo palpável, ou seja, algo que está ao alcance de todos. Seus pastores carregam a verdade e têm como missão a conversão de mais pessoas, para adentrarem nessa comunidade. Ao mesmo tempo em que se propaga universalmente, uma vez que qualquer convertido pode fazer parte, também é excludente, uma vez que segrega a Igreja do restante da sociedade, o que auxilia os neopentecostais a se diferenciarem dos demais. Montes problematiza o termo evangélico com o qual todos esses grupos são tratados:
[...]. É certo que se torna difícil delimitar com precisão a categoria “evangélico”, já
que engloba um número importante de igrejas com grande diversidade organizacional teológica e litúrgica. [...] Assim, “evangélico” torna-se antes uma categoria “nativa”, um rótulo identitário por meio do qual, no grupo disperso, se demarcam fronteiras, incluindo-se ou não determinados segmentos no interior do