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Konflikter i forbindelse med prosjektet

A partir da perspectiva de que a liberdade é inerente à libertação, o agir é a sua realização. Este envolve o servir ao outro, o desenvolver ações em prol do seu semelhante. Contudo, isso não significa ser escravo do outro, não é meramente fazer o desejo discricionário, arbitrário dele. Mas é auxiliá-lo a ser livre naquela vontade que não nasce de

um anseio egoísta e sim da vocação do ser humano. O termo “serviço”, nessa perspectiva, é o ato de estar a serviço da vocação para a liberdade de outrem, e também de um diálogo constante para que não haja imposição ou domínio de nenhuma das partes, para que um não escravize o outro no exercício do servir.

A liberdade consiste em abrir diálogo com as “outras” pessoas, ainda não incluídas na convivência social. Nessa nova relação de amor há algo próprio, único. O ser humano não age como prisioneiro das estruturas sociais ou culturais, não age somente porque é conveniente agir assim. Cria o novo. [...] O serviço que o amor pratica tende a criar liberdade do outro [...] Servir-se mutuamente é ajudar a ser livre (COMBLIN, 2004, p. 89).

Assim, pode-se entender porque aqueles como Jesus Cristo, que praticavam o exercício da liberdade por meio do serviço a outrem, têm vida pública. Pois “o serviço projeta a pessoa humana na vida pública, ao envolver-se comunitariamente. Esse é o lugar em que a liberdade nasce e se desenvolve” (COMBLIN, 1998, p. 238). E essa liberdade demanda serviço devido ao fato de os “seres humanos serem corporais e repletos de necessidades materiais” (COMBLIN, 2004, p. 89). Isso significa que a liberdade implica em serviço recíproco e não apenas em convívio ou diálogo, pois sem serviço não existe amor genuíno.

Comblin também chama a atenção sobre o processo de libertação para o agir do Espírito Santo, o qual se revela na experiência de ação, liberdade, palavra, comunidade e vida.

O Espírito Santo é a força dada aos que não tem força. Conduz a luta pela emancipação e pela plena realização do povo dos oprimidos. O Espírito age na história e por meio da história. Não se substitui a ela, mas penetra nela por meio dos homens e das mulheres que são os seus portadores (COMBLIN, 1988, 228).

Por meio da ação do Espírito Santo87 o ser humano é impelido a servir ao outro por amor, a lutar pela liberdade do outro. Essa forma de pensar que Comblin defendia pode ser considerada relevante para se entender o porquê de, além teólogo e padre, ele ser considerado pedagogo também. Ele tinha na educação, principalmente na educação popular, um meio

87 Os atributos do Espírito dizem respeito a movimento - o Espírito é amor, é dom, é vida. Cf. (COMBLIN,

efetivo de orientar e despertar o Outro, oprimido, à libertação. Sebastião Gameleira Soares88 explica porque Comblin é considerado um pedagogo da seguinte forma:

Viveu da tarefa de formular pensamentos e teoria, suas aulas eram "monótonas", isto é, sua voz tinha sempre o mesmo tom, só as seguia quem era capaz de se encantar pelo conteúdo e não dependia tanto de "recursos didáticos", e ao mesmo tempo foi um dos maiores pedagogos que temos conhecido por sua capacidade de inspirar e suscitar iniciativas e comunicar às pessoas a perspectiva de se tornarem autônomas no pensamento e na ação. Foi "pedagogo", isto é, Guia para a descoberta da Verdade.

Todavia, muitas vezes essa liberdade é entendida pela sociedade capitalista como luta de maior espaço na vida privada. Leva muitos indivíduos a compreenderem que são livres somente no momento em que podem dedicar-se às atividades de lazer reservado, como artes, esportes, tempo com a família, e nesta forma de pensar pós-moderna a liberdade que inclui serviço em prol do outrem não encontra espaço.

A ideia de serviço é alheia aos nossos contemporâneos, porque a cultura oficial postula que todos os indivíduos são iguais, todos são auto-suficientes e, por conseguinte, podem e devem resolver seus próprios problemas sem ajuda de ninguém. Essa é a doutrina dominante no mundo ocidental (COMBLIN, 1998, p. 311).

Desse modo, Comblin aborda a dificuldade que o sujeito pós-moderno tem de compreender a ideia de serviço por este olhar de compaixão, de amor a outrem. Tecendo a investigação, por meio de diálogo entre as diversas obras referendadas, observa-se claramente o porquê de Comblin ter-se envolvido e ter trabalhado em prol de várias frentes da Educação Popular, tais como o Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST)89, por

88SOARES, Sebastião A. Gameleira & CAPPIO, Luiz Flavio. Comblin: pedagogo, profeta e santo. Em:

<http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=55358 > Acessado em: 22/07/2012

Quanto à questão de suas aulas serem monótonas e de só seguir quem se encantava pelo conteúdo, Clodovis Boff, ex-aluno do programa de doutorado em Louvain – Bélgica, afirma a informação numa conversa informal na Universidade Católica do Paraná (PUC/PR) no dia 14/06/2012.

89 Sugestão de leitura : MORISSAWA, Mitsue. A História da Luta pela Terra e o MST. Editora Expressão

Popular, 2006, p.256.

Também encontra-se disponível a Videoteca Virtual Gregório Bezerra organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra em parceria com o projeto Armazém Memória tem como proposta disponibilizar filmes e vídeos sobre a questão agrária brasileira, visando qualificar no conjunto da sociedade o

exemplo, causa que Comblin defendeu de forma contínua, por meio de contribuições científicas e de ações junto aos companheiros (COMBLIN apud SUSIN, 2001, p.379).

Logo abaixo transcrevemos a sua última mensagem aos companheiros de luta, como ele nominava, enviada em 22 de dezembro de 2010, cerca de três meses antes de sua morte. Ele escreve com certo „enredo poético realista‟90 a sua mensagem, desejando “Boas Lutas

para 2011”91:

ESTIMADOS COMPANHEIROS E COMPANHEIRAS A humanidade é um longo processo de procura do ser humano,

a caminhada da humanidade em busca de si mesma.

Não é um processo de continuidade, porque há o fenômeno das gerações e porque a história é um combate entre as forças que avançam e as

forças que resistem.

A história é luta. Cada geração tem obrigação

de fazer a luta, a sua luta. (Pe. José Comblin, teólogo)

Observa-se a arte em forma de poesia, pois é assim que Comblin buscou transmitir muitas vezes as suas mensagens. O importante ao teólogo era fazer-se entendido. A linguagem também contribui para libertar.

debate sobre a reforma agrária no Brasil. Em: < http://www.armazemmemoria.com.br/cdroms/videotecas/ MST/index.htm> Acessado em: 31/07/2012.

90 Para aqueles que se interessam por este assunto as obras de Pedro Lyra, é uma opção.

91 COMBLIN, José. Boas Lutas em 2011. Em: < http://www.mst.org.br/cartao-de-natal-2010-e-ano-novo-do-

A linguagem torna possível não só a elevação sobre as injunções que vêm do mundo, onde a linguagem está situada, mas também a liberdade em relação aos nomes que damos às coisas. Com a liberdade do meio ambiente se dá também a capacidade lingüística livre do homem enquanto tal e, com isso, o fundamento para a multiplicidade histórica da linguagem humana em relação ao único mundo: exatamente porque o homem é capaz sempre de se elevar acima de seu meio ambiente sempre contingente e explicitar isso linguisticamente, é dada a ele a liberdade no exercício de sua capacidade de falar. Só o homem, portanto, é capaz de se elevar ao mundo, enquanto animal só tem meio ambiente. Isso não significa para o homem um deixar o meio ambiente, mas ser capaz de ter uma posição diferenciada em relação a ele, ou seja, em comportamento livre, distanciado. Linguagem tem a ver com liberdade também no sentido das diferentes possibilidades de dizer a mesma coisa (OLIVEIRA, 1996, p. 237- 238).

Nesse aspecto, sua bioblibiografia demonstrou como ele conseguia transitar entre vários ambientes distintos, expressando-se de forma poética, criativa, ou sendo crítico acirrado e expondo seu pensamento à sociedade, às autoridades, não se calando diante das injustiças e batalhando pela liberdade dos seres humanos. Quando questionado, por exemplo, em uma entrevista sobre a reforma agrária como projeto de um desenvolvimento sustentável, Comblin disse que: “a reforma agrária está abandonada. Ela pressupõe uma reforma na sociedade, pois não basta a terra. É preciso reeducar os camponeses, para que possam produzir coisas que tenham mais valor” (COMBLIN, 2007) 92.