• No results found

9   Diskusjon

9.9   Konklusjon

A análise dos dados foi realizada a partir da Pedagogia do Oprimido (1994), sobretudo através de uma releitura minha do Método Paulo Freire35, em que a análise crítica do tema de pesquisa procedeu no envolvimento das múltiplas experiências em sua totalidade. Por totalidade, Freire não a pressupõe na acepção positivista, centrada na compreensão binária entre sujeito-objeto, portanto numa visão fechada (petrificada) da realidade presumindo causa-efeito. Para ele (1994), a totalidade é a leitura do mundo realizada a partir da “reflexão e mundo, subjetividade e objetividade” (p.8) que se encontram na “unidade dialética de que resulta um conhecer solidário” (p.12), crítico e produzido na práxis. A totalidade, nesse sentido, está associada à reflexão crítica acerca dos diferentes saberes: popular e científico, não os separando das múltiplas dimensões da vida: sujeito e objeto, razão e emoção, ética e estética, totalidade e particularidade, entre outras.

Mas como é possível fazer a análise metodológica sob inspiração de Paulo Freire? Alguns apontamentos são necessários: 1) Em Freire, o processo de alfabetização toma a conscientização como parte importante na construção do conhecimento libertador. Pressupõe- se uma epistemologia político-pedagógica conscientizadora, sendo mediada pelo diálogo problematizador entre os sujeitos e a realidade, e a ação-reflexão. 2) Para Brandão (2010), “O Método Paulo Freire de alfabetização e educação de adultos realiza-se em sua geometria didática com pessoas ao redor de um círculo de cultura.” (p.170). 3) No meu caso, utilizo a

35

Método aqui não está voltado apenas para delinear uma metodologia do fazer enquanto instrumento fechado em si, mas, sobretudo do fazer a partir de uma Teoria do Conhecimento que se quer dialógica. Diante disto, partirei da fala dos pioneiros e as pioneiras da Educação Popular para organizar os dados da pesquisa. Destes surgem, os Temas Geradores contextualizados.

concepção de Educação Popular libertadora36, cujo método crítico-dialógico colabora na interpretação da realidade informada e investigada. Para tanto, o pressuposto metodológico compreende a articulação entre teoria e prática, cujas contradições servem para construirmos e qualificarmos de forma coletiva a relação entre Educação Popular e universidade. 4) O exercício de análise e sistematização representou um esforço rigoroso em utilizar o processo de codificação e decodificação para compreender as relações entre Educação Popular e universidade na formulação de sínteses a partir das entrevistas, dos meus objetivos e das minhas curiosidades. Juntar as partes, compor a unidade na diversidade, identificar conceitos e categorias a partir dos dados da realidade foi o caminho inicial. Classificar e escolher elementos importantes para as análises e síntese na confrontação das experiências teórico- práticas dos pioneiros e pioneiras da Educação Popular subsidiou o processo de análise e sistematização, ambos na perspectiva da unidade dialética entre a teoria e a prática.

A realidade histórico-social no contexto da pesquisa foi sendo costurada pelas diferentes e múltiplas experiências, na medida em que a condição existencial dos sujeitos está vinculada aos processos de codificação e decodificação da realidade. Situando essas experiências no contexto da pesquisa, fui relacionando a inserção crítica na realidade concreta dos pioneiros e das pioneiras da Educação Popular, buscando apresentar novas sínteses de conhecimentos. A síntese que permeou todo o processo de pesquisa e análises foi o exercício curioso, criativo e crítico na elaboração de uma tese que se preocupa com a construção de estudos que contribuam para a produção de conhecimentos e debates com compromisso social, pedagógico, ético, cultural, histórico e político com a Educação Popular libertadora.

O esforço de propor uma análise crítica de dados a partir do fundamento e das dimensões da Educação Popular, ao olhar para a totalidade, possibilitou “reconhecer a interação de suas partes.” (FREIRE, 1994, p55). Ou seja, essa relação “implica numa ida das partes ao todo e numa volta deste às partes, que implica num reconhecimento do sujeito no objeto (a situação existencial concreta) e do objeto como situação em que está o sujeito.” (FREIRE, 1994, p.55).

Analisar os dados por meio da reconstrução das trajetórias na e com a Educação Popular destes educadores e educadoras me permitiu trabalhar com o seus respectivos universos

36

Na perspectiva crítica a Educação Popular é e deve ser libertadora. Conforme Freire, a proposta de uma pedagogia humanizadora e libertadora impulsiona a construção e uma cultura da libertação na busca da emancipação humana.

temáticos em diálogo com o tema gerador37. Através das análises das entrevistas, o que Freire denominava de universos temáticos vou chamar de experiências-mundo.

No meu caso, tal processo foi realizado por meio das entrevistas (presenciais e por e- mail), além de análise documental. “Desta maneira, as dimensões significativas que, por sua vez, estão constituídas de partes em interação, ao serem analisadas, devem ser percebidas pelos indivíduos como dimensões da totalidade”. (FREIRE, 1994, p. 55). Diante disso, a obtenção de sínteses que possam servir como base para pensar hoje a universidade, na perspectiva da Educação Popular, foi resultado da relação entre o tema gerador, que se encontra contido no universo temático (experiências-mundo), cuja interação propiciou uma leitura analítica da totalidade estudada, que é advinda da prática social dos pioneiros e pioneiras da Educação popular.

Essa interação partiu da codificação, tal como compreendida em Pedagogia do Oprimido, enquanto representação da situação vivida pelos sujeitos, sendo constituída na relação com o tema gerador. A codificação representa as partes do problema de estudo, permitindo as relações com a totalidade. Nas palavras de Freire (1994), “A codificação de uma situação existencial é a representação desta, com alguns de seus elementos constitutivos, em interação”. (p.55). Em outras palavras, a codificação representa uma situação existencial vivida pelos sujeitos da pesquisa, neste caso as vivências na Educação Popular. Por isso, as codificações não possuem um núcleo temático, pois tratam de um universo temático

37

O tema gerador é a universidade e a Educação Popular.

CARTAS E DOCUMENTOS REFERENCIAL TEÓRICO- METODOLÓGICO ENTREVISTAS Experiências-mundo

Dialogicamente construídas = descrição e

problematização - compreensão crítica da conjuntura

(experiências-mundo). É dessa maneira, pelas codificações mediadas pela reflexão de uma situação existencial, que os elementos da totalidade são expressos.

A análise desse universo temático (experiências-mundo) foi realizada através da decodificação, que tem a intenção de capturar os elementos existenciais apresentados na codificação. Por isso, as entrevistas (presencial e por e-mail) e a análise das cartas recebidas dos pioneiros e das pioneiras da Educação Popular foram “lidas” a partir de algumas dimensões (políticas, epistemológicas, sociais, estéticos, antropológicas e metodológicas) da concepção da Educação Popular freiriana e das trajetórias destes sujeitos.

A decodificação foi um dos momentos mais importantes dentro da pesquisa, porque permitiu estabelecer as relações entre as partes do todo e um retorno do todo às partes (Freire, 1994). Com base na proposta de análise, consegui registrar parte das experiências vividas e partilhadas pelos pioneiros e pelas pioneiras da Educação Popular, possibilitando o não “desperdício da experiência”. (SANTOS, 2000). Logo, entendo que os educadores e educadoras são sujeitos de relações, e possuem experiências coletivas e particulares/singulares. Assim, faço a opção pelas interações entre o singular/particular e o universal/totalidade. À luz de Lukács (1978) e de Freire (1994), concebo que existem mediações entre o particular e a totalidade. Um não existe sem o outro, e não são lineares – ao contrário, a interação entre eles dá-se em movimento. Também, ao explicitar essas opções teórico-metodológicas na minha perspectiva de análise, constato que as experiências-mundo compõem a práxis educativa dos sujeitos que buscam alternativas transformadoras na construção de inéditos-viáveis.

A codificação representa as situações existenciais (a teoria, a prática, os ideais, os limites, etc.) e a decodificação é análise crítica do contexto teórico-prático das vivências dos pioneiros e das pioneiras da Educação Popular. Freire (1989), ao retomar a necessidade de ultrapassar os limites da pura decodificação, afirma ser necessária uma compreensão crítica da leitura do mundo e da leitura da palavra. Essa definição me ajudou nas relações entre o singular e o universal de Lukács (1978), na análise da situação existencial concreta.

Assim, a Educação Popular e universidade, objeto de estudo, só possuem sentido na relação entre o contexto teórico-prático das experiências dos pioneiros e das pioneiras da Educação Popular. Estes (as) fazem parte de um contexto histórico e político particular da trajetória da Educação Popular no Brasil. Ressalto que essas trajetórias (da Educação Popular e dos pioneiros e das pioneiras) são constituídas de contradições que fazem parte da nossa existência no e com o mundo.

Por tais razões, a decodificação crítica é o que permitiu identificar a ontologia da Educação Popular freiriana e a responder parte das minhas indagações. A decodificação, segundo Freire (1994), possibilita a construção do novo conhecimento ou de pistas para construir novas sínteses de conhecimentos. Esse processo de codificação e decodificação permitiu a reconstituição de algumas das experiências vividas individual e coletivamente, observando as particularidades/singularidades dos sujeitos dessa pesquisa. Assim sendo, o registro dessas experiências é um “instrumento possibilitador da práxis por ser também instrumento de formação e organização” (FREIRE, 1981, p.10).

Dessa maneira, identifiquei elementos presentes nas experiências dos pioneiros e das pioneiras da Educação Popular que podem contribuir para repensar a universidade na perspectiva da Educação Popular. E, como questão balizadora, temos: Quais experiências político-pedagógicas podemos identificar entre a trajetória teórico-prática de pioneiros e pioneiras da Educação Popular e a luta pela universidade na perspectiva da Educação Popular freiriana?

Durante o percurso de análise da pesquisa, caracterizo os pioneiros e as pioneiras da Educação Popular como intelectuais semeadores de esperança e intelectuais comunicativos. Pois, a partir de suas experiências-mundo, seja na militância e/ou no trabalho na universidade, mediante as experiências individuais e coletivas, eles se constituem como intelectuais engajados. Observo que na Educação Popular é através das experiências- mundo e da presença engajada que podemos pontuar as principais contribuições dos pioneiros e das pioneiras da Educação Popular na aproximação efetiva entre a universidade e a Educação Popular.

A partir dessas metodologias, pude identificar traços de um novo ethos cultural atravessado pela Educação Popular libertadora, de uma nova cultura de universidade, a qual pode vir a tornar-se a universidade popular de um projeto que se pretenda crítico, dialógico, democrático e transformador na construção do conhecimento, cujos objetivos sejam compreender, intervir e transformar a realidade pesquisada (Brandão, Streck, 2006). A reflexão em torno dessas questões, realizada mediante a participação dos sujeitos de minha pesquisa, propiciou-me enxergar possibilidades e limites de uma universidade na perspectiva da Educação Popular.

No meu entendimento, essa possiblidade materializada seria o inédito-viável; e, com isso, quero dizer que a universidade popular pode vir a ser um modo de superação dos condicionamentos políticos e históricos que estão presentes na história da universidade brasileira. É preciso explicitar que os inéditos-viáveis podem estar (e normalmente estão)

presentes e materializados nos vários contextos universitários, possibilitando a construção de universidades populares. Não compreendo a universidade popular enquanto projeto único para todas as universidades, mas como proposta de universidades que buscam realizar-se de muitas formas, entrelaçadas pelas dimensões e concepção da Educação Popular libertadora, amparada por um novo ethos cultural, o da libertação.

Por esse motivo, considero que foi importante trazer na tese as relações entre Paulo Freire e universidade, no sentido de identificar as bases conceituais da Educação Popular presentes tanto na universidade que temos quanto nas que já tivemos, e, a partir disso, focarmos, cada vez mais, nas estratégias necessárias à concretização da universidade a qual desejamos ( educadores/as progressitas). A reflexão partindo do referencial freiriano e das experiências (concretas ou idealizadas) de proposta de uma universidade popular (Brandão, 2010).

Para as análises, no campo das reflexões a partir do fundamento e das dimensões da Educação popular, autores como Brandão (1981), Scocuglia (2001), Veras (2010), Fávero (2013), Beisiegel (1989), Gadotti (2013) e Brayner (2015), contribuíram para este estudo reflexivo, a ser apresentado ao longo da tese. Abaixo, apresento o desenho-síntese da metodologia de análise, a qual se viabiliza através do conjunto de instrumentos de coleta de dados (entrevistas, documentos, cartas, etc.).

. Universo Temático (Experiências-Mundo) Vivências /experiências (teórico-práticas) na Leituras do mundo Reflexão crítica Pioneiros(as) da Educação Popular

TEMA GERADOR: EDUCAÇÃO POPULAR E UNIVERSIDADE

Epistemológica, ética e estética. TEMA GERADOR E PALAVRAS GERADORAS Atuação na universidade E N T R E VI S T AS, C O N VE R S AS E C AR T AS CODIFICAÇÃO

DECODIFICAÇÃO: análise crítica [descrição e problematização] desse universo a partir das dimensões: Político- pedagógica Sócio-antropológica Quefazer engajado Intelectuais engajados e transgressores intelectuais comunicativos intelectuais semeadores de esperança

2.4 Trajetórias pedagógicas na universidade: Pioneiros e pioneiras da Educação Popular