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Os estudos linguísticos concernentes ao que hoje conhecemos como Pragmática foram originalmente desenvolvidos por trabalhos de filósofos da linguagem, em particular John Austin e Paul Grice e John Searle, em meados do século XX. Quando o primeiro começa a desenvolver sua teoria dos atos de fala, através da obra clássica How to do things with words, de 1962, a Linguística ainda privilegiava a descrição da língua em sua forma abstrata, independentemente de seu contexto de uso — sabemos, por exemplo, que para Ferdinand de Saussure, considerado o precursor da corrente linguística estruturalista, importava a descrição sincrônica da langue, isto é, das unidades pertencentes aos diversos níveis da língua, tais como fonemas, morfemas, etc.

Desta forma, os filósofos da linguagem supracitados promovem o interesse da Linguística pelo estudo do uso concreto da língua, ou seja, pelo exame das relações entre a língua e seus usuários e do contexto situacional em que os eventos de fala ocorrem. Em nosso trabalho, particularmente, interessa-nos o estudo pioneiro de Grice (1982) a respeito do Princípio de

Cooperação e das máximas conversacionais dele decorrentes, uma vez que tal teoria serviria de esteio para uma série de outros estudos pragmáticos, como os estudos sobre polidez linguística que, posteriormente, analisaremos em detalhes.

O Princípio de Cooperação é, de acordo com o filósofo, o princípio básico que rege a comunicação humana, ou seja, quando duas ou mais pessoas se propõem interagir em uma conversação, há um acordo tácito entre elas, pressupondo o respeito às regras do jogo conversacional e à cooperação para que a interação transcorra de maneira adequada; nas palavras de Grice (1982, p.86), este princípio poderia ser assim caracterizado: ―faça sua contribuição conversacional tal como é requerida, no momento em que ocorre, pelo propósito ou direção do intercâmbio conversacional em que você está engajado‖. Ao Princípio da Cooperação, subordinam-se quatro máximas conversacionais: da Quantidade, da Qualidade (ou da verdade), da Relação (ou da pertinência) e do Modo, as quais, por sua vez, possuem certas máximas mais específicas.

Dessa forma, a categoria da Quantidade pressupõe as seguintes máximas: 1. ―Faça com que sua contribuição seja tão informativa quanto requerido‖ e 2. ―Não faça sua contribuição mais informativa do que é requerido‖. A categoria da Qualidade apresenta, como supermáxima, ―trate de fazer uma contribuição que seja verdadeira‖ e como duas máximas mais específicas: 1. ―Não diga o que você acredita ser falso‖ e 2. ―Não diga senão

aquilo para que você possa fornecer evidência adequada‖. Já sob a categoria da Relação, o autor coloca uma única máxima: ―Seja relevante‖. Por fim, sob a categoria Modo, Grice inclui a supermáxima ―seja claro‖ e uma série de máximas como: 1. ―Evite obscuridade de expressão‖; 2. ―Evite ambiguidades‖; 3. ―Seja breve‖ (evite prolixidade desnecessária); 4. ―Seja ordenado‖.

Às vezes, tais máximas podem entrar em conflito, o que resulta em uma predominância de uma delas. Ou, em outros casos, pode haver um ―desrespeito‖ intencional do locutor a uma das máximas — fato que nos conduz a outra importante contribuição do autor aos estudos pragmáticos: a noção de implicatura, que pode ser considerada como uma inferência que se obtém dos textos. As implicaturas podem ser convencionais (quando desencadeadas por uma expressão linguística) ou podem ser implicaturas conversacionais (quando são provocadas por princípios gerais ligados à conversação).

Grice (1982, p. 93) afirma que, para deduzir que uma implicatura conversacional determinada se faz presente, o ouvinte faz uso dos seguintes dados: (1) o significado convencional das palavras usadas, juntamente com a identidade de quaisquer referentes pertinentes; (2) o Princípio de Cooperação e suas máximas; (3) o contexto, linguístico ou extralinguístico, da enunciação; (4) outros itens de seu conhecimento anterior (background); e (5) o fato (ou fato suposto) de que todos os itens relevantes cobertos por (1)-(4) são acessíveis a ambos os participantes, e ambos sabem ou supõem que isso ocorra.

Armengaud (2006, p. 90) ressalta que a implicatura conversacional está na base do procedimento comunicativo como um subentendido: ―Para subentender q (que não se quer dizer abertamente por uma outra razão), basta ter uma sentença p — não importa qual seja o assunto, desde que p implique conversacionalmente q.‖

Marcondes (2005), nesse sentido, considera que o modelo proposto por Grice é particularmente importante do ponto de vista do desenvolvimento da Pragmática, por propor efetivamente um método de interpretação das intenções do falante e de reconstrução de elementos contextuais que explicam a constituição de um significado específico ao contexto de uso.

Dessa maneira, o autor (op.cit., p. 34) salienta que a ironia e a insinuação são casos exemplares da implicatura de que nos fala Grice. Em ambas as situações, há uma violação às máximas conversacionais de forma intencional, sem que o falante possa ser de fato responsabilizado, pois nada foi dito explicitamente: ―ele pode sempre recuar da intenção irônica e afirmar que sua intenção foi outra, evitando assim a interpretação de ofensa ou agressão verbal‖.

Ao estudo de Grice a respeito dos conteúdos implícitos em conversações, seguiu-se uma série de outras explicações a tal fenômeno linguístico, como a de Kerbrat-Orecchioni (1998), que discorre sobre o fato de os atos de fala poderem ser explícitos ou implícitos. Para a autora, se um

enunciado for implícito, ele pode ser denominado como uma inferência e que, por sua vez, divide-se em pressupostos e subentendidos. Fiorin (2002), baseando-se no citado estudo de Kerbrat-Orecchioni, afirma que o pressuposto é a informação que não é abertamente posta, ou seja, que não constitui o verdadeiro objeto da mensagem, mas que é, todavia, desencadeada pela formulação do enunciado. Já o subentendido seria uma informação veiculada por determinado enunciado, cuja interpretação depende da situação de comunicação, ou seja, depende do contexto extralinguístico da interação.

Assim, poderíamos afirmar que o pressuposto decorre de uma marca linguística inscrita no enunciado, ao passo que o subentendido é uma informação formulada sob responsabilidade do ouvinte. Para Fiorin (2002, p. 184): ―o subentendido é um meio de o falante proteger-se, porque, com ele, diz o que quer sem se comprometer. Com os subentendidos, diz-se sem dizer, sugere-se, mas não se diz‖. Exemplos de subentendidos são as insinuações e as alusões.