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O processo de “batida em retirada” do Estado com relação às questões socioeconômicas e da promoção de direitos sociais a duras penas conquistados ao longo da história recente resulta naquilo que Z. Bauman bem qualificou como a disseminação

de uma “economia política da incerteza”.

A economia política da incerteza é o conjunto de ‘regras para pôr fim a todas as regras’, imposto

pelos poderes financeiro, capitalista e comercial extraterritoriais sobre as autoridades políticas locais (2000:177-175).

O famoso Acordo Multilateral de Investimentos (AMI), proposto em meados dos anos 1990, a Área de Livre-Comércio das Américas (ALCA), ou as políticas draconianas do Consenso de Washington, foram algumas das suas expressões mais bem acabadas, ainda que com graus variados de efetiva realização prática.

Leda Paulani (2008:122-123) identifica neste processo uma prática de transferência do risco capitalista “do capital para o trabalho” promovido pelo neoliberalismo. Na sociedade contemporânea – ou na modernidade tardia se preferirmos

–, esta é apenas mais uma dimensão da financeirização da economia em função da

recuperação das taxas de lucro, hoje muito mais facilmente obtidas no mercado financeiro do que na esfera da produção.

Medidas como a terceirização, o contrato por tempo parcial e o trabalho com autônomo buscam não só a redução dos poros da jornada de trabalho, como a repartição, com a força de trabalho, do risco capitalista. (...) Todos esses expedientes visam reduzir os gastos com mão-de-obra e recuperar as taxas de lucro, num contexto em que as possibilidades de ganho financeiro são substantivas [grifo nosso].

O peso destas decisões recai direta ou indiretamente sobre as pessoas como mais uma dimensão da individualização e da reflexividade atuais, ampliando a dependência com relação à informação originada nos discursos técnicos apresentados acriticamente nos grandes meios de comunicação. A justificação técnica para medidas politicamente draconianas segue sendo alvo de denúncias por serem responsáveis por crises econômicas, alta do desemprego, quebra de confiança na economia, etc., que recaem novamente sobre as pessoas comuns num ciclo perverso de aprofundamento da vulnerabilidade socioeconômica.

O deslocamento atual da gestão previdenciária do Estado para o indivíduo é apenas um dos aspectos que contribui para a atual radicalização da chamada gestão pessoal do futuro. O indivíduo contemporâneo vive uma responsabilidade antecipada sobre o seu futuro, pela necessidade de tentar escapar do possível risco de não ter uma velhice economicamente segura. Como consequência da criação desta necessidade, ele entra em relação de dependência com o mercado de riscos e seguros, que passam a ser os gestores privados do seu futuro.

Todo este quadro analítico aponta para o fato de que a individualização – como resultante da relação dinâmica entre cultura objetiva e cultura subjetiva – vem se tornando um estilo de vida coletivo na medida em que as sociedades passam a valorizar culturalmente cada vez mais a conduta individualizada.

Assistimos de fato à emergência de uma racionalidade econômica

“descoletivizada”, ou, como preferimos chamar, à difusão de uma cultura econômica

profundamente individual, donde também todo louvor do mainstream econômico aos discursos de promoção das capacidades individuais de empreendedorismo e da livre iniciativa individual.

Todo o período de capitalismo neoliberal após meados dos anos 1970 foi marcado por uma luta do capital para livrar-se dos encargos sociais, deixando a população buscar suas próprias maneiras de adquirir e pagar serviços. A maneira como nós nos reproduzimos é, segundo poderosas vozes de direita na política e na mídia, uma questão de responsabilidade pessoal, não obrigação do Estado (Harvey, 2011:214).

Trata-se, no limite, de uma transformação nas formas de sociabilidade e de construção de si que, amplamente compartilhada ao longo do tempo, converte-se numa espécie de habitus coletivo (se pensarmos nos termos de P. Bourdieu, como disposições

sociais estáveis e duradouras), que converte tal estilo individual em um modo de organização da vida culturalmente valorizado, inclusive em termos de uma valorização

social da tomada de riscos. No plano financeiro, as relações atuais entre economia e

sociedade se expressam neste estilo de vida em franca difusão, que apresenta consequências extremamente perigosas, como o incentivo ao comportamento especulativo, a tomada do maior risco pela expectativa de obtenção do maior e mais rápido lucro, e o aumento do poder político das chamadas agências de avaliação de risco.

Através de uma variedade de “técnicas que aspiram a tornar o incalculável em calculável”24

, estas agências passam a classificar países segundo um ranking de risco que se converte no próprio objetivo último de países periféricos, como o Brasil: reduzir

o seu “risco-país” e receber destas agências o prêmio de bom comportamento com a

elevação do seu status para o assim chamado Investment Grade – ainda que isto signifique ter que deixar de investir bilhões em saúde, educação, saneamento básico, segurança, etc., para cumprir com as metas de superavit primário.

Entretanto, como puderam verificar recentemente as sociedades grega, portuguesa, espanhola, islandesa, dentre outras, nos piores casos uma baixa na classificação de risco pode deslanchar ou acelerar a crise financeira de um Estado com base em especulações sobre o futuro, sem que essa crise seja economicamente justificável (Lévy-Lang, op.cit.:181). Já no caso dos países considerados como muito pobres ou extremamente endividados, estes ficam excluídos do grande mercado de capitais por serem considerados como excessivamente arriscados (Raffinot, 2008:20).

24

Podemos perceber desde já que a autonomização da forma cultural do dinheiro perante a humanidade que lhe deu origem assume diversas facetas: pode-se analisá-la através da circulação do próprio dinheiro, da estrutura da dívida, da venda da força de trabalho, da extração de mais-valia, da produção e comercialização de qualquer mercadoria, apenas para citar alguns exemplos. As entradas interpretativas neste debate são múltiplas.

O que observaremos com mais detalhe no capítulo a seguir é o processo econômico, político e social que culminará na radicalização desta relação de autonomização da esfera financeira. Colocando a questão em termos simmelianos, no próximo capítulo buscaremos apresentar uma visão geral de como chegamos ao momento atual, marcado fortemente pelo que poderíamos denominar como a tragédia

da cultura econômica, quando a humanidade encontra-se frente a esta sua criação

CAPÍTULO III