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Det konkluderes med at e-læringsteknologi gir mulighet for å fokusere på variasjon i vid forstand. En konkret måte å skape

Conforme dito anteriormente, as Histórias não podem ser consideradas uma obra escrita “no gabinete”. Sua execução só pode ser realizada por conta das diversas expedições que Heródoto empreendeu em seu tempo. Sendo assim, podemos retomar alguns argumentos usados no precioso estudo de Hartog sobre os citas – que nos ajudam a compreender o método de trabalho utilizado pelo historiador e sua forma de construir os relatos.

A primeira observação relevante é que Hartog classifica a obra de Heródoto como uma narrativa de viagem, não apenas porque o historiador se deslocou até lugares distantes do mundo grego para buscar informações sobre os chamados bárbaros, mas sim porque esse método implica na possibilidade de produzir um texto que leva ao público relatos sobre as maravilhas/curiosidades a respeito dos povos descritos. Essa prática, segundo Redfield, teria nascido com Odisseu, e representa, no limite, ir até o desconhecido para observar (2002: 25)12. Heródoto, portanto, teve a possibilidade de conhecer um grande conjunto de coisas que poderiam ser lidas nas ágoras das póleis gregas. Essas maravilhas, ou thôma, são importantes figuras de retórica de alteridade: é uma forma possível de traduzir a diferença entre o que há no mundo grego e o que há no mundo bárbaro (HARTOG, 1999: 245-246). Para Gruen (2011: 1), a alteridade serve, sobretudo, para a construção de uma espécie de declaração de superioridade, tratando o diferente como inferior.

O debate persa, alvo da nossa investigação, pode ser considerado um desses elementos surpreendentes e curiosos que foram levados ao público grego por Heródoto. De certa forma, sem problematizar a fonte e o documento13, o fragmento mostrou aos helenos que os nobres da Pérsia também eram capazes de debater aspectos da filosofia política como as vantagens da constituição democrática em detrimento de uma suposta arbitrariedade da monarquia (posição marcada pelo discurso de Otanes), algo bastante externo à realidade do império fundado por Ciro. Ao narrar esse thôma na obra, o

Segundo Redfield, Heródoto indica que existem três motivos para viajar. O primeiro seria o comércio;

o segundo, a guerra; por fim, viaja-se para observar (2001: 24). O autor se baseia no fragmento III.139 para defender essa ideia. A passagem se refere à conquista de Samos por Dario, e menciona que, quando Cambises invadiu o Egito, muitos helenos foram para lá com finalidades diversas: alguns foram com o exército persa, enquanto outros foram negociar. Por último, o documento cita que outros gregos viajaram simplesmente para conhecer o território conquistado.

Devemos considerar, como faremos nos capítulos seguintes desta dissertação, que, independentemente

de ser verdadeira ou não, essa passagem das Histórias é fundamental para consolidar o debate sobre as formas de governo no mundo Antigo.

próprio autor se preocupou em esclarecer que os discursos pronunciados no diálogo entre Otanes, Megabizo e Dario poderiam ser “considerados incríveis por alguns helenos” (HERÓDOTO, Hist., III.80), tamanho o choque que o trecho poderia causar nos leitores gregos. Aplicando a teoria de Hartog, podemos interpretar que Heródoto tentou, com essa frase, preparar seu público-leitor para o relato da “curiosidade” que se seguiria – e que seria surpreendente.

Seguindo para mais um ponto da obra de Hartog, temos que o historiador de Halicarnasso trabalha com um esquema de comparações e criação de analogias como forma de “traduzir” costumes e tradições estrangeiras para seu público helênico. Heródoto, explica o autor, descreve determinada prática religiosa persa, por exemplo, e depois encontra um paralelo grego para melhor explicar o fato descrito – muito embora, às vezes, os objetos comparados não sejam exatamente equivalentes. Entretanto, seria uma ferramenta metodológica utilizada pelo autor para levar a seu público uma compreensão facilitada das informações que colheu em suas viagens, porque, deste modo,

(...) Heródoto estima que um pode ajudar a fazer com que se veja melhor o que é o outro, valendo a pena, ainda que só por um instante, aproximá-los: as tochas que passam de mão em mão (nas provas gregas das lampadoforias) são como as notícias que se divulgam de mensageiro em mensageiro até o palácio real de Susa. (...) A analogia desempenha um papel importante nas origens da ciência grega, em que funciona tanto como método de invenção, quanto como sistema de explicação. É, pois, interessante ver uma narrativa como as Histórias recorrer a esse verdadeiro modo de conhecimento que é o conhecimento „por comparação‟, adaptando-o a seu próprio uso. (HARTOG, 1999: 242-244). Portanto, a narrativa de viagem pressupõe que o autor vai, em muitos momentos, apresentar o thôma a seus leitores fazendo uma analogia entre eles e elementos comuns à cultura grega, quase como num exercício de “tradução” – que evidentemente também causa muitos problemas pelo fato de algumas comparações não serem exatamente apropriadas.

Ainda pensando na perspectiva das Histórias como uma obra de viagem, Pascal Payen publicou um interessante estudo intitulado Hérodote et Lévi-Strauss: questions

d’ethnographie14, no qual traça um paralelo entre o texto de Heródoto e a antropologia.

Segundo o autor, há uma semelhança nos métodos empregados pelo historiador grego e pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, pois ambos escreveram grandes obras com base em relatos obtidos a partir de expedições realizadas pelos autores.

Payen argumenta que a tradição Ocidental situa o início desse tipo de obra em Hecateu e Heródoto (PAYEN, 2013: 179), que, a exemplo de Lévi-Strauss, em Tristes

Trópicos, viajaram a terras longínquas para conhecer não apenas a história, mas também

a cultura e os costumes dos povos estrangeiros, praticamente vivenciando suas rotinas e interagindo com os moradores e autoridades locais15. Do ponto de vista metodológico, é como uma imersão na cultura do outro para estudá-la a partir de seu próprio ponto de vista e com base em seus próprios termos, construindo uma pesquisa classificada pelas ciências sociais como sendo qualitativa.

A partir dessa constatação inicial, Payen traça alguns pontos de analogia entre as

Histórias e Tristes Trópicos (2013: 180-181), sendo que um dos apontamentos mais

relevantes é o fato de que ambos os autores demonstraram uma grande preocupação no momento de retratar a visão “do outro” – e fizeram isso se valendo de entrevistas e da observação dos costumes das sociedades analisadas. São trabalhos que unem as práticas da história com a etnografia, embora Heródoto não deixe esse objetivo explícito (PAYEN, 2013: 182). Isso implica pensarmos que Heródoto não apenas retratou os persas a partir de uma suposta perspectiva grega (a visão helênica do outro), mas também buscou mostrar os Orientais a partir de seus próprios termos e experiências políticas, como a suposta crítica da democracia feita por Otanes (HERÓDOTO, Hist., III.80).

Payen cita ainda outra obra de Lévi-Strauss, Ethnologie et histoire, na qual o antropólogo francês diferencia as duas ciências: segundo o autor, a história toma como objeto expressões conscientes da vida das sociedades, enquanto a etnologia analisa as estruturas inconscientes que subjazem às instituições ou aos costumes (2013: 182). Logo, ouvir o estrangeiro é não apenas relatar o que se vê, mas também o que se ouve e aprende com ele, podendo buscar um modo de narrar os fatos a partir de outro ponto de vista, ou seja, a partir da perspectiva do próprio descrito.

Publicado no livro Hérodote: formes de pensée, figure du récit, páginas 179 a 196, da Presses

Universitaires de Rennes, de 2013.

Autoridades como os sacerdotes dos templos egípcios, que ajudaram Heródoto a construir sua versão

Contudo, é preciso problematizar essa perspectiva. Heródoto pode, como realmente fez, ter dado a oportunidade para o “outro” contar a sua versão da história. Porém, a seleção das fontes de informação também é um filtro importante para pensarmos nessa narrativa de viagem: o historiador escolheu quem seria ouvido e qual versão seria contada ao público grego – e selecionou também o que seria descrito e o que seria descartado na obra.

Portanto, conclui Payen, qualquer narrativa deste tipo, que se vale de viagens de exploração para a descrição dos fatos, está sujeita ao olhar, aos ouvidos e às escolhas de quem faz as observações e a interpretação dos relatos. É que, após o exercício de observação e apuração dos dados in loco, o historiador precisa deglutir aquelas informações e nesse momento pode causar distorções em relação à realidade. A prosa historiográfica e a etnográfica, completa o autor, são indissociáveis do sujeito que olha, escuta e escreve as várias versões (2013: 187).

Ainda que as narrativas herodotianas estejam repletas de contradições e questionamentos, a obra de fato é singular. Por meio dela, Heródoto se consagrou como uma das principais fontes para o estudo da Grécia Antiga, podendo ser considerado não apenas um historiador, mas também um geógrafo, etnógrafo e pensador político. Essa diversidade de abordagens, somada às inúmeras digressões do documento, por vezes é criticada por dificultar uma melhor compreensão da totalidade da obra. De qualquer forma, as Histórias tornam Heródoto um autor importante para o estudo de um longo período histórico na Antiguidade. Reside nisso, aliás, uma das maiores complexidades para se ler e interpretar o texto, pois envolve a narrativa de assuntos presenciados pelo historiador, como festivais no Egito dos quais ele foi testemunha ocular, eventos de períodos anteriores ao seu nascimento, para os quais depende inteiramente de depoimentos de terceiros, e histórias muito antigas, que remontam à total ausência de testemunhas vivas e, portanto, inteiramente dependentes da tradição oral.

Oswyn Murray, em seu estudo sobre o surgimento e o desenvolvimento da escrita histórica na Grécia, defende que

O resultado (das Histórias) é mais do que um relatório das causas e eventos de um mero conflito. Prefiro afirmar que é um quadro total do mundo conhecido, no qual a geografia, os costumes, as crenças e os movimentos de cada povo são no mínimo tão importantes quanto sua relação frequentemente tensa na guerra. É nisso que a obra de Heródoto nos aprofunda, sendo uma grande obra de arte e

ao mesmo tempo uma convincente história de um conflito, não apenas entre dois povos, mas sim entre dois tipos de sociedade, o igualitarismo da cidade- estado mediterrânea e o despotismo Oriental do Oriente Médio (MURRAY, 1988: 218-219).16

Momigliano ressalta outra característica marcante no trabalho de Heródoto: ter utilizado três elementos de investigação distintos, “etnografia, investigação sobre a constituição e história militar”, deixando evidente, em sua opinião, que o historiador estava “profundamente conectado com a investigação histórica, com a consequência de que uma série de feitos se tratava implícita e explicitamente como a explicação de outra série” (1984: 12). Em outras palavras, Momigliano argumenta que Heródoto não apenas elencou fatos, mas sim os interpretou e os inseriu num contexto de longa duração, evidentemente com as limitações de uma época na qual a história não era uma disciplina como hoje.

Ao usar a oposição entre o igualitarismo da cidade-estado e o despotismo oriental, Murray parece

adotar uma leitura ocidental da obra de Heródoto, ou seja, aquela que defende que a monarquia ocidental era um regime político similar (quando não um sinônimo) de tirania. Ao mesmo tempo, essa visão toma a democracia ateniense do século V a.C. como o modelo político grego, quando na verdade pode ser interpretado como uma exceção, por ter surgido apenas no fim do período clássico.