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O bairro Borboleta está localizado na zona oeste da cidade de Juiz de Fora e, a exemplo do que ocorre em outros lugares da cidade, sofre com o crescimento desordenado e a falta de planejamento urbano. Atualmente, inúmeros loteamentos populares do projeto do Governo Federal, denominado “Minha Casa Minha Vida26”, circundam a comunidade, onde, até meados do século XX, podiam se vistos bosques e pequenas matas que protegiam as encostas e em cujo centro eram construídas as casas dos moradores.

Na entrada da antiga Colônia, avista-se a gruta de Nossa Senhora Aparecida, que está ali há muitos anos. Localizado nas proximidades da gruta, e já em ruínas, encontra-se o prédio onde funcionava a Escola Agrícola, fundada em 24 de junho de 1869 por Mariano Procópio, com o propósito de transmitir as técnicas da agricultura aos filhos dos colonos. Seguindo na mesma via que dá acesso ao centro do bairro, depara-se com o prédio

reformado da antiga Cervejaria Borboleta, de propriedade dos irmãos Scoralick, tradicional família de descendentes alemães27.

O bairro possui uma estrutura urbana razoável e alguns serviços de atendimento aos moradores. Funcionam ali: um pequeno comércio localizado no centro do bairro, escolas, a Igreja Católica São Vicente de Paulo e, a seu lado, a Associação Cultural e Recreativa Brasil-Alemanha. Outras entidades se encontram presentes no bairro: a Igreja da Comunidade Luterana e a Fundação Espírita Aurílio Esteves, fundada em 1956; o Sport Clube Borboleta e a antiga Quadra da Escola de Samba Borboleta, espaço onde hoje são desenvolvidas atividades esportivas e recreativas.

Cercado pelo Morro do Alemão, o bairro Borboleta abriga reconhecidos antiquários da cidade que, pela qualidade das peças garimpadas por seus proprietários, chamam atenção não só dos moradores locais, mas também de visitantes. Casas, como as da família Muller e Weiss, ainda mantêm elementos da arquitetura típica do final do século XIX, trazida e preservada pelos colonos alemães.

Luiz José Stehling (1979), na obra intitulada Juiz de Fora, a Companhia União e Indústria e os alemães, informa que os imigrantes alemães depararam-se com inúmeras dificuldades ao chegarem a Juiz de Fora, mas, sem dúvida, a falta de moradia foi a maior delas. Mariano Procópio não havia preparado o terreno destinado à construção da Colônia, de forma que as famílias alemãs foram, provisoriamente, alojadas em um acampamento localizado perto da Lagoa da Gratidão. Alguns desses colonos contraíram tifo, devido às péssimas condições sanitárias do local, fato que obrigou a Cia. União e Indústria a construir rapidamente uma enfermaria para tratar os doentes, mas muitos não sobreviveram.

Somente em 1863, as casas dos colonos ficaram prontas e em estado bastante precário. A Colônia Dom Pedro II foi dividida, geograficamente, em dois espaços: a parte de cima deu origem ao bairro hoje conhecido como São

27 Algumas das informações contidas no histórico do bairro Borboleta foram retiradas do WILLKOMMEN: Portal Borboleta. O texto de autoria de Vicente Clemente, descendente alemão, filho de Phillip Clemens, demonstra toda uma visão saudosista do autor. O vídeo foi postado por Luiz Henrique Eiterer, em 3 de setembro de 2010.

Pedro; a ocupação de baixo era denominada Villagem, hoje rua Bernardo Mascarenhas, localizada no bairro Fábrica (STEHLING, 1979).

O bairro Borboleta estava localizado no centro desse grande espaço geográfico onde se assentavam os aglomerados de imigrantes e onde eram cultivados alimentos para o abastecimento do mercado de Juiz de Fora. Não havia demarcação dos espaços ocupados pela Colônia e, nesse sentido, não é possível identificar, espacialmente, o bairro em sua formação original, já que era parte de um conglomerado populacional maior. Os indícios da inexistência dessa demarcação podem ser percebidos nos depoimentos de Vicente Clemente. Segundo o autor, o nome Borboleta tem sua origem quando à época da formação do agrupamento populacional da Colônia ou dos vestígios que ficaram depois da extinção da mesma uma porteira ou um marco não especificado da arquitetura local que lembrava uma borboleta induzia as pessoas a se referirem ao local por essa denominação, que foi se consolidando. Conforme relembra Clemente (2008), tornou-se comum ouvir as pessoas falando: “vamos a [sic] Borboleta”. Entretanto, uma dessas versões sobressai como um “folclore” da região.

Segundo o autor, contava-se a história de que uma linda jovem alemã saía todas as tardes para aprender a língua portuguesa com seu professor, e que ambos adentravam na mata que circundava o povoado. Mesmo com todos os cuidados tomados pela mãe da menina, ela continuava a sair às escondidas para as aulas. Tal fato provocou a curiosidade das vizinhas que diziam: “Achschmetterling, Du flienteimmer zum fensterraus” [sic]28.

O trecho do livro de Clemente (2008, p. 46) em que aparece o significado da expressão “Oh, borboleta, tu sempre voas para fora da janela [...]” é repleto de elementos simbólicos. Esses se referem à forma pela qual os indivíduos elaboravam, no dia a dia, a apropriação de seu espaço em uma nova terra, utilizando, nessa prática, elementos identitários comuns às duas culturas, a alemã e a brasileira: a menina que desejava aprender o português; a mãe alemã zelosa; a interação da comunidade (mesmo que através da fofoca); e, por fim, o professor brasileiro encantado com a beleza alemã, são

28

A tradução da frase é: “Oh, borboleta, tu sempre voas para fora da janela”. Ver: CLEMENTE, Vicente. Os alemães e a borboleta. Juiz de Fora: Editar Editora Associada, 2008. p. 46.

elementos que demonstram a construção de uma via de intercessão entre brasileiros e alemães.

O significado idílico e singular que o povoado adquiriu no texto de Clemente (2008), ao ser construído em uma área de mata, especificamente, para abrigar os agricultores alemães e o formato original do bairro acabou criando um imaginário que remetia às experiências vividas na terra de origem. Todo esse universo, espacial, social e cultural, foi reproduzido simbolicamente pelos descendentes alemães, descortinando o desejo do grupo de ser representado por uma identidade idílica incorporada ao folclore da região.

Nessa obra, a subjetividade e o simbolismo de práticas expressas em iniciativas, como a de solicitar o registro da Festa Alemã, a valorização do papel do imigrante na industrialização da cidade, a coesão do grupo e as homenagens ao espírito empreendedor dos alemães indicam anseios de pertencimento e solidariedade presentes em seu discurso e que respaldam a reivindicação da identidade do grupo.

Nesse local, antiga Colônia Agrícola Dom Pedro II, no final da conturbada década de 1960, foi realizada a primeira Festa Alemã. Sua primeira versão teve o formato de um festival de chope e, entre chucrutes, tortas e joelhos de porco, que eram comercializados nas barracas, estava o pão, que, somado a esse conjunto de elementos, atribuíam-lhe o significado necessário para ser traduzido e composto como uma tradição alemã.