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1.1.1. Fluxo Superficial e Subsuperficial

De acordo com conceituação de CHOW (1964), escoamento é a parte da precipitação, bem como de qualquer outra contribuição, que é conduzida em canais superficiais de drenagem sob a forma perene ou intermitente. Dependendo da fonte da qual o fluxo é derivado, o escoamento pode ser caracterizado como superficial (superficial runoff), subsuperficial (subsuperficial runoff) e de água subterrânea (groundwater runoff). O escoamento superficial é aquela parte do runoff que flui sobre a superfície do terreno e através de canais e alcança a saída da bacia. A parte do escoamento superficial que se movimenta sobre a superfície do solo em direção aos canais de drenagem é chamada de overland flow.

HORTON (1933) define overland flow da seguinte maneira: "descartando a interceptação pela vegetação, o escoamento superficial é a parte da precipitação que não é absorvida pelo solo".

A água de escoamento superficial é o mais importante agente de transporte quando a erosão é causada pela chuva. Este escoamento pode se mover sobre o terreno, de diversas maneiras: sobre amplas superfícies sem apresentar canais perceptíveis, como uma lâmina delgada de água e é denominado escoamento laminar ou escoamento pré-canal; ou então, a água se movimenta confinada em micro-canais temporários, canais definitivos ou canais profundos.

Segundo CARSON & KIRKBY (1975) a água da chuva ao alcançar a superfície do terreno se subdivide em vários componentes (Figura 1). Uma parte da porção da chuva que é interceptada pela vegetação permanece sobre a superfície foliar e posteriormente evapora, enquanto que a parte restante chega à superfície do solo por gotejamento após sofrer um retardamento.

Parte da água da chuva que atinge a superfície do terreno, direta ou indiretamente, preenche pequenas irregularidades da superfície, produzindo o armazenamento superficial. Outra parte infiltra no solo e uma terceira acaba por constituir o escoamento superficial. A água que infiltra pela superfície do solo pode ser incorporada neste sob forma adsorvida, ou então, continuar percolando até atingir o nível d'água. No entanto, ocorrem situações em que os horizontes do solo menos permeáveis ou ainda o substrato rochoso está presente, nesse caso a água de percolação movimenta-se lateralmente formando um fluxo subsuperficial, que ao ser interceptado pela superfície dos terrenos da origem a fonte e aos canais de drenagem permanentes.

Diferentes tipos de escoamentos superficiais podem ser identificados em uma bacia de drenagem, como apresentados no Quadro 1, de acordo com DERBYSHIRE et al (1979).

A compreensão dos processos de escoamento superficial depende do estabelecimento do real significado de cada um dos sub-processos envolvidos, sendo que o escoamento superficial não confinado em canais pode ser originado por 4 condições básicas, que são responsáveis pela deflagração dos processos erosivos acelerados, a saber:

1- Escoamento superficial Hortoniano: ocorre quando a intensidade de precipitação excede a taxa de infiltração.

2- Escoamento superficial Hortoniano retardado: quando a intensidade de precipitação excede a capacidade de infiltração do solo após a influência de um fator de retardo, como umedecimento ou impacto de gotas de chuva.

Figura 1: Componentes esquemáticos do balanço hidrológico próximo à superfície (CARSON & KIRKBY, 1975).

3- Escoamento superficial por saturação da camada de topo: ocorre em regiões onde o solo permeável no topo do perfil encontra-se sobrejacente a uma camada menos permeável e, portanto, atinge a saturação em tempo inferior ao da duração da chuva.

4- Escoamento superficial por saturação: ocorre quando a capacidade de armazenamento do solo está completamente esgotada, de tal forma que toda adição de água, independente da sua taxa de aplicação, é forçada a escoar pela superfície.

Tipo de Escoamento Características Ocorrência

Escoamento Rápido

Escoamento superficial Quando a intensidade da chuva

excede a capacidade de infiltração - regiões semiáridas - regiões úmidas - adjacentes a canais fluviais ou em encostas convergentes

Escoamento superficial

saturado Quando o solo está saturado e a capacidade de infiltração não foi excedida

- canais fluviais

- locais onde o nível d'água aumenta rapidamente durante a chuva

Escoamento de Restituição

Escoamento subsuperficial Movimento de água no perfil de solo no sentido da parte baixa da vertente sob condições não saturadas

Vertentes com solos bem drenados guiado por descontinuidades no perfil

Escoamento subsuperficial

saturado Escoamento lateral em solos sob condições saturadas Quando uma cunha saturada estende no sentido da parte alta da vertente do perfil de solo; o escoamento subsuperficial saturado ocorre imediatamente acima

Escoamento translatório Escoamento lateral que ocorre por deslocamento da água armazenada devido à adição de "nova" água

Vertente de solo com zona saturada

Escoamento interno Pode ser empregado como sinônimo

de escoamento subsuperficial Vertente com nível d'água permanente e presença de descontinuidade para guiar o escoamento lateral

Escoamento interno

saturado Ocorre sob condições saturadas Em locais com presença de uma cunha saturada abaixo da superfície e que se estende para parte alta da vertente

Escoamento em tubos Fluxo através da rede subsuperficial de canais ou tubos ("pipes") maiores do que vazios do solo, podendo ultrapassar 1 metro em diâmetro

Áreas variadas incluindo encostas íngremes, onde camadas erodíveis sobrejacentes a camadas menos permeáveis

Escoamento Retardado

Escoamento de água subterrânea

A água subterrânea movimenta-se em direção as partes baixas das vertentes e em direção à superfície em taxas determinadas pela pressão hidráulica

Áreas onde a água subterrânea é armazenada.

Fonte: Derbyshire et al, (1979).

1.1.2. Destacamento, Transporte e Deposição

O processo erosivo inclui destacamento, transporte e deposição de partículas de solo, que são causados pelo poder erosivo das gotas de chuva e do fluxo de água superficial. Nos modelos de erosão é comum se dividir conceitualmente os processos relativos ao fluxo que ocorre nos sulcos e inter-sulcos. Considerando-se essa divisão, nos sulcos o fluxo pode atuar para destacar partículas de solo sempre que sua tensão de cisalhamento superar a ligação das forças entre partículas na massa de solo. Nos sulcos, o fluxo também atua como agente de transporte para carregar o solo destacado no próprio sulco, ou vindos das áreas inter-sulcos. O destacamento nas áreas inter-sulcos é induzido primeiramente pelo impacto das gotas de chuva, antes da formação do escoamento superficial, que é a outra forma de destacamento das partículas (NEARING et al., 1994). O fluxo gerado pelo escoamento superficial desloca as partículas no sentido de maior declividade, depositando-as em cotas de nível mais baixas, ou as desloca para os sulcos. A energia requerida para mover as partículas de solo é muito menor que aquela requerida para destacá-las. O transporte por gotas de chuva é muito pequeno. (NEARING et al., 1994)

1.1.3. Erodibilidade dos Materiais Geológicos

Os materiais geológicos apresentam diversos comportamentos quanto à erodibilidade em função dos constituintes sólidos (minerais, matéria orgânica e outros), do cimento entre as partículas, da dimensão das partículas e do estado de evolução genética. O Quadro 2 apresenta os fatores que estão associados à erodibilidade dos materiais.

Propriedades Fatores Características Mecânicas e antrópicas Textura Estrutura Tamanho dos torrões e cultivos do solo Formação de crosta por cimentação

 Influi no destacamento e carreamento de partículas do solo.  Determina a facilidade com que o solo é disperso.

 Determina a força limite necessária para o destacamento.  Formação de agregados que resistem à dispersão, aos efeitos abrasivos da água de escoamento e ao destacamento.

 Grau de agregação e distribuição de agregados estáveis.  Tamanho dos agregados.

 Superfície rugosa e cheia de torrões possui elevada capacidade de detenção.

 Resistência à desagregação pela chuva e erosão pelo vento.  Responsável pela alta taxa de escoamento superficial.  Desenvolve-se em solos com baixa porcentagem de matéria orgânica.

Resistência

Mecânica Resistência ao cisalhamento

 Importante no destacamento de partículas de solo (impacto e escoamento superficial)

 Rolamento e deslizamento de grãos. Hidrológicas Retenção de água

Transmissão de água no solo – infiltração Permeabilidade

 O estado de energia da água do solo ou pressão neutra influencia a resistência ao cisalhamento do solo.

 Resistência do solo ao arrastamento pela água é influenciada pela umidade inicial ou antecedente.

 Solos secos são mais susceptíveis à erosão pelo vento e pela água do que solos úmidos.

 A umidade fornece coesão entre as partículas

 Taxa de infiltração determina o maior ou menor volume de escoamento superficial.

 Solos com permeabilidade extremamente baixa a moderada geram mais escoamento superficial.

Reológicas Sistema solo/água  A umidade do solo influi na susceptibilidade à erosão por afetar a coesão, a resistência ao cisalhamento, a consistência e a plasticidade. Químicas e

Mineralógicas Matéria orgânica

Argilo-minerais

 Influencia a distribuição granulométrica, propriedades de retenção e transmissão de água.

 Fortalece as ligações que estabilizam as unidades estruturais e mantém um balanço favorável entre retenção e transmissão nos poros.

 Diminui o efeito compactação.

 Concentração de matéria orgânica nos micro-agregados aumenta a sua resistência à desagregação ("Slaking") e à dispersão.

 Elevadas concentrações de M.O. em alguns solos são responsáveis pelas características hidrofóbicas.

 A estrutura do solo e a sua resistência são influenciadas pela quantidade e natureza dos argilo-minerais.

 A fração fina do solo interage com a M. O. para formar agregados estáveis que resistem ao impacto das gotas da chuva.

Características do Perfil

Diretos e indiretos  Influencia a erosão direta e indiretamente.

 Influência sobre o escoamento subsuperficial de água em

decorrência de mudanças nas propriedades hidrológicas de diferentes horizontes.

 Influência sobre o crescimento vegetal. Fonte: Adaptado de LAL (1990) por Nishiyama, (1998).