Muito recentemente, Armon-Lotem et al. (2012) descreveram um estudo feito em larga escala, desenvolvido no âmbito do projeto COST ACTION A33 (Crosslinguistically Robust Stages of Children's Linguistic Performance), que engloba onze línguas: catalão, grego cipriota, dinamarquês, holandês, inglês, alemão, lituano, polaco, estónio, finlandês e hebraico.
O intuito dos autores é fornecer uma resposta a questões várias que permanecem abertas a discussão, não obstante todos os estudos anteriormente realizados. Pretendem assim estudar questões relacionadas com a idade de aquisição, a distinção passiva curta/passiva longa e os possíveis efeitos (fatores específicos) da própria língua.
Os autores justificam a necessidade deste estudo com a falta de um guia metodológico para estudar a aquisição de passivas. Tal necessidade relaciona-se essencialmente com o facto de a passiva colocar problemas a crianças com perturbações específicas da linguagem e de ser usada em testes de diagnóstico de desenvolvimento da linguagem.
Os autores começam por caracterizar universalmente a construção passiva, reconhecendo-lhe as seguintes características:
i. promoção do argumento paciente e “apagamento” do argumento agente ii. existência da ordem não canónica de constituintes
iii. existência de morfologia verbal específica iv. redução de um argumento, tornando-o oblíquo.
Nas línguas alvo do estudo, a passiva surgia em estruturas com ordem SVO, havendo concordância entre sujeito e verbo, exceto em inglês e em dinamarquês. Seis das línguas analisadas são pro-drop.
A experiência consistiu na aplicação de um Teste de Seleção de Imagem, em que as crianças tinham de identificar a imagem (de entre quatro disponíveis) que
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correspondia à frase ouvida. Em todas as imagens114, havia três personagens. Uma
imagem mostrava a personagem correta a realizar a ação (resposta – imagem alvo); outra mostrava o paciente (de acordo com a frase ouvida) a realizar a ação (resposta - imagem inversa); a terceira apresentava uma outra personagem agente implicada na ação, que não era sequer referida na frase que as crianças ouviam (resposta – imagem 3º agente); e na última imagem nenhuma personagem desempenhava qualquer ação (resposta – imagem neutra).
A experiência explora a habilidade das crianças de cinco anos para compreender passivas (curtas e longas) e ativas. Quer as respostas corretas quer as incorretas são analisadas pelos autores, que tentam apurar uma justificação para as dificuldades. Algumas das hipóteses previamente adiantadas relacionam-se com as propriedades do agente da passiva, as propriedades dos marcadores morfológicos, a frequência da passiva no input e os efeitos da especificidade da estrutura passiva.
Os resultados dos estudos feitos nas onze línguas foram os que se apresentam na Tabela 5. Note-se que em estónio, finlandês e grego cipriota não existem passivas longas.
Passiva curta Passiva longa
Estónio Ativa 95.19 -
Passiva 96.47 -
Finlandês Ativa 91.35 -
Passiva 97.12 -
Grego cipriota Ativa 93.98 -
Passiva 83.61 - Catalão Ativa 97.44 97.76 Passiva 84.62 33.65 Dinamarquês Ativa 92.31 94.23 Passiva 93.31 86.22 Holandês Ativa 92.31 90.11 Passiva 94.46 81.68 Inglês Ativa 87.18 94.65 Passiva 79.17 84.28 Alemão Ativa 93.73 93.49 Passiva 96.87 80.77 Hebraico Ativa 98.40 94.87 Passiva 92.63 60.90 Lituano Ativa 89.10 85.26 Passiva 82.37 45.51 Polaco Ativa 96.29 91.25
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Passiva 95.23 82.49
Tabela 5. Resultados do estudo experimental nas 11 línguas (adaptado de Armon-Lotem et al. 2012).
Depois de analisados os resultados, Armon-Lotem et al. (2012) verificam que as crianças têm mais facilidade com a passiva curta do que com a longa. Relativamente à primeira, em todas as línguas as crianças conseguiram obter um desempenho ao nível do adulto, ou seja, superior a 75%.115 No que diz respeito à passiva longa, em catalão,
hebraico e lituano, o desempenho das crianças fica bastante aquém do desempenho do adulto.
Uma análise item a item revela que os erros não se restringiram a um conjunto particular de itens. A análise individual dos sujeitos mostra que os padrões de erro se concertavam num grupo pequeno de crianças. No entanto, removendo os outliers, o efeito é mínimo.
Nos casos em que as crianças não forneciam a resposta adequada, optavam maioritariamente pela imagem que representava a situação inversa. A opção por essa resposta revela que as crianças percebem a atividade descrita, mas ao mesmo tempo salienta a dificuldade em interpretar o paciente que se assume, sintaticamente, como sujeito da frase. A criança mapeia o papel de agente na posição de sujeito, mostrando não compreender a passiva. Fica patente a falta de habilidade para manipular dois argumentos em vez de um. Neste sentido, a interpretação como adjetival ou inacusativa não ajuda a criança. Deste modo, a variação entre línguas fica por explicar.
Depois de analisados os resultados e apresentadas as caraterísticas de cada uma das línguas em estudo, os autores concluem que a variabilidade na ordem de palavras e a experiência com o mapeamento entre redução argumental e morfologia passiva na passiva impessoal, adjetivos resultativos e inacusativos nas várias línguas podem ajudar a compreender o sucesso das crianças na interpretação da passiva curta. A experiência com ordem de palavras flexível e com redução argumental também é necessária para interpretar a passiva.
Relativamente à preposição que introduz o agente da passiva, é usada em todas as línguas, exceto em lituano. Em todas, exceto em hebraico, há ambiguidade entre o seu uso no agente da passiva e o seu uso nas ativas como locativo ou possessivo. Em
115 Como veremos na secção 3.1.1, em português europeu, as passivas longas e curtas (com verbos
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hebraico, a preposição é unicamente usada na passiva, apesar de ser derivada da preposição locativa e de ser fonologicamente semelhante.
Na passiva, a preposição assume um papel de relevo na transmissão do papel temático. A criança tem de saber que a preposição tem diferentes significados estando na ativa ou na passiva; tem de aprender que na passiva assume uma função gramatical, licenciando o grupo nominal através da transmissão do papel temático de agente.
2.7.1 Resumo da secção
As conclusões mais significativas que advêm deste estudo são as seguintes: na maior parte das línguas a passiva longa é mais difícil do que a passiva curta; as respostas erradas (inversa) mostram a preferência pela ordem canónica de palavras como estratégia quando as crianças não entendem a passiva; as dificuldades com passivas curtas não se devem às propriedades da by-phrase nem à frequência no input, mas sim à exposição a construções semelhantes morfológica e sintaticamente e à experiência com flexibilidade na ordem de palavras (resultativos e inacusativos em hebraico); aos cinco anos, a preposição e o auxiliar já não causam dificuldades; e há ainda grande variação na compreensão de passivas curtas e longas.