Não existe uma regra sobre o número de casos ideal em pesquisas qualitativas (FLYNN et al. 1990; PATTON, 2002). Yin (2005) sugere um número entre 4 a 10 casos. Já para Voss, Tsikriktsis e Frohlich, (2002), quanto menor o número de casos, mais aprofundada tende a ser a coleta e a análise dos dados. Outro fator a ser considerado em estudo de casos múltiplos diz respeito ao elevado nível de recurso demandado do pesquisador, como tempo despendido e recursos financeiros. A limitação oriunda do menor número de casos pode ser superada se as organizações selecionadas para a investigação forem representativas do fenômeno investigado.
Nesta pesquisa foram investigadas seis empresas, de diferentes setores industriais. A principal justificativa para a não limitação em um setor específico está no próprio grau de maturidade do tema em análise, estando em fase exploratória. No montante de trabalhos levantados com a Revisão Sistemática da Literatura, não foi possível observar destaque para pesquisas em um setor específico. O trabalho de Farndale, Paauwe e Boselie (2010) é um exemplo nesse sentido. Os estudos de casos foram realizados em empresas do setor químico, farmacêutico, serviços financeiros, tecnologia da informação e transporte. Ademais, não se pretende generalizar os resultados obtidos, o que estaria em desacordo com o método escolhido (PATTON, 2002).
A seleção das empresas foi realizada por conveniência, com caráter não probabilístico. Nesta forma de seleção, o pesquisador seleciona as unidades de análise a que tem acesso, sendo indicada em pesquisas exploratórias (BRYMAN, 1989). No entanto, Patton (2002) atenta para o risco da amostragem por conveniência: a escolha de unidades que não contribuam com a pesquisa pelo fato do pesquisador levar em conta apenas os critérios limitadores de tempo e custo. Consequentemente, é necessário estabelecer os parâmetros da amostra. Os parâmetros utilizados nesta tese para a escolha das empresas foram:
1) Empresas industriais: posto que o referencial teórico utilizado na tese demonstrou predominância de foco nas discussões e investigações empíricas em empresas de transformação;
2) Empresas de médio ou grande porte4: esse critério relaciona-se com a questão da integração interna e também com a maior possibilidade de realização da Gestão da Cadeia de Suprimentos, inclusive com a existência do cargo de “Gestor de Cadeia de Suprimentos”. Sobre a integração interna, a literatura aponta que organizações de maior porte possuem uma estruturação funcional melhor definida e são naturalmente mais complexas (OLIVEIRA, 2013). Por isso, tendem a ter maiores dificuldades para alinhamento e colaboração entre as áreas funcionais (BASNET, 2013);
3) Empresas que realizam a Gestão da Cadeia de Suprimentos: seja com a designação do cargo de “Gestor de Cadeia de Suprimentos” ou função equivalente. Entende-se por “função equivalente” o caso de empresas que designam a função de gerenciar a cadeia de suprimentos para gestor de alguma outra área funcional. A justificativa desse critério está no fato desse estudo ter sua ênfase na melhoria da integração interna para a Gestão da Cadeia de Suprimentos. Sendo assim, torna-se crucial a obtenção de informações, percepções e opiniões daqueles diretamente relacionados com essa função;
4) Empresas que possuem o departamento de Recursos Humanos: esse critério se relaciona com a questão das práticas de RH. A literatura específica demonstra que, entre as práticas de RH executadas por esse departamento, parte delas é destinada à aplicação e ao acompanhamento dos profissionais com funções relacionadas à Gestão da Cadeia de Suprimentos (GROßLER; ZOCK, 2010; KAHN et al., 2013). Ademais, entre os propósitos da pesquisa, está também discutir os benefícios da proximidade entre ambas as áreas (Recursos Humanos e Gestão da Cadeia de Suprimentos) para a melhoria da Gestão da Cadeia de Suprimentos em geral.
Em alguns casos a primeira abordagem se deu com profissionais de outros setores da empresa, por meio da indicação de terceiros e também de contato prévio da pesquisadora. Os mesmos foram abordados por e-mail, acompanhado de uma carta de apresentação da pesquisa (Apêndice A). Obtido o contato direto com os profissionais ligados à Gestão da Cadeia de Suprimentos e com a área de Recursos Humanos, novamente foram enviados e-mails e realizados telefonemas apresentando a pesquisa e solicitando o agendamento das entrevistas. Entre o período de contato inicial com as empresas até a finalização da captação dos dados
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Quanto ao número de empregados, de acordo com o Critério de Classificação de Empresas do Sebrae. Para a indústria: (i) médio porte: de 100 a 499 empregados e (ii) grande porte: acima de 500 empregados.
(entrevistas, observação direta, visita à fábrica), a pesquisa de campo teve duração de 5 meses: de Setembro de 2015 a Fevereiro de 2016.
As seis empresas pesquisadas são representativas nos mercados nacionais e/ou internacionais nos quais atuam. O Quadro 12 sintetiza as características fundamentais de cada uma delas. A fim de garantir o anonimato das empresas e profissionais entrevistados, sendo essa uma das condições para o aceite de participação na pesquisa, as mesmas serão denominadas como “Empresa”.
Quadro 12 - Características das empresas pesquisadas
Caso Setor de atuação funcionários* Número de Faturamento anual Mercados de atuação
Empresa 1 Usina de açúcar e álcool 3.500 R$ 1,5 bilhão 20% nacional 80% externo Empresa 2 (carne bovina) Frigorífico (12.200 grupo) 2.500 R$ 7,5 bilhões 25% nacional 75% externo Empresa 3 (confeitos e snacks) Alimentos 2.000 R$ 480 milhões 80% nacional 20% externo Empresa 4 Máquinas agrícolas (3.200 grupo) 1.280 R$ 800 milhões 70% nacional 30% externo Empresa 5 Embalagens plásticas (500 grupo) 350 Não informado 100% nacional Empresa 6 Eletroeletrônico 300 R$ 90 milhões 90% nacional 10% externo Nota: * considerando a unidade pesquisada
Fonte: elaborado pela autora
A ordem de apresentação dos resultados no Capítulo 4 segue a sequência de empresas desse quadro, cujo critério considerado é porte da unidade pesquisada, desconsiderando-se o número de funcionários total do grupo. Isso porque embora tenham uma gestão corporativa na matriz (Empresas 2 e 4), observou-se durante as entrevistas discrepâncias na forma como a Gestão da Cadeia de Suprimentos é gerenciada entre as diferentes unidades produtivas, havendo uma certa autonomia hierárquica e gerencial.