Num primeiro momento seleccionámos o número de unidade amostrais constituído pelas instituições do 3º Ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário do distrito de Faro. Por conseguinte, os Questionários, necessários à descrição, compreensão e explicação do fenómeno em estudo, foram enviados a todas as escolas do 3º Ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário da região algarvia80, de forma a contemplar a população total de docentes e, a partir dela, conseguir obter uma amostra suficientemente grande e representativa da classe docente daquela região, que nos permitisse responder de forma eficaz às nossas perguntas de investigação.
Como refere Rei (1998a), a constituição e caracterização da população através deste método revela algumas dificuldades: o facto de o professor de uma forma geral e/ou em particular não ser objecto de uma categoria específica, “mas um qualquer docente de vários grupos disciplinares que num ano ou numa escola aí lecciona, podendo deixar de o ser no ano seguinte” e por a estimativa de um dado número de docentes “por escola não se revelar válida por as dimensões dos estabelecimentos de ensino serem substancialmente diversificadas” (p. 150). Poderíamos ainda acrescentar
que devido à nova reorganização do parque escolar, alguns estabelecimentos do Ensino Secundário acolhem novamente alunos de níveis referentes ao 3º Ciclo. Ainda assim, parece-nos constituir o melhor método para distribuir de forma global a população por níveis e apresentar detalhadamente o nível de adesão a este estudo.
Depois da inquirição global através do Questionário, a amostra foi categorizada segundo o tipo de vínculo e o nível de ensino, tendo por base o método da estratificação. A constituição de estratos da população inquirida apresenta, segundo Ghiglione & Matalon (1997), várias vantagens. De acordo com estes autores, permite, em primeiro lugar, ter amostras suficientemente representativas, facultando, consequentemente, “a realização de análises aprofundadas de cada estrato separadamente, condição particularmente importante quando se põe a hipótese de, por exemplo, certos factores explicativos poderem ser diferentes para cada categoria”. Em segundo lugar, “permite uma melhor estimativa de certas grandezas”. E, por fim, permite estabelecer comparações entre grupos (pp. 37-38).
Considerámos que, no quadro do nosso estudo, a criação de grupos populacionais através do tipo de vínculo contratual – Quadro de Zona Pedagógica, Quadro de Escola e Professor Contratado – e do nível de ensino actual – Ensino Básico ou Secundário – constituíam as categorias que melhor representam a população, pois espelham uma realidade regional e nacional, facilmente generalizável. De um lado oposto, as restantes categorias nominais consideradas (idade, sexo, habilitações e tempo de serviço) não poderiam constituir categorias fiáveis81, por representarem ordens de grandeza imprecisas e dúbias a nível nacional, ainda que possam auxiliar-nos na compreensão de certos fenómenos registados nas respostas a nível particular.
81 Consideramos que necessitaríamos de quotas nacionais, e assim estabelecer uma amostragem por
quotas, para podermos considerar neste estudo estas variáveis como suficientemente representativas da população global dos professores de Francês.
A análise dos dados a partir deste método auxiliou-nos na escolha da população destinada à entrevista. Com efeito, a dispersão de respostas era assim retirada de uma amostra menor, obtendo-se dois campos nos quais se poderiam mais facilmente escolher sujeitos com respostas similares ou diferenciadas, num mesmo nível e entre níveis de ensino.
Ainda que a selecção dos sujeitos resulte de uma leitura criteriosa dos Questionários, a escolha dos entrevistados foi estabelecida, de certo modo, de forma aleatória, com vista a obter uma amplitude de respostas suficientemente variada e representativa da complexidade das representações dos professores de FLE. No fundo, pretendemos não centrar o objecto de estudo numa perspectiva redutora e simplista, que poderia limitar o ângulo de compreensão dos dados recolhidos a partir unicamente da visão do investigador, influenciado pelas suas questões de partida e pelo quadro teórico previamente definido. Este método permite também validar no campo as investigações produzidas e, em certa medida, procurar a sua adaptação à realidade escolar portuguesa que os entrevistados conhecem por se encontrarem nela envolvidos através da sua actuação diária. Assim, escolhemos quatro questionários no seio de cada critério considerado para a estratificação e de entre esses retirámos dois aleatoriamente.
5.1.2 Caracterização da amostra
Com a caracterização da amostra, pretende-se apresentar, de forma sintética, algumas informações que permitam conhecer o próprio universo de trabalho, identificando as principais características dos inquiridos.
A nossa população é constituída por 155 docentes, repartidos por 54 escolas do 3º ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário, num universo total de 67 escolas, e 257 professores, de ambos os ciclos existentes na região algarvia82. É de realçar que quatro escolas (três do 3º ciclo e uma do ES) expressaram a vontade de não participar no estudo, por razões várias externas ao investigador.
Doze dos envolvidos encontram-se colocados em escolas secundárias que integram também os anos de escolaridade relativos ao 3º Ciclo do EB. Isto é, de entre os 59 docentes do ES, 7 afirmaram leccionar, neste ano lectivo, Francês de níveis do 3.º Ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário. Outros 5 ensinavam apenas níveis do 3º ciclo ainda que colocados em escolas secundárias. A principal razão prende-se com o reagrupamento do parque escolar, que separa novamente os alunos do 2º e 3º ciclos, juntando-se estes últimos aos do ES.
Optámos neste estudo por não tratar separadamente os dados obtidos a partir destes docentes. Em primeiro lugar, porque o seu reduzido número não apresenta significância estatística. Em segundo lugar, por preferimos guardar a realidade contextual da população em estudo e não a escamotear ou a contornar. Aliás, por leccionarem numa escola secundária, trabalham diariamente com professores daquele ciclo de ensino, sendo que, inclusive, 7 de entre eles leccionam níveis dos dois ciclos. Consequentemente, pensamos que não trariam por si só explicações novas relativas às questões em estudo.
A grande maioria dos participantes no estudo pertence ao sexo feminino (89,0%), sendo que esta realidade se mantém se olharmos para a sua distribuição por ciclo de ensino83.
82 Cf. Anexo I.
Observando a estrutura etária dos inquiridos84, poder-se-á dizer que estamos perante uma população de professores relativamente jovem, visto que 71,6% dos indivíduos (111 de um total de 155) se encontram entre os 25 e os 45 anos de idade. Apenas 5,8% dos indivíduos têm idade superior a 55 anos (9 respostas da amostra). Não obstante, uma comparação entre a distribuição apresentada por ciclo de ensino permite- nos verificar que a população mais idosa se encontra no ES (48,2%, docentes com mais de 46 anos de idade), contrariamente ao EB cujos docentes se encontram em maioria nos dois primeiros intervalos (83,0%). Paralelamente, os professores com maior tempo de serviço encontram-se no ES, enquanto que no 3º ciclo observamos um maior número de professores com um tempo de serviço compreendido entre os 0 e os 10 anos85. Concomitantemente, existem mais indivíduos em início de carreira no EB contra apenas 14 no ES.
Podemos igualmente destacar que grande parte da população se encontra vinculada, ainda que uma percentagem significativa pertença ao quadro de zona pedagógica, não possuindo, deste modo, uma situação totalmente estável. Em ambos os níveis de ensino, existe ainda uma grande percentagem de professores contratados, correspondendo a 21,2% da população total (22,1% e 19,6% no EB e no ES respectivamente)86. Observa-se, contudo, uma maior estabilização no ES, sendo que a maioria dos inquiridos pertence ao quadro de escola. No 3º ciclo, 69 docentes mudam de escola todos os anos, sendo que 22,1% de entre eles nem sequer tem a certeza de voltar a ser contratado no ano lectivo seguinte.
Assim sendo, ocorre uma maior concentração de profissionais mais jovens e com menos anos de serviço no 3º ciclo por existir uma percentagem mais elevada de professores contratados e do quadro de zona, associada, portanto, a uma maior
84 Quadro n.º 1, Anexo V. 85 Quadro n.º 5, Anexo V. 86 Quadro n.º 6, Anexo V.
instabilidade profissional devido ao facto de não se estar efectivo no quadro de uma escola em particular87.
Parece-nos, então, que o 3º ciclo abarca assim os professores com menor experiência profissional e que, comparativamente aos docentes do ES, acumulam um maior número de turmas (e de alunos por turma) com uma maior dimensão burocrática da profissão docente devido às condicionantes inerentes à escolaridade obrigatória.
Acresce o facto de a amostra de professores estar numa fase do seu desenvolvimento profissional que parece coincidir com a “entrada na carreira, que inclui as fases de sobrevivência e descoberta” (Garcia, 1999: 64). Esta fase corresponde, segundo aquele autor, ao período no qual se opera o choque com a realidade, que pode marcar positiva ou negativamente a carreira, bem como ao período de descoberta e de experimentação, no qual o “entusiasmo dos começos”, desde que bem sucedido, se traduz mais tarde numa melhor capacidade profissional quer quanto aos métodos de ensino, quer relativamente à procura de “promoção profissional através do desempenho de funções administrativas” (Garcia, 1999: 64-65), e, nalguns casos, de incremento das habilitações literárias.
Em contraponto, olhando ainda para a população em análise, segundo a perspectiva de Garcia (1999), no ES encontramos habitualmente professores que anseiam pela estabilidade profissional e familiar. No nosso estudo, também nos parece que ocorre o mesmo fenómeno tendo em conta a elevada proporção de docentes no quadro de escola. Esta população caracteriza-se, também, segundo aquele autor, ora por se revelar menos enérgica e preocupada com os problemas do quotidiano, ora por demonstrar uma atitude mais conservadora do seu desenvolvimento profissional e
pedagógico, queixando-se sistematicamente “de tudo: dos colegas, dos alunos, do sistema” (op. cit, p. 65).
Em termos de habilitações literárias, 78,7% dos indivíduos possui habilitação profissional88, obtida para além da licenciatura de base. Se adicionarmos a este valor a percentagem dos que responderam terem completado cursos pós-graduados, obtemos um valor que equivale à quase totalidade da população, isto é, 83,8%.
Apenas 16,1% referiram possuir apenas uma licenciatura. Não obstante, alguns dos inquiridos incluídos neste grupo poderão ter optado por assinalar licenciatura devido ao facto do seu estágio pedagógico estar contido dentro da mesma e não separado, reflectindo a realidade das formações via ensino existentes em Portugal.
Com efeito, e em nossa opinião, os inquiridos cuja idade está compreendida entre os 25 e os 40 / 45 anos podem ter frequentado uma licenciatura via ensino, de cinco anos, que integrava desde o terceiro ano disciplinas de foro didáctico-pedagógico e concluía com o estágio pedagógico no último ano. Os restantes, em minoria, podem ter entrado no quadro antes da profissionalização ser obrigatória ou terem-na realizado em serviço, no âmbito da formação contínua ministrada pela Universidade Aberta a docentes que não possuíam a formação em ensino na sua licenciatura.
Destacamos igualmente que 8 (5,1%) docentes afirmam ter investido na sua formação, frequentando cursos de formação avançada em instituições de Ensino Superior89. Parece-nos que, salvo as devidas proporções da amostra, os professores colocados no 3º ciclo do EB tendem a investir mais na sua formação, indo ao encontro, aliás, das nossas considerações acerca do perfil do professor associado ao seu ciclo de
88 Quadro n.º 3, Anexo V. 89 Quadros 3 e 4, Anexo V
vida profissional. Com efeito, a população com estudos pós-graduados encontra-se na sua maioria compreendida entre os 25 e os 35 anos90.
Em nossa opinião, a este facto não estará portanto alheio o “entusiasmo dos começos” (Garcia, 1994: 64, referido anteriormente). Consideramos, contudo, que se poderá também explicar por a entrada no ensino se encontrar cada vez mais dificultada por os lugares de quadro se encontrarem praticamente preenchidos, havendo por isso pouco lugar a novas contratações, conduzindo os professores mais novos a complementarem os seus estudos com vista a benefícios posteriores.
A faixa etária de 36 a 45 anos corresponde, geralmente, à estabilização profissional e familiar. Consequentemente, neste caso em particular, o investimento numa formação pós-graduada não corresponde apenas a um aprofundamento científico(- pedagógico), mas igualmente a uma subida nos escalões de vencimento.
Os níveis de Francês mais leccionados91 pelos inquiridos correspondem aos de iniciação, isto é, nível I, do 7.º ano (abrangendo um total de 74 inquiridos, a que corresponde cerca de 48% da amostra), nível II, do 8.º ano (abarcando um total de 57 respondentes, correspondente a 36,8%) e nível III, do 9.º ano (55 sujeitos, equivalente a 35,5%).
Esta tendência encontra-se também no ES, no qual encontramos mais docentes a leccionar os níveis I, II e III. Em contraposição, os professores que afirmam leccionar níveis de Francês de continuação92 são quase residuais em ambos os ciclos de escolaridade. É, até, de realçar o facto de nenhum professor ter considerado os níveis VI e VII do 10º e 11º ano respectivamente. É verdade que, embora existam algumas diferenças programáticas, os alunos que frequentam estes níveis (tal como os níveis VI e
90 Quadro n.º 8, Anexo V. 91 Quadro n.º 7, Anexo V
92 Níveis IV, V e VI para os alunos que continuam o estudo do Francês depois de o iniciarem no 3º Ciclo
VIII do 12º ano) estão reunidos na mesma turma. Aliás, as próprias editoras de manuais escolares disponibilizam apenas um manual comum aos dois níveis do mesmo ano escolar. Por conseguinte, os alunos do 10º ano nível VI, 11º ano nível VII e 12º ano nível VIII poderão estar junto com os alunos dos níveis IV, V e VI, dos mesmos anos de escolaridade. Não obstante, o facto de nenhum professor ter assinalado dois dos níveis de continuação e apenas um ter referido que lecciona nível VIII – níveis de Francês para alunos que transitam desde o 2º ciclo, no qual iniciaram o estudo da língua – é indicador da “perda de terreno” da língua francesa na escola, levando-nos a pensar que a mesma continua a ser escolhida no momento de iniciação à língua estrangeira unicamente por não existir ainda uma alternativa.
A distribuição dos anos escolares e níveis de língua pela idade dos inquiridos93 permite-nos verificar que os anos iniciais de aprendizagem do Francês, nomeadamente, no 3º ciclo são preferencialmente atribuídos a professores mais jovens e, por conseguinte, com menos anos de serviço. Com efeito, entre os 74 docentes que leccionam o nível I do 7º ano, 34 pertencem ao escalão etário 25 a 35 anos, isto é, cerca de 46% dos respondentes. Este mesmo número vai decrescendo conquanto avançarmos nos níveis de Francês. De 34 sujeitos no 7º ano, nível I, encontramos apenas 18 no 9º ano, nível III. Pelo contrário o efectivo de docentes escalados entre 46 e 55 anos de idade vão progressivamente aumentando.
No ES, a diferença entre os diversos escalões esbate-se devido à unidade amostral. Não obstante, a maior parte dos professores deste nível encontra-se, como já referimos, no quadro de escola e a sua idade está maioritariamente acima dos 36 anos, reflectindo-se esta realidade na diversidade de níveis seleccionados pelos mesmos.