Pela análise dos factos apurados na investigação realizada neste período de tempo específico, podemos referir que a ação do MSMT, ainda como instituição sem personalidade jurídica própria, centrou-se em dois polos distintos: um interno e outro externo.
No que toca ao polo interno podemos incluir, em primeiro lugar, as relações estabelecidas com os antigos proprietários, relações essas que se pautaram pela existência sistemática de um clima tenso que despoletou o surgimento de pequenos conflitos, ainda antes da sua saída definitiva do mosteiro. Depois de abandonarem o mosteiro outros conflitos foram surgindo, nomeadamente relacionados com a utilização das águas, com os limites dos terrenos e com a prática da caça dentro dos terrenos da cerca do mosteiro afetos ao Estado, não obstante a proibição de caçar, sem consentimento de quem de direito, aplicada pela Direção Regional de Agricultura de Entre Douro e Minho (DRAEDM). Estes conflitos pontuais tiveram a mediação do(a) responsável local do mosteiro e da sua equipa de trabalho, procurando estabelecer processos de diálogo assentes na clarificação dos problemas e na procura de uma solução que fosse reconhecida por ambas as partes. No caso da prática de caça, esse consenso nunca foi conseguido porque a parte infratora nunca quis encetar um processo de diálogo sobre o assunto, tendo por vezes sido necessário recorrer às forças de segurança para fazer cumprir a lei. Em segundo lugar, é obrigatório referir as relações estabelecidas com a Paróquia, nomeadamente na criação das regras gerais de utilização dos espaços comuns, sendo mais uma vez importante o papel mediador do(a) responsável local do mosteiro, como elo de ligação (a ponte) entre o MSMT, a Paróquia e o IPPC. Nesta fase não há registos de conflitos com a Paróquia, pelo que poderemos afirmar que o papel da mediação foi no sentido da prevenção de conflitos, procurando estabelecer um processo de comunicação que fosse capaz de explicar o
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papel do MSMT como novo espaço cultural, quais os seus objetivos, que espaços comuns pretendiam utilizar e que outros espaços lhe estavam totalmente afetos. Deste modo, foi possível estabelecer uma relação de confiança entre as partes, criando um conjunto de regras informais que foram capazes de definir formalmente a utilização conjunta dos diferentes espaços. Por outro lado, esta relação estabelecida inicialmente com o Pároco, tendo-o como conhecedor dos objetivos do MSMT, foi o ponto de partida para o início de um trabalho mais difícil que consistiu na aproximação da comunidade local ao Mosteiro. O Pároco, para além de ser o mediador entre a Paróquia e o MSMT, passa a ser um mediador entre o MSMT e os paroquianos.
Por fim, consideramos importante referir as relações internas desenvolvidas com a equipa de trabalho, quer com os vigilantes, quer com os trabalhadores da cerca. A equipa de vigilantes foi aquela que de início acarretou mais problemas a nível do funcionamento institucional
as situações criadas por alguns dos referidos elementos (roubos, faltas sucessivas ao trabalho…) teriam conduzido de imediato ao despedimento desses trabalhadores (E04.23).
No entanto, a postura de diálogo assumida, preocupada com as questões sociais e humanas que estariam relacionadas com um eventual despedimento fizeram com que fossem sendo dadas sucessivas oportunidades aos envolvidos, até que a rutura aconteceu. Tal como nos processos de mediação de conflitos, em que pretendemos ajudar na criação de um melhor caminho, construindo novas oportunidades, se uma das partes acaba por adulterar as regras e criar atalhos, então os novos caminhos têm que ser encerrados.
No que toca ao polo de mediação externa do MSMT, podemos afirmar que inicialmente o papel mediador dos responsáveis locais esteve centrado no estabelecimento de relações interinstitucionais com a Arquidiocese de Braga/Pároco, Estado/Paróquia, Estado/Enatur, Estado/Arquidiocese, Estado/Câmara (E05.24.1), não esquecendo ainda o PNPG, a DRAEDM, a AFCA, a UM, o Mosteiro de Singeverga, os museus de Braga e a ASPA. O contacto com instituições educativas começa por ser feito com a comunidade escolar na área de abrangência do antigo Couto de Tibães, mas depressa se alarga a outros concelhos como atestam os pedidos de realização de visitas recebidos neste período. O contacto com instituições de diferentes áreas do saber permitiu a realização de atividades diversas e orientadas para vários tipos de público, conseguindo assim contribuir para um processo em que todos ganharam: o MSMT porque recebeu novos públicos e viu aumentada a sua oferta cultural e educativa e as instituições
parceiras porque deram visibilidade externa ao seu trabalho, aproveitando o espaço do mosteiro como local emergente de novas oportunidades.
2.3. 3º - A expansão institucional (28-09-1990 a 2000)
A criação institucional do MMSMT83 foi um marco muito importante na sua nova história. Por um lado, foi o reconhecimento oficial da importância histórica e cultural deste imóvel, por outro foi o ponto de partida para a criação das condições legais que permitiram desenvolver a sua missão, muito centrada na ampliação do conhecimento do Mosteiro de Tibães, da Ordem Beneditina e no estabelecimento de relações com a região onde se insere.
No panorama político nacional da época, estávamos na plena juventude de uma democracia que continuava o seu processo de consolidação, sendo desenvolvidos esforços na criação de melhores condições de educação, de saúde, de vias de comunicação e de transportes. Com o dinheiro que fluía de Bruxelas, foi possível começar a olhar para outros setores, emergindo neste contexto o cultural. Começa a surgir uma nova corrente de pensamento que perspetiva a recuperação patrimonial como uma forma de gerar receita, nomeadamente no turismo e por isso dá-se início a uma grande campanha de recuperação restauro e reabilitação de imóveis, sendo que alguns acabam por ser transformados em pousadas. A ideia da construção de uma pousada em Tibães foi sendo progressivamente colocada de parte, pois uma solução do género, para ser minimamente rentável, teria que ocupar quase todo o monumento, acabando por limitar muito os locais disponíveis para o circuito de visita. Começam a ser desenvolvidas escavações arqueológicas e a investigação documental realizada essencialmente nas bibliotecas e Arquivos de Braga e Porto vão agregando muita informação sobre o MSMT, ganhando consistência a ideia de criação de um Centro de Estudos. Aos poucos, o circuito de visita vai sendo progressivamente definido apresentando também uma novidade: a cerca torna-se parte integrante do circuito museológico, sendo aí inaugurados os primeiros percursos orientados no dia 20 de março de 1992. Começam a ser realizadas negociações entre o IPPC e a Paróquia, no sentido de se proceder a uma troca de espaços para a implementação do percurso museológico final. Esta negociação teve o seu final com a assinatura de um protocolo de cedência e troca de espaços entre a Paróquia de Mire de
83 De 28-09-1990 a 16-05-1997 a designação que a instituição possuía era a de Museu do Mosteiro de S. Martinho de Tibães (MMSMT). Antes e
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Tibães/Diocese de Braga e o IPPAR, por altura de realização do Dia de Reflexão sobre Tibães, no dia 27 de setembro de 199584.
Criadas as condições mínimas de segurança para o visitante, realizadas as limpezas gerais dos espaços, instalada a eletricidade e o telefone, iniciados pequenos trabalhos de recuperação e restauro, o MSMT vê aos poucos sendo definidos o seu projeto de ocupação, objetivos e utilização do mosteiro, começando assim a ter a possibilidade de acolher e contactar com mais pessoas. Neste período de tempo, consideramos que a missão desenvolvida pelo MSMT assentou essencialmente no(a)85: a) reforço da equipa de pessoal; b) investigação; c) implementação do Serviço Educativo; d) instalação do Centro de Conservação e Restauro de Tibães (CCRT); e) crescente oferta cultural; f) início das grandes obras de restauro e reabilitação.