• No results found

O desfiar de datas e de acontecimentos assinaláveis na história da Imprensa deve ser também acompanhado por uma visão global de toda a sociedade. Por outras palavras, o desenvolvimento dos jornais, dos livros, o crescimento de leitores, a construção e consolidação de uma opinião pública e o florescimento de toda uma indústria são fenómenos também ligados a um vasto conjunto de factores económicos, sociais e culturais entre outros. É sempre importante lembrar que história do jornalismo português tem vindo a ser relegada para um segundo plano, no que diz respeito aos estudos académicos, daí a necessidade de apresentar uma visão diacrónica desta área. Este estudo partilha pois da opinião de que “a História da Imprensa, é uma área de saber que tem sido pouco valorizada, tanto na investigação histórica, como nas diversas abordagens que os estudos de Comunicação têm vindo a privilegiar”65, pelo que deve merecer uma maior atenção e contextualização.

Desta forma, tal como o capítulo anterior, onde se pretendeu, de uma forma bastante geral, dar uma visão do aparecimento e crescimento da Imprensa, pretende-se com esta parte do trabalho, contextualizar também o nascimento e a evolução da Imprensa Regional. Esta surge também ligada a uma evolução tecnológica, a um aperfeiçoamento mecânico, e a uma maior e melhor ligação entre países e comunidades. Neste ponto, não devem ficar esquecidos, entre outros, um maior poder de compra, a redução dos custos de produção de um jornal e um maior interesse por parte do público.

Embora sinuosa e com diferentes velocidades, a história da Imprensa acaba sempre por estar intrinsecamente ligada a um vasto conjunto de factores que devem ser analisados de forma global. Um outro ponto digno de referência é também o clima político, nesta fase mais aberto e propício ao aparecimento e desenvolvimento de novos jornais e novas formas de jornalismo. Regina Gouveia lembra, neste âmbito, que “o periodismo português desenvolveu-se especialmente a partir do estabelecimento da liberdade de imprensa (Decreto de 4 de Julho de 1821, Constituição de 1822), ainda que se tenham verificado, em alguns períodos subsequentes, excepções no respeito pela mesma.”66

65

S.A; Revista Media & Jornalismo; Centro de Investigação Media e Jornalismo; 2006; nº9, Edições Minerva; Coimbra; página 5.

66

GOUVEIA, Maria Regina Gomes; A interacção entre o universo político e o campo da comunicação –

40 Tal como anteriormente referido, a invenção de Gutenberg marcou um ponto incontornável na história da Imprensa. Um momento considerado por Jorge Bacelar como “a origem da comunicação de massas por constituir o primeiro método viável de disseminação de ideias e de informação a partir de uma única fonte para um auditório numeroso e disperso.”67

Pensamos nós que outras inovações, embora não tão difundidas, tiveram semelhante impacto. Entre estas, o processo de impressão de Senefelder, designado por litografia, ou o prelo de Stranhope. E posteriormente a mecanização de vários processos, nomeadamente através dos sistemas Linotype. Desenvolvimentos que surgem num período em que a imprensa, os jornais, o medium, começam a ganhar o merecido relevo e subsequente expansão.

Estava, portanto, criada uma conjuntura propícia à expansão da Imprensa. Agora este tipo de iniciativas não se fica pelas grandes cidades ou uma ou outra capital de distrito. Um dos factores que, a meu ver, melhor representam o crescimento e também o reconhecimento da importância da Imprensa e de tudo o que a esta está adstrito é, sem dúvida, a dispersão geográfica dos jornais, que por estas alturas começam a surgir em várias cidades do interior, afastadas dos grandes pólos urbanos e industriais. Mas esta expansão não se fica apenas pelo território do País, começa, tal como em toda a Europa, a ocorrer também ao nível de organizações, de classes profissionais, de sindicatos, e de outras entidades. O jornal torna-se acessível a um vasto universo, mas também passa a ser utilizado por diversos grupos, com o intuito de se fazerem notar nesse mesmo território. Tal facto provoca mudanças estruturais em todos os sectores. Bacelar refere isso também quando diz que “a tecnologia da impressão desencadeou uma revolução nas comunicações que viria a tocar muito fundo nos modos de pensar e nas interacções sociais.”68

Esta profunda transformação que para além de abrir consciências e retirar o “monopólio” das verdades e do conhecimento à Igreja, como anteriormente abordado, consegue agora também servir de plataforma comunicativa no campo científico, onde se podem mostrar experiências e resultados, debater conclusões e conseguir imparcialidades. Mas para além de todos estes novos limites, a “liberalização” do conhecimento, a possibilidade de aceder a livros e jornais e a crescente assiduidade

67

BACELAR, Jorge; Apontamentos sobre a história e desenvolvimento da impressão; in: http://www.bocc.ubi.pt/pag/bacelar_apontamentos.pdf, página 1.

68

41 deste tipo de publicações no meio social muito ajudou para que se conseguissem criar possibilidades de transformação pessoal e social. No “Século das Luzes”, a Imprensa passou a ser também ferramenta de molde social, com a capacidade de transmissão de novas ideias, de criação de novos públicos e disseminação de conhecimentos. A isso se refere, entre outros, Adriano Duarte Rodrigues quando diz que “o desenvolvimento dos meios de comunicação social atingiu de facto tal importância na primeira metade do nosso século que, em poucas dezenas de anos, o nosso ecossistema cultural se transformou mais do que nos três séculos precedentes. Não só se desenvolveram quantitativamente as capacidades de produção, difusão e recepção de mensagens através das técnicas já existentes, como se inventaram novos processos comunicacionais.”69

Bacelar refere também que “se num primeiro tempo a tipografia constituiu, por si, uma revolução, séculos mais tarde passaria a ser instrumento de revoluções: veja-se como exemplo, o papel que a imprensa desempenhou nas colónias inglesas da América, divulgando e defendendo as ideias visionárias que deram forma à Revolução Americana ou, mais tarde ainda, o papel que desempenhou nos aparelhos de agitação e propaganda para a disseminação dos ideais de todos os movimentos ideológicos revolucionários que, a partir de finais do século XIX, se propuseram transformar o mundo.”70

Era o período áureo do jornalismo romântico e liberal, de um jornalismo “sonhador” e literário, onde a presença de grandes nomes das Letras portuguesas como Almeida Garrett, Alexandre Herculano ou Teófilo Braga imprimiram um cunho muito especial nestas publicações. Os jornais carregavam palavras de novas visões, de capacidade de transformação e de novos valores. Regina Gouveia diz que “em 1880, Teófilo Braga estava convicto do poder da imprensa na transformação social: «Na renovação da sociedade moderna pela ciência, pela indústria, pela dignidade moral que procura harmonizar a liberdade do indivíduo com os interesses da colectividade, existe um órgão poderoso, a Imprensa, a quem se deve um grande número de soluções práticas entre as questões que agitam o tempo presente, e que é a principal garantia dos progressos realizados até hoje.”71

69

RODRIGUES, Adriano Duarte; “A Comunicação Social – Noção, Linguagem e História”; Lisboa; S.D.; Editorial Veja; página 18.

70

BACELAR, Jorge; Apontamentos sobre a história e desenvolvimento da impressão; in: http://www.bocc.ubi.pt/pag/bacelar_apontamentos.pdf, página 5.

71

GOUVEIA, Maria Regina Gomes; A interacção entre o universo político e o campo da comunicação –

42 É também neste período que a Imprensa Regional e os projectos locais começam a ganhar destaque e se assumem como novas formas de jornalismo e espaços de promoção de vozes locais, de culturas regionais e de criação de identidades.