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Durante a missa de domingo na capela do Convento das Perdizes, com todos os frades e noviços vestindo o hábito branco de dominicanos, o personagem frei Diogo, prior da Ordem dos Pregadores, faz a homilia:

- Para ser um bom cristão não basta vir à missa de domingo. Nós, cristãos, não podemos engolir a ditadura de cabeça baixa. A ditadura é conivente com a má distribuição da riqueza e com a exploração do povo pobre. Nós, cristãos, devemos encontrar a nossa própria maneira de agir.

Nesse momento, uma fiel vem avisar que há um policial gravando o sermão. Frei Ivo, então, toma o microfone e anuncia à platéia:

102 LEBEL, Jean-Patrick. Cinema e Ideologia. Lisboa: Editorial La Stampa Ltda, 1972 – 2ª

90 - Aquele senhor ali no canto, com o gravador na mão, é policial do DOPS. O nome dele é Raul Careca. Será que ele veio aqui para rezar, ouvir a palavra de Deus? Ou está aqui para nos vigiar e depois mandar prender?

Em seguida, o policial descoberto foge, gritando:

- E você é um comunista desgraçado que usa a batina e o nome de Deus para pregar a desordem! Pregar a subversão!

A cena seguinte mostra o jardim do convento, onde frei Diogo reúne os jovens frades para aplicar-lhes um sermão:

- Bom, eu chamei vocês aqui porque nós temos de nos perguntar até onde nós podemos ou devemos ir. E vocês estão indo longe demais. Vocês sabem o perigo que estão correndo?

Ao que Tito responde:

- Mas a opção pelos pobres é uma exigência do trabalho apostólico, frei Diogo. Estamos defendendo a causa dos humilhados, de homens e mulheres de pés descalços. Auxiliar os perseguidos é uma tradição da Igreja.

E Oswaldo diz:

- São Tomás de Aquino já dizia que em caso de tirania evidente e prolongada o povo tem o direito de se defender.

E Betto acrescenta:

- Paulo VI dizia algo bem parecido: esgotadas todas as possibilidades, é legítimo o uso da violência.

E Fernando completa:

- E se queremos mudar alguma coisa, temos de ir além das palavras e dos estudos.

Por fim, Ivo comenta:

- Nós não pegamos em armas, nós não assaltamos. Só estamos dando o nosso apoio.

Dessa cena, depreende-se que os frades dominicanos agiam movidos exclusivamente por seus ideais cristãos de solidariedade aos oprimidos e não sujavam suas mãos com sangue, tarefa desempenhada pelos “guerrilheiros profissionais”, como podem ser descritos os demais membros da ALN.

Essa sequência é a primeira a mostrar que a atuação dos dominicanos na resistência à ditadura já havia despertado a atenção da polícia política

91 (representada pela presença do policial Raul Careca, do DOPS, na missa promovida pelos dominicanos). Contudo, é curioso notar como o prior, que no púlpito incitara os fiéis a tomar partido contra o governo militar, no momento seguinte reprime os jovens frades por estarem cumprindo esse mandato. Ou seja: atacar o regime militar com palavras de ordem é permitido. Partir para ações práticas, não.

Em seguida, na cena do jardim, quando era de se esperar que os frades, com todo o ímpeto de sua juventude e idealismo – afinal, estamos no ano de 1968, o dos protestos de estudantes em Paris, da morte de Ernesto Che Guevara, da passeata dos Cem Mil, dos festivais de música popular onde pululavam canções de protesto ao regime militar – deixassem clara a sua posição política, os cinco recorrem a citações de teólogos para dizer que agem exclusivamente pautados pela solidariedade com os oprimidos. O espectador, mais uma vez, é levado a pensar que eles agem por motivos religiosos, e não por convicção política.

Daí por diante, o roteiro leva o espectador a crer que socialistas são os outros – os dominicanos são apenas cristãos. É como se a luta dos religiosos tivesse um sentido transcendente, de salvação de toda a população brasileira oprimida, em nome de Deus. O objetivo de por fim a uma ditadura militar e instalar o regime socialista, principal bandeira dos militantes de esquerda no Brasil daquele período, não é sequer mencionado.

O esvaziamento do sentido político das atitudes dos personagens serve a um propósito maior: o de monumentalizar a imagem dos frades como “heróis da fé”. Segundo Le Goff103, o processo de monumentalização pode ser entendido como destacar um documento dentre os inúmeros produzidos durante o processo histórico e elevar a sua importância, transformando-o em monumento, no duplo significado de elevação moral e de edificação. “A história dos nossos dias tende para a descrição intrínseca do monumento. O documento não é inócuo. É, antes de mais nada, o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da sociedade, da época, da sociedade que o produziu, mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio. (...) O documento é monumento. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro, voluntária ou involuntariamente, uma imagem de si próprias. ”

De forma geral, no filme Batismo de Sangue, a atuação dos dominicanos na luta armada e no movimento estudantil é mostrada sem profundidade. A estratégia do diretor é reforçar o caráter cristão dos frades, desconstruindo a imagem de padres comunistas que os governos militares lhes impingiram.

92 Conforme explica Napolitano104, uma operação central em filmes históricos é a monumentalização ou demolição de monumentos: “Como parte das estratégias de representação que dão sentido aos filmes históricos, a questão da monumentalização de eventos e personagens (ou da sua desconstrução enquanto monumentos) tem um papel central na escrita fílmica da história. Nesse processo, ocorre um diálogo específico entre obras cinematográficas, tradições historiográficas e memória social.”

A desconstrução da trajetória de frei Tito enquanto líder estudantil é levada ao extremo, como sugere a sequência destacada abaixo.