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“Ninguém se contenta em fazer um chiste apenas para si. O impulso de contar o chiste a alguém está inextricavelmente associado à elaboração do chiste. Um chiste deve ser contado a alguém mais”. (Freud, Os chistes e sua

relação com o inconsciente).

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Ao tomar o fenômeno onírico como objeto de investigação e como base para a elaboração de uma teoria geral sobre o aparelho psíquico, A interpretação dos sonhos opera uma verdadeira passagem no movimento de teorização da psicanálise: dos fenômenos neuróticos para os fenômenos psíquicos ditos normais.98 Um ano depois da publicação de sua “obra mestra”, as mesmas operações responsáveis pela formação dos sonhos são identificadas em alguns fatos corriqueiros da vida quotidiana, vivenciados por todos os indivíduos considerados normais. São os casos de esquecimento, dos erros, dos deslizes de fala, de leitura, de escrita, operações em geral classificadas de “desatenção” ou “causalidade”.

Um paralelismo é estabelecido, em Psicopatologia da vida quotidiana (1901), entre os mecanismos em ação nesses fenômenos, de um lado, e nos sonhos, de outro: Freud constata a inexistência de uma diferença fundamental entre o homem normal e o homem neurótico, e aproxima, com efeito, o funcionamento psíquico que produz ações normais e as ações patológicas.99 “Todos somos mais ou menos neuróticos”, afirma ele, que reconhece, no exame das operações falhas, a ação dos mesmos mecanismos responsáveis pela transformação do pensamento onírico em conteúdo manifesto do sonho.

É em termos do balanço prazer-desprazer que é feita a comparação entre os fenômenos psíquicos: assim como o texto do sonho é considerado o produto de um processo que busca a evitação do desprazer, os esquecimentos, também. A resistência presente neles dificulta a recordação de impressões penosas. Por isso Freud considera tais ações um meio de defesa contra o desprazer. O esquecimento do nome Signorelli é atribuído à evitação de idéias recalcadas associadas à morte e à sexualidade. “Eu queria, na verdade, esquecer outra coisa, e não o nome do mestre de Orvieto; mas, entre esta “outra coisa” e o nome estabeleceu-se um elo associativo, de tal sorte que meu ato involuntário errou o alvo e, contrariando minha vontade, esqueci o nome, quando queria intencionalmente esquecer outra coisa”.100

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É certo que o modelo de psiquismo sobre o qual Freud se apóia para redigir o famoso capítulo VII de A

interpretação dos sonhos remonta aos trabalhos redigidos desde 1891, dentre os quais o Projeto de psicologia (1895). É de Monzani (1989) a afirmação de que o capítulo VII não rompe com as publicações

anteriores. “[...] O que Freud utilizou no capítulo VII foi o mesmo princípio que já tinha aplicado ao problema da linguagem. Visto que a orientação localizacionista é insustentável, ele articula a noção de aparelho psíquico e constrói uma noção semelhante à de aparelho de linguagem, elaborando uma idéia de uma patologia que, embora ancorada no sistema neuronal, não se confunde com ele [...]”. L. R. Monzani,

Freud: o movimento de um pensamento. Campinas: Unicamp, 1989, p.137. 99

Em outro momento se lê: “A fronteira entre a anormalidade e a normalidade é flutuante”. S. Freud.

Psicopatologia da vida quotidiana (1901), AE VI, 1989, p. 270. 100Psicopatologia da vida quotidiana, AE VI, p. 14.

São os mecanismos de deslocamento e de condensação, à maneira do que sucede nos sonhos, que entram em ação nos atos quotidianos involuntários aos quais todos os indivíduos estão sujeitos. Em tais atos − que podem ser um esquecimento, uma lembrança encobridora da infância, um erro de leitura, etc. −, o afeto desloca-se da impressão significativa para uma impressão insignificante. Concomitantemente um complexo de representação pode ser reduzido a uma única sentença ou palavra, formando um lapso, por exemplo, que por seus efeitos de hilaridade e sideração, por sua estrutura, que é a de uma abreviação, apresenta afinidades com o chiste. O caráter comum a todos os casos reside no fato de que é possível reconduzir os fenômenos a um material psíquico que não foi completamente reprimido, um material que, esforçado em se afastar da consciência, não foi despojado de toda sua capacidade de se exteriorizar.

Partindo do método de interpretar os sonhos, baseado na pesquisa das associações-livres, Freud estabelece os pontos de coincidência entre o mecanismo das ações falhas e casuais presentes na vida desperta e os mecanismos da formação dos sonhos. “Aqui como ali encontramos condensações e formações de compromisso (contaminações); a situação é a mesma, a saber: alguns pensamentos inconscientes conseguem se expressar por caminhos insólitos, através de associações extrínsecas, como modificação de outros pensamentos”.101 Em seguida, em um movimento de retorno às formações patológicas, o autor relaciona o trabalho psíquico que engendra a operação falha e as imagens do sonho aos sintomas neuróticos − em especial às formações psíquicas na histeria e na neurose obssessiva −, assinalando que elas recapitulam em seus mecanismos todos os traços essenciais desse modo de trabalho.

Com Psicopatologia da vida quotidiana, Freud demonstra a tese fundamental

estabelecida em A interpretação dos sonhos sobre a existência de duas modalidades distintas de funcionamento psíquico que ele denominou “processo primário” e “processo secundário”. Indica o domínio permanente do inconsciente sobre a totalidade da vida consciente e sustenta a vigência universal do determinismo nos processos psíquicos, abrindo caminho, com isso, para um uso ilimitado da prática da interpretação. Considerada por Jones uma obra que contém algumas das coisas mais delicadas que Freud escreveu, O chiste e sua relação com o inconsciente (1905) mantém com o livro dedicado às ações falhas importantes semelhanças, fazendo avançar a teorização freudiana em direção ao exame das formações ditas culturais. O método de

interpretação dos sonhos é, uma vez mais, generalizado, extrapolando, desta vez, o domínio individual para se voltar a um tipo de experiência compartilhada, esta que as manifestações do cômico possibilita.

Após demonstrar que os mecanismos essenciais dos sonhos – a condensação e o deslocamento – determinam as estruturas dos lapsos, dos esquecimentos e dos atos falhos, Freud examina a essência de outro fenômeno psíquico considerado “normal”, os chistes, que participa, ao lado do humor, da problemática do cômico. Os chistes e sua

relação com o inconsciente (1905) inaugura a abordagem psicanalítica da cultura ao

examinar os chistes, fenômeno dotado de um caráter intersubjetivo. Nos termos de Freud, eles são “uma conduta social”. Enquanto o sonho é um produto psíquico inteiramente associal, que nada comunica ao outro, já que é incompreensível para a pessoa que sonha e, por conseguinte, para as outras pessoas, o chiste “[...] é a mais social de todas as operações psíquicas que têm por meta a obtenção de prazer. Freqüentemente precisa de terceiros, e demanda a participação de outro para levar a seu termo os processos psíquicos por ele incitados”.102

O sonho não é feito para ser entendido, por isso se serve sem inibições dos mecanismos que governam os processos inconscientes para obter a desfiguração. Os chistes, em contrapartida, precisam ser compreensíveis. Utilizam-se da desfiguração, até o ponto em que o entendimento da terceira pessoa possa ser reconstruído. Diferentemente dos sonhos, eles colocam em jogo os processos secundários, sem os quais seu conteúdo permaneceria ininteligível. Se o sonho possui uma “razão de ser”, porque é condição para que a pessoa durma, o chiste não possui, não obedece a finalidades cognitivas nem a finalidades práticas. É esse traço que os aproxima das manifestações estéticas.103 O fato de estar além do âmbito das necessidades e de produzir prazer aproxima o chiste da obra de arte e do problema da origem da fruição de prazer, que caracteriza as experiências estéticas. Não por acaso, os chistes serão considerados “mini-obras-literárias”. A aproximação com a arte passará pelo operador do trabalho do sonho. As razões pelas quais o chiste é inserido entre os processos sublimatórios será discutida. Na parte do capítulo que se seguirá a esta, uma série de

102

S. Freud, Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905), AE VIII, 1989, p. 171.

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Os filósofos com os quais Freud discute incluem os chistes no grupo do cômico e tratam o cômico dentro do campo maior da estética. Fischer (1889) caracteriza o representar estético mediante a condição de que, nele, não queremos nada das coisas nem com elas, não utilizamos as coisas para satisfazermos nossas necessidades vitais, mas gozamos com sua representação. “Este gozo, esta maneira de representar, é a puramente estética, que repousa só no interior de si, só dentro de si tem seu fim e não realiza nenhum outro fim vital”. Os chistes e sua relação com o inconsciente, AE VIII, p. 45.

textos sobre literatura será trabalhada. O fio condutor dessa discussão será a idéia de que o modelo de interpretação dos sonhos é ampliado para a esfera da obra de arte. Por ora, nos limitaremos a dizer que Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905) opera a passagem da análise do indivíduo para a análise da cultura, do registro individual para o registro coletivo, e generaliza o método da interpretação dos sonhos para a análise dos chistes.

O intuito de Freud em “Os chistes...” é examinar as técnicas de produção dos chistes para, assim, chegar à sua essência. Em um tipo de análise por ele denominada “formal”, a condensação é identificada como uma operação presente no mecanismo produtor dos chistes. É a “condensação com formação substitutiva”, que age como uma força compressora, eliminando uma palavra e alterando o sentido das expressões. “Rothschild tratou-me de modo familionário”104 exemplifica esse modo de operação.

Familionário une “familiar” e “milionário”, e é considerada uma palavra mista. “Viajei

com ele tête-à-bête” é outro exemplo apresentado por Freud, que alude a uma expressão de língua francesa, que em português quer dizer “cara a cara” – tête-à-tête. Nesta expressão é apontada a presença da condensação, que modifica levemente a palavra tête

por bête, besta,105 fazendo emergir sutilmente o conteúdo agressivo que estava

reprimido. O deslocamento, o contra-sentido e a figuração pelo contrário são igualmente identificadas na produção da expressão chistosa. A figuração representa-se como algo que não se pode expressar diretamente. No subgrupo “figurações indiretas”, o autor inclui a falácia, a unificação e a alusão, insistindo no fato de que em toda alusão o caminho do pensamento que desemboca nela é omitido. Tais processos psíquicos - a condensação, o deslocamento, os meios de representação -, que compõem o núcleo da técnica para o chiste na palavra, remetem Freud à formação dos sonhos, mais precisamente à técnica da elaboração onírica.

Os chistes tendenciosos − as piadas − são classificados como chistes desnudadores ou obscenos, agressivos, cínicos ou blasfemos. Estão a serviço de uma tendência hostil e são comunicados com vistas a agredir e satirizar o outro. Como as pessoas precisam renunciar à expressão de sua hostilidade, diz Freud, por meio dos

104Os chistes e sua relação com o inconsciente, AE VIII, p. 46. 105

De maneira esquemática, Freud classifica a condensação com formação de uma palavra mista e com modificação. Reúne sob a rubrica “Múltipla acepção do mesmo material”: todo e parte; reordenamento; modificação leve; a mesma palavra plena e vazia. E, finalmente, indica outra técnica do chiste: o duplo sentido, que reúne o nome e significado material, o significado metafórico e material, o duplo sentido propriamente dito - jogo de palavras -, a equivocidade, e o duplo sentido com alusão.

chistes elas expressam o que conscientemente é proibido. Com efeito, fontes de prazer antes inacessíveis tornam-se acessíveis. “Este tipo de chiste pode representar uma revolta contra a autoridade, um liberar-se da pressão que ela exerce [...] Nisto reside também o atrativo da caricatura, que nos faz rir sendo ela, má, só porque lhe atribuímos o mérito de voltar-se contra a autoridade”.106 As histórias de casamento são as prediletas do autor, que considera o campo da sexualidade o mais reprimido pela cultura. A agressão, nessas histórias, destina-se contra todas as pessoas envolvidas no trato matrimonial: do casal ao padre, aos pais, etc.

Desbloquear um caminho bloqueado pela faculdade crítica ou pela razão é um dos elementos que promoveria o efeito prazeroso dos chistes. Ao ajudar a vencer as resistências que mantêm o conteúdo recalcado, os chistes liberariam impulsos ou tendências, desfazendo a “estase psíquica”. Assim, eliminariam gastos ou despesas psíquicas. Se o aparelho dispende certa quantidade de energia a fim de manter as “inibições psíquicas”, uma operação que poupa esse trabalho está a serviço de uma economia psíquica. Logo, “[...] a obtenção de prazer nos chistes corresponde a um gasto psíquico economizado”.107 É por essa razão, como observa Mezan (1997), que o ponto de vista econômico tem um papel essencial a desempenhar na estética freudiana: “o prazer ou o desprazer são vistos como a resultante afetiva desta luta, que culmina com a descarga ou com retenção da magnitude de forças em questão”.108

Para o autor da frase de espírito, Freud sugere que ele precisa vencer uma considerável repressão. A confecção de uma piada baseia-se em uma operação na qual a elaboração inconsciente, ou seja, os processos primários ligam um pensamento pré- consciente a um desejo reprimido, e, por meio das operações de condensação e deslocamento, o resultado dessa fusão atravessa a barreira da censura e emerge na percepção consciente. A risada do autor será, contudo, sempre menor do que a da pessoa que escutou a piada, pois essa operação envolve um gasto de energia psíquica que é subtraído da energia liberada pelo levantamento da repressão. A pessoa que escutou, diferentemente, terá uma risada de maior magnitude, pois nenhum tipo de gasto psíquico será subtraído do prazer obtido pela suspensão da repressão.

Seria simples se a explicação da psicogênese dos chistes se resumisse à suspensão da inibição psíquica, à economia da despesa psíquica, explicada pelos chistes

106Os chistes e sua relação com o inconsciente, AE VIII, p. 89. 107Os chistes e sua relação com o inconsciente, AE VIII, p. 114. 108

tendenciosos. A grande novidade aportada por Freud ao problema da fruição do prazer nos chistes diz respeito a uma ação do psiquismo que antecede a inibição, ou, melhor dizendo, que é sua condição de possibilidade. É no conceito de “princípio do prazer preliminar” que o autor encontra respostas para resolver o enigma das formações chistosas. Anterior a qualquer tipo de economia referente ao trabalho das instâncias de censura e de repressão, o prazer preliminar denota um princípio que está a serviço da produção de prazer, não de sua evitação. “O homem é um incansável buscador de prazer”,109 dirá Freud referindo-se a esta fonte de prazer encontrada nos jogos infantis e nos gracejos. A idéia por detrás desse princípio, que é condição de todo representar estético, reza que o aparelho, quando não precisa realizar satisfações indispensáveis, trabalha por prazer e permite ao homem extrair prazer de sua atividade. É então que os chistes entram em cena: “O chiste surge da necessidade que os homens sentem de derivar prazer de seus processos de pensamento”.110 E, mais adiante, “acerca dos chistes posso asseverar que eles têm por meta obter prazer a partir dos processos psíquicos – intelectuais e outros”.111

Debrucemo-nos, um instante, sobre a questão dos jogos infantis, dos gracejos e sua relação com os chistes. Os jogos são uma prática infantil por meio da qual as crianças aprendem a usar as palavras e a reuni-las. São gratificantes pois envolvem a repetição do similar e a redescoberta do familiar. As crianças tratam as palavras como coisas: colocam a representação-palavra no lugar do seu significado. “O prazer é aqui engendrado pela passagem de um círculo de vocábulos a outro, sem tomar em conta as significações correspondentes, o que fornece as condições de uma primeira poupança de energia psíquica”.112

Com o tempo, surge o raciocínio psíquico com regras lógicas, que acarreta um dispêndio de energia destinado a manter uma coerência dos pensamentos. A criança é obrigada a renunciar ao prazer do familiar e a empregar as palavras corretamente, associando as representações-palavra às representações-coisa. É aí que encontram outro meio de obtenção de prazer, recuperando o acesso às fontes infantis de prazer: por meio do gracejo, que prolonga o prazer resultante do jogo, silenciando ao mesmo tempo as objeções levantadas pela faculdade crítica as quais não permitiriam que emergisse o sentimento gratificante. O gracejo se vale de combinações de palavras ou das absurdas

109Os chistes e sua relação com o inconsciente, AE VIII, p. 149. 110Os chistes e sua relação com o inconsciente, AE VIII, p. 145. 111Os chistes e sua relação com o inconsciente, AE VIII, p. 90. 112

reuniões de pensamentos. Baseiam-se na satisfação de ter tornado possível o que era proibido pela crítica.

Ora, como vimos pelo exame dos chistes tendenciosos, os chistes são governados pelo esforço de evitar a crítica e de encontrar um substituto. São os métodos do jogo e do gracejo que estão presentes. Ele obtém prazer pela técnica do jogo e, ao mesmo tempo, precisa tomar cuidado com o veto da crítica que impede a expressão do sentimento prazeroso; para tanto, vale-se da técnica do gracejo. É de Kupermann (2003) a afirmação de que

[...] o chiste é, por seu turno, uma forma elaborada de jogo que tem sucesso em driblar a proibição; as repetições ecolálicas e as combinações absurdas adquirem, com o gracejo, um determinado formato de modo que, frente à faculdade crítica, passam a ter um sentido qualquer, sendo assim permitidos. O universo do gracejo coincidirá com o dos chistes “inocentes” ou não tendenciosos, cujos exemplos maiores são o trocadilho e o nonsense. O que se revela assim, através do gracejo, são as técnicas ou as formas verbais dos chistes, as fontes a partir das quais os chistes propriamente ditos – os chistes “tendenciosos” – fornecem prazer. A função exclusiva dos jogos e dos gracejos é, portanto, a produção de prazer.113

Nos chistes, quanto maior for o ciclo de idéias conectados com a mesma palavra, mais prazer ele provocará. Os jogos de palavras e de pensamentos precisam passar pelo exame da crítica; apenas assim as inibições internas são eliminadas e reabertas as fontes de prazer que elas haviam tornado incessíveis. Os métodos dos quais ele dispõe são a unificação, a similaridade de som, o uso múltiplo, a modificação de expressões familiares, as alusões, os nonsenses ou absurdo. Todos eles promovem uma economia no gasto psíquico. O riso ou a gargalhada, presente somente nos chistes tendenciosos, são o resultado de um duplo prazer, do que Freud denominou “bonificação de incentivo”, baseado no princípio fechneriano da “somatória de prazer”. Como exemplo, o insulto vem em seu auxílio. Segundo as normas culturais, ele não pode se consumar. Um bom chiste, então, pode usar o material verbal e conceitual usado para o insulto e liberar prazer de outras fontes que foram obstruídas pela sua supressão. Ele expressa propósitos hostis e agressividade contra os mais variados aspectos sociais, mas de uma forma socialmente aceita.

É o prazer preliminar que serve para iniciar a liberação de prazer. “O insulto portanto ocorre, já que o chiste o tornou possível. Mas o prazer obtido não é apenas o prazer produzido pelo chiste: é incomparavelmente maior. É tão superior ao prazer originário do chiste que devemos supor que o propósito, até aqui suprimido, tenha

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conseguido se expressar sem sofrer nenhuma diminuição”.114 O prazer preliminar consiste aí uma “isca de atração”, expressão de Freud. A isca é oferecida à crítica para obter a liberação de uma magnitude de prazer maior, oriunda de fontes que se tornaram acessíveis graças à ajuda dos ditos espirituosos. Toda energia que mantinha a inibição é descarregada pelo riso. Ela não pode encontrar outro uso que o da descarga motora e, para isso ocorrer, a pessoa que escutou o chiste precisa ter as mesmas inibições internas que aquela que contou. Assim, diz Freud, “todo chiste requer seu próprio público: partilhar o riso diante dos mesmos chistes evidencia uma abrangente conformidade psíquica”.115

Gonçalves (2004) acrescenta um aspecto relevante no estudo freudiano dos chistes. O chiste permitiria, a um só tempo, a elevação do sublime – possibilitada pela expressão de algo proibido – e a degradação do sublime. A degradação em questão repousaria sobre a desvalorização de algo sublime.