– ...Tinha um rebolado desgraçado! (risos) – Como é, seu Dércio?
– As bichas, aí. Teve um dia mesmo que eu andei agarrando um ainda, pensando que era mulher. Você acredita num negócio desse?
(Corte na conversa. Estavam todos em uma lanchonete em Sobradinho. O garçom oferecia mais guaraná com açaí, uma especialidade que chagara há pouco tempo na região).
– Viu?
– E o senhor pensando que era mulher?
– Pensando, com certeza! Era qualquer um se engana. – Era bonita, assim?
– Era.
Logo se soube que ele andou agarrando um, pensando que era mulher. Mas a história ainda ia começar. ‘Viu?’ Em meio a uma audiência dispersa, ele não desprezou a pergunta, uma que não perguntava, só repetia o dito mal-entendido, correndo o risco de encerrar a história por aí. A pergunta veio na confirmação do engano. E não foi simplesmente assim, ‘era qualquer um se engana’.
Há uma confusão na conversa, as falas se sobrepõem, mas dá para ouvir uma voz masculina que entendeu que era uma que atrai. Não foi coisa do ‘rebolado desgraçado’, o exagero de não ser mulher. Era mulher como se fosse. Fazia agarrar como se fosse uma
mulher. Se era bonita ou não já é diferente, é mais do que um engano. Só mesmo como uma97 mulher pode ser bonita. Vira uma certa mulher. Aquela uma era bonita? Pelo tom do ‘era’, era, mas isso ainda não era suficiente. Ele tinha um apressado na voz, como se a história lhe fosse escapar.
– Ficava com as mulheres, era seo Dércio?
– Ficava. Ficava nos ambientes aí, nos bares... E eu cheguei para tomar um assim, que eu gostava muito de beber nesse tempo, e aí sentei lá, numa cadeira lá, numa
mesinha e a bicha lá e de vez em quando passava o olho. E aí eu chamei lá. Eu: “aceita um
copinho?” Disse: “aceito!” Aí, sentou lá, comecemos a tomar um...
No que se falou de ficar com as mulheres, ele aproveitou, tomou a história e levou para ‘os ambientes aí’. Se chegou na intenção de ‘tomar um’, sentou ‘lá’, numa cadeira ‘lá’, é que a voz mansa tinha chegado na situação de quem não queria nada, estava só por ali. Para se ver o desarmado da história era a razão de entrar ali. A ‘bicha lá’ é que por lá já estava. Nenhum pronome pessoal para aquele olho que passava e se oferecia ao seu convite. E aceitou convidar, chamou ‘lá’ sem dizer quem. ‘Aceita um copinho?’ Embora respeitosa, a pergunta direta é lançada num tom vigoroso, de homem que convida. Homem que agarra, homem que se engana. Homem sempre como sujeito do verbo. Não tem voz passiva. E quem aceitou em resposta, ele mais uma vez não diz se era ele ou ela. Apenas disse baixinho, com delicadeza de mulher, ‘aceito’. Estava começando a ‘agarrar um pensando que era uma mulher’. ‘Aí, sentou lá’.
– O senhor não viu o gogó dela não, seo Dércio? – Não, estava com uma blusa.
– Ah!! – Assim, né?
– Escondendo o gogó? – É, escondendo.
A interferência vem como um sobressalto e as vozes deixam a mansidão do ambiente em que seguia a narrativa. O gogó, a blusa não estavam naquele momento, entram
97“O artigo indefinido não é a indeterminação da pessoa a não ser na medida em que é a determinação do singular. O Uno não é o transcendente que pode conter até mesmo a imanência, mas o imanente contido em um campo transcendental. O Uno é sempre o índice de uma multiplicidade: um acontecimento, uma singularidade, uma vida...” (DELEUZE, 1995a).
bruscamente como uma cunha de desconfiança, nele, seo Dércio – como não percebeu o equívoco?? – e na ‘bicha lá’ – que se escondia por trás de uma blusa de mulher. Mas nada se pode ver com facilidade, nem mesmo o engano. Aceita um tanto relutante a falsidade da ‘bicha lá’, mas porque é assim mesmo, seo Dércio não confronta. Não há como negar, mas precisa mostrar mais do que o engano, a trama do encantamento. Se não desconfiava, é que não era a hora ainda. Não era simples assim.
– Mas eu desconfiei dum negócio: as mãos. Porque você sabe que mão de homem é diferente de mão de mulher. A mão de homem é maior que mão de mulher. Eu achei aquelas mãos grandes, assim... Liguei, não. Mas aí alguém me deu assim uma piscada de olho para mim e eu caí na...
– Na real.
É de se saber que ‘mão de homem é maior que mão de mulher’. Isso ‘de homem’ e ‘de mulher’, é diferente de um homem e uma mulher. É coisa que se sabe a respeito de mãos, não era o que estava acontecendo. ‘Era qualquer um se engana’. Até agora, nessa história, pouco se falava. Se olhava, se bebia ‘um’, que pode ser conhaque, drink, bebida quente num ‘copinho’. Mais inebriante ainda quando a música, a que costumava tocar ‘nos ambientes’, enche com a sua altura o teor dramático de certas canções98. Ele estava atraído,
estranhando serem grandes as mãos de um que pensava que era mulher. Até se lembrar dessa desconfiança, nem desconfiava. Nem se ligou ao estranhamento daquelas mãos grandes. Até receber ‘uma piscada de olho’ de alguém que viu de fora aquele clima, ele andava ‘agarrando um pensando que era mulher’. Não foi de imediato que caiu ‘na real’.
– ...na real. E aí eu comecei assim a me afastar e el(e/a) disse: “está saindo por que? Parece que está assim, meio desconfiado...” Eu digo: “não, não é nada, não. Eu vou
aqui no banheiro aqui e venho nestante”.
Nenhum pronome disse ‘está saindo por que?’. Talvez tenha esboçado um ‘ele’, ou ‘ela’, por força de completar a sintaxe. Mas quando muito disse ‘el’. É um jeito de dizer,
98 No CD-ROM “Tudo de novo...”, o ambiente do Xililique – que ora dizem ter sido uma boate de prostituição, ora o nome da ‘zona’ do Cai-Duro, ou Vila São Joaquim, durante a construção da barragem – foi tomado por quatro canções que faziam sucesso na época. O navegante pode escolher “Xilique” com o Trio Nordestino, ou “Índia”, com Paulo Sérgio, ou “Ela não vem”, com Bartô Galeno, (cantor que se lançou em Sobradinho), ou ainda “Foi deus que fez você”, com Amelinha. Todo trecho de entrevista aparece junto com o som de uma dessas.
sem dizer. É um jeito de não dizer quando se fala, diferente de não dizer quando se escreve. Ao mesmo tempo em que andou ‘agarrando um pensando que era mulher’, esse um não aparece precisando de um masculino, nem feminino. Só soube disso pela ‘piscada de olho’.
– Até hoje!
– De lá mesmo eu fui me embora. Acertei a conta com o rapaz e fui m’embora e deixei lá sozinh(a/o) lá. Foi a derradeira vez...
A voz masculina na conversa queria apressar as coisas. Queria tirá-lo logo dali. E ele saiu, mas saiu como homem, pois antes de sair, como homem, ele pagou, como se deve pagar, a bebida de mulher. Quem ficou lá, não se sabe se ficou sozinho ou sozinha, pois a voz só pronunciou ‘sozim’. Fez acreditar até o fim que andou ‘agarrando um pensando que era mulher’. ‘Deixou lá sozim lá’. Dois ‘lá’. Desse jeito, houve um ‘lá’ que foi deixado e outro ‘lá’ do lugar onde ficou. Sendo a ‘derradeira vez’, o que foi deixado era mais ‘os ambientes aí’ do engano do que alguém definido. Esse alguém era alguém ‘lá’ e o engano era seu.