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Todo o trabalho é nobre, desde que é livre, honesto e inteligente; toda arte é bela e sublime, logo que se eleva à altura do espírito ou do coração. (Alencar, Ao correr da pena, 06/01/1855)

Com a intenção de darmos maior consistência e legitimidade ao trabalho e de podermos depreender de como seria feita essa preparação indispensável para que os escravos pudessem ser colocados em liberdade, pareceu-nos relevante, e até indispensável, fazermos uma leitura da sua produção autobiográfica e de crítica literária que também nos trazem importantes relatos sobre a vida do escritor e o mais importante: esse conjunto de textos oferece a possibilidade de analisarmos as pretensões de Alencar com a sua obra.

Dentre essas fontes, temos a carta Como e porque sou romancista (1873); o prefácio Benção Paterna (1872) do romance Sonhos D’ouro e o texto A Comédia Brasileira (1857) – que alguns críticos também o intitulam de Como e porque sou dramaturgo - são pequenos textos de caráter autobiográfico e de análise literária nos quais o autor deixa transparecer alguns fatos marcantes da sua infância, da juventude e do seu cotidiano escolar e tenta definir e caracterizar como se deu sua inclinação para o romance, o teatro e também para a política, além de falar sobre suas decepções nesses mesmos campos.

No século XIX, o folhetim era um espaço livre no rodapé do jornal, destinado a entreter o leitor e a dar-lhe uma pausa de descanso em meio à enxurrada de notícias graves e pesadas que ocupavam as páginas dos periódicos. Com o tempo, a acolhida do público com relação a esse espaço foi aumentando, e o folhetim passou a ser chamariz para atrair leitores. De acordo com Laurito e Bender (1993), havia no século XIX dois tipos de folhetins: o folhetim-romance e o folhetim-variedades, antecessor da crônica. Ambos

dependiam do talento do escritor para cativar o público, e mais do que isso, o folhetim representava um grande exercício na medida em que a literatura brasileira ia se formando e se afirmando a partir de um público fiel que adquiria o hábito da leitura. José de Alencar teve sucesso nas duas modalidades do folhetim tendo se iniciado como “cronista” e posteriormente tornou-se um consagrado escritor de romances.

A maioria dos folhetins estudados para pesquisa versava sobre o teatro, seguido pelos temas sobre urbanização, política, instrução e escravidão, este último se apresenta em menor número. A quantificação desses folhetins nos mostra a preocupação principal que circulava na época: a civilização e seus contornos culturais simbolizados pelo teatro e pela urbanização, como demonstra a tabela a seguir:

Recorrência dos assuntos presentes em Ao correr da pena

Temas Assuntos desenvolvidos Quantidade/

número de ocorrências Teatro Crítica teatral, incentivo ao patrocínio do Ginásio

Dramático e aos novos artistas, a segurança do teatro, comportamentos do público.

19

Urbanização Segurança pública, asseio público, higienização, iluminação pública, asfaltamento de vias,

industrialização e desenvolvimento do comércio.

11

Política Nomeação de ministros e senadores, partidos políticos, projetos sobre urbanização, instrução e

desenvolvimento do teatro.

8

Instrução Nomeação de ministro, reforma da instrução pública, inauguração de institutos, metodologias de ensino, formação da classe pobre e operária.

5

Escravidão O fim do tráfico negreiro, a possível falta de mão-de- obra, proibição do transporte de escravos (norte – sudeste).

2

Imigração Políticas de incentivo da imigração europeia e asiática, os benefícios da imigração, abertura de concessões apenas para as nações que interessarem ao país.

Dessa forma, as abordagens sobre instrução, o fim do tráfico e a imigração fechavam um conjunto dos ideais civilizatórios. Visto por esse ângulo, o folhetim pertencia ao jornalismo e nas mãos de um grande escritor como Alencar, o folhetim jamais deixou de ser um exercício literário (FARIA, 2003 p. 3). As grandes mudanças ocorridas na cidade são presenciadas pelo cronista:

Nos folhetins, mostrou-se maravilhado com as primeiras máquinas de costura importadas dos Estados Unidos, louvou a iluminação a gás do Passeio Público, deslumbrou-se com a viagem de trem a Petrópolis, orgulhou-se dos luxos da Rua do Ouvidor e não se cansou de mencionar os melhoramentos da cidade. Em contrapartida, a especulação desenfreada, o jogo bolsista, o descaso com a saúde pública, as ameaças constantes de epidemias e as manobras políticas, entre outros, foram alvos de severas críticas do folhetinista. Ele exige o asseio e a limpeza da cidade, reclama da lama das ruas, dos serviços públicos precários e irrita- se com os hábitos não civilizados dos cidadãos, como por exemplo, ode “patear” um artista no teatro. A “pateada” – bater com os pés no chão, para fazer barulho e levantar uma poeira sufocante- era uma manifestação de descontentamento dos espectadores daqueles tempos.

O folhetim, veículo de comunicação consagrado na época, foi moldado pelos intelectuais brasileiros de acordo com as circunstâncias locais, ou seja, não imitava o folhetim francês diretamente, mas compunha-o de vários de seus elementos. Dessa forma, o romantismo divulgado pela literatura dos folhetins através das criações e também animado pelas últimas notícias ganha significados “romanescos”, como aponta Meyer (1996, p. 13) em Folhetim: uma história. Ao tratar das obras alencarianas anteriormente publicadas em folhetins a autora ressalta, por exemplo, a construção da personagem Aurélia ao encaixá-la em uma linha de mulher recorrente nos folhetins:

A mulher da classe média ou mais elevada até, que não tem profissão, é praticamente desprovida de instrução, para ela trabalhar seria uma desonra. Sua única integração social possível é o casamento com marido rico, um dinheiro que aliás raramente lhe traz felicidade. Se é pobre de classe baixa, só lhe resta ser costureira ou prostituta. O trabalho de fábrica, como se viu, fica ainda mais abaixo, a mulher operaria já quase nem é mulher.

Mas como aponta Valéria de Marco, que prefere trabalhar com a categoria do “romanesco”, e como reforçou Alfredo Bosi na sua arguição, insistindo sobre o aspecto folhetim de Minas de prata, mais do que imitação de um gênero, esta construção folhetinesca é precisamente a mais adequada para dizer da desordem do mundo passado brasileiro, emaranhado em confusa rede de intrigas e conflitos. O romanesco do folhetim como que mimetiza a realidade de então e o romance de aventura

é, na sua confusão de gênero, escrito para dizer que a aventura não resolve”

Esse trecho demonstra como o processo de criação dos romances, exige a consciência social do folhetinista a ponto de fazer do romance uma espécie de investigação da sociedade, desenvolvendo um traço importante do romantismo, que foi a descrição dos meios populares e criminosos, além de estabelecer a sua vinculação com as classes dominantes. (MEYER, 1996).

Nesse sentido, a análise dos folhetins, e aí podemos incluir também as obras literárias, será empreendida de forma que possamos estabelecer as conexões dessas produções literárias com o momento histórico e os problemas sociais abordados por José de Alencar. Considerando a grande procura por folhetins desde meados de 1838, mais precisamente representada pelo Jornal do Comércio fundado em1827, e principalmente pelos romances neles veiculados, não há como desconsiderar a grande influência desse meio de comunicação e o seu poder de disseminar ideias e comportamentos. Por outro lado, as crônicas expressam as concepções de Alencar sobre os mais variados assuntos daquele momento: da elevação do teatro como símbolo de civilização a opiniões sobre a nobreza do trabalho livre. As comparações com as demais fontes de pesquisa nos permite perceber certas gradações opinativas, afirmar a coerência do escritor sobre o discurso da escravidão e da educação dos escravizados a partir das ideias que circulavam sobre o assunto na segunda metade do século XIX.

Esse caráter de multiplicidade de informações torna riquíssima a análise dos folhetins por configurar-se como nítido espelhamento da vida cotidiana ao mesmo tempo ficcional e real o que acaba tornando-a uma fonte histórica em potencial. “Presa ao calendário dos feitos humanos e não às façanhas dos deuses, mas podendo envolver até a conjunção dos astros [...] a crônica pode constituir o testemunho de uma vida, o documento de toda uma época ou um meio de se inscrever a História no texto.” (ARRIGUCI, 1987 p.45).