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Como exemplo de romancista histórico, José de Alencar valorizou o discurso, pois trabalhou diretamente o dado artístico, atingindo a dimensão sentimental, humana, através das ações dos personagens que dramatizam o fato histórico, posicionando-se contra a sacralização da história, na medida em que defendia o olhar contemporâneo sobre os fatos passados. Em consequência, seu maior interesse é registrar fatos da vida cotidiana e deixar de lado os grandes feitos históricos, com seus conceitos universalizantes, pois assim visa a atingir o universal através do particular.

A minha história, ou antes a minha memória, abre-se rigorosamente no momento em que se lançou a primeira pedra da construção da cidade; é daí que começou a sua existência política, é daí pois que deve principiar a missão do historiador (ALENCAR, 1981, p. 111)3.

Em romances como As minas de prata e Guerra dos mascates, Alencar descreve e representa o passado nacional através (no primeiro livro) de um episódio pouco conhecido da história colonial do Brasil, passado no sertão da Bahia, em princípios do século XVII, que foi a busca pela montanha prateada que resultou na descoberta da Chapada Diamantina – fato que, segundo Pedro Calmon, “tem uma respeitável base paleográfica” (CALMON, 1967, p. X); e, no segundo, o que se deu pouco antes do conflito pernambucano ao registrar seus bastidores, terminando a ficção exatamente quando se tem início o dito conflito.

Com a intenção de resgatar um passado desconhecido para a maioria dos brasileiros, criando, assim, uma identidade comum, buscou-lhes uma origem na raiz que supostamente os unia. Tal e qual Balzac, registrou em suas páginas os costumes de cada região sem, contudo, fugir à arte. Não foi o primeiro a trabalhar com uma mescla de formas discursivas, entretanto, soube fazê-lo de maneira bastante capaz e peculiar. Seus romances históricos apresentam, com efeito, essa identidade comum.

A técnica foi bastante pessoal, visto que não seguiu nenhuma corrente historiográfica em voga no seu tempo, fugindo dos grandes acontecimentos e tentando recriar os pequenos quadros da sociedade brasileira com suas belezas,

mas com suas dificuldades também, ainda que não muito acentuadas. O que a historiografia não pôde oferecer, ele “inventou”, com a sua grande capacidade imaginativa. Entretanto, não se limitou a enxergar no romance histórico uma mera forma artística. Sempre que pôde, provou ser verdadeiro seu argumento, fosse criando notas, fosse por meio de seus personagens; e baseando-se também em cronistas dos tempos coloniais, recriou, assim, o que o tempo destruiu, ou antes dessacralizando a história, projetando nela o presente do próprio autor. Em relação a essa postura, Augusto Meyer se posiciona da seguinte forma:

Eu por mim confesso humildemente que não vejo indígenas na obra de Alencar, nem personagens históricas, nem romances históricos; vejo uma poderosa imaginação que transfigura tudo, a tudo atribui um sentido fabuloso e não sabe criar senão dentro de um clima de intemperança fantasista. Poeta do romance, romanceava tudo. Se teve a intenção de criar o nosso romance histórico, ficou só na intenção, e de qualquer modo não lograria fazê-lo, pois era demasiado genial para poder adaptar o seu fogoso temperamento a um gênero tão medíocre, que pede paciência aturada na imitação servil da crônica histórica, pouca imaginação criadora e acúmulo de minudências pitorescas [...] (MEYER, 1964, p. 13-14).

Sendo sua obra um amálgama das duas formas narrativas, Alencar fez uso da história como suporte para ficção; um historiador menos tradicional poderia até interpretar que fez uso da ficção como suporte da história, sem permitir que esta aparecesse somente como um fator externo à obra literária, mas desempenhando um papel central na constituição interna de sua estrutura. Para tanto, apostou na força do discurso para atingir a dimensão sentimental através das ações dos personagens, que dramatizam o fato histórico, interagindo com o mesmo. Essa dramatização requer um cenário apropriado, e é daí que sua fama de “descritivista” se fortalece, pois apresenta com riqueza de detalhes os costumes, a alimentação, os trajes, as danças, as armas, os folguedos e até as canções da época narrada.

Guerra dos mascates tem esses elementos minuciosamente descritos; dados

históricos que adquirem vida com o movimento que o autor impõe aos seus personagens.

E, assim, mantendo as duas “técnicas”, de romancista e de historiador, completou Alencar o que estava inacabado, ou obscuro, nos registros históricos, porém sem perder de vista seu foco na história do país, já que entendia ser esse um dos três momentos da literatura brasileira: o momento dos romances históricos,

como Guerra dos mascates e As minas de prata, que se passam no período colonial, no qual se dá a “gestação” do povo brasileiro.

Nesse “passado obscuro”, Alencar procurou trabalhar com o particular, mais que com o geral, mostrando seu total distanciamento em relação aos conceitos seculares sobre a história. Para isso, trabalhou com figuras reais e figuras ficcionais, como geralmente o fazem os romancistas históricos. A relevância de cada uma, como mostramos, depende do ponto de vista abordado, pois, em nenhum momento as figuras históricas perdem sua importância em relação à historicidade mesma dos fatos, todavia, a trama ficcional e seus personagens aparecem entremeados com os mesmos. Pode-se notar, em Guerra dos mascates, que a narrativa alterna-se no destaque dado aos personagens; quando a trama transpõe o fato, as figuras ficcionais assumem a posição adequada ao cargo da personalidade em questão.

Alencar mostrou que os líderes políticos, mesmo os maiores, não são seres desprovidos de emoção, programados apenas para criar e executar leis; tratou, então, de representá-los de forma mais humana, com o calor das emoções a transfigurá-los vez por outra. Humanizados, relacionam-se com os personagens ficcionais, participando dos acontecimentos mais importantes de suas vidas, e aproximando-se do leitor por meio de seus sentimentos.

No decorrer da aventura, as personalidades históricas expressam uma diversidade de emoções, que vão da alegria ao tédio, da ironia à irritação, do orgulho à humildade. Surpreender um vulto histórico expressando os próprios sentimentos faz com que o leitor se sinta parte da história, uma espécie de cúmplice, envolvido em seus acontecimentos, identificando-se com o recorte espaço-temporal da narrativa, parte da história do país.

Buscando valorizar o elemento nacional – assim como os clássicos narram os grandes feitos de seus heróis épicos e os europeus o heroísmo de seus cavaleiros medievais –, Alencar narra as façanhas de heróis bem brasileiros, pois que a construção deste herói deve ser algo bastante singular, já que segue uma lógica própria na busca por ideais particulares.

A coerência interna da obra obedece ao conceito de verossimilhança. Nela, os personagens, apesar de variados em seus tipos, entrelaçam-se e não traem as próprias particularidades, obedecendo assim ao conselho clássico de Boileau, mantendo-se o personagem de acordo consigo mesmo do começo ao fim da trama.

De acordo com Alceu Amoroso Lima, José de Alencar seria “um espírito marcado pelo instinto da universalidade” (LIMA, 1965, p. 40), pois buscou o universal na particularidade de cada tipo, pois que tem as paixões humanas como núcleo fundamental. Pode-se dizer que a forma como Alencar opera a emoção de seus personagens é verdadeira sem deixar de ser verossímil, pois lida com o universal e o particular ao mesmo tempo, com situações reais da vida cotidiana, através dos problemas de cada personagem, individualmente. Sendo assim, as atitudes individualistas de cada tipo vão, aqui e ali, revelando a sua verdade, já que seu desenvolvimento afetivo ilumina, pois, sua dimensão humana. Agir segundo as próprias paixões, conforme os personagens alencarinos fazem, é mais verdadeiro para o entendimento do sujeito contemporâneo do que sentir-se parte de uma coletividade. A paixão humana, em verdade, foge ao âmbito da verossimilhança e se refugia no terreno da verdade, fazendo com que os caracteres alencarinos movam- se em um mundo autêntico, que o leitor pode reconhecer por ser este o mundo particular a cada personagem, o que permite, assim, o alcance do universal poético.