• No results found

O envolvimento com a criminalidade e uso de drogas é apontado pelos colaboradores como algo diretamente relacionado às suas realidades de vida. O crime faz parte de suas vidas e da vida de muitos de seus familiares, colegas e vizinhos. Trata-se de algo comum nos bairros onde vivem e que exerce forte influência sobre suas vidas.

Quando eu crescer eu quero ser igual o meu tio, entende? Porque eles tinham fama, via mulher perto deles, mulherada, moto, carro, ninguém roubava nossa casa, se roubasse poderia até morrer, ninguém agredia nós (Voz de colaborador).

Ele fez um homicídio e nesse homicídio que ele fez, pra mim, eu achei que ele ficou respeitado, eu e meus primos, nossa o Nato matou um cara, falava o nome dele e todo mundo tinha medo...

(Voz de colaborador).

Meu próprio vô, morreu agora, ele tinha dois homicídios e o velho nunca foi preso, ele mesmo falava pra nós o dia que um homem bater na sua cara você mata (Voz de colaborador).

Só que nunca dei orelha pra ela, entrei na vida do tráfico não por necessidade, porque eu cresci ali, né?, no mundo de tráfico, num bairro que sempre foi ali... (Voz de colaborador).

No meu bairro é assim: a molecada tem quatro, cinco geração do crime lá (Voz de colaborador).

Mas dentro de um bairro com 40 mil pessoas, que praticamente todo mundo faz isso, qual a possibilidade dele ser diferente? (Voz de

colaborador).

Afirmam, contudo, que aprenderam com a experiência de terem se envolvido com o crime e de estarem cumprindo pena e que pretendem usar tais experiências na tentativa de prevenir que seus filhos tracem caminhos similares aos seus.

Se o pensamento que a gente tem hoje tivesse lá atrás eu certamente não estaria atrás dessas grades (Voz de colaborador).

Porque o que eu passei eu tô tentando passar para ele [o filho], que não é assim que funciona, vou vender uma droga aí, vou pegar o dinheiro pôr no bolso e pá. Não, não é assim, na hora é uma beleza, mas e depois? (Voz de colaborador). O filho da gente, se eles não tiver uma educação, eles vão passar por isso no futuro também, poder ter um filho que vai envolver com droga. Agora, se a partir de agora ele tiver uma formação na escola, essas palestras, eles vão saber como lidar com um filho drogado (Voz de colaborador). Esses dois conjuntos de falas dos colaboradores revelam uma contradição: esperam que suas experiências sirvam de lição para seus filhos, porém apontam que a proximidade com a criminalidade em suas vidas constituiu-se como fator de influência para a realização de suas práticas criminosas. O que depreende-se destas falas é que mesmo tendo ciência das influências familiares e de bairro na adesão a práticas criminosas, eles nutrem a esperança de que com seus filhos os caminhos podem ser diferentes e desejam poder contribuir para que isso aconteça. A última das falas evidencia a expectativa que depositam na formação escolar de seus filhos para impedir que estes se envolvam com as drogas e com o crime.

Compondo esse cenário complexo de influências que impulsionam o envolvimento com as drogas e com a prática criminosa, pesa também o desejo por almejar bens materiais e status.

Você quer aquilo rápido, você não quer ficar pra trás, porque parte pro seu ego, todas as pessoas a minha volta numa boa casa, num bom carro, eu quero aquilo rápido, porque o ser humano sai da casa dele, se ele veste um sapato, ele não veste para ele, isso você pode ter certeza, ele não veste para ele. Tudo o que a gente vive, que a gente é que a gente demonstra é para os outros, nunca é para a gente (Voz de colaborador).

É o ego, eu faço, eu sou, eu faço e aconteço, eu tenho dinheiro, é o ego, tô confortável, tenho mulher (Voz de colaborador).

[O crime] nunca compensou, mas o que acontece, a gente quer cortar atalho véio (Voz de

colaborador).

Esses anseios apontados refletem a atual sociedade do consumo na qual se vê prevalecer o ter sobre o ser. Consumir é uma necessidade para ser aceito, pois a posse e ostentação de bens são símbolos de sucesso e admiração. Essa lógica é impulsionada pelas mídias que incitam o desejo pela aquisição de bens materiais e nutrida por uma produção de coisas que duram cada vez menos. Agravando esse cenário, existem inúmeras propagandas especificamente direcionadas para crianças e adolescentes, que muitas vezes não têm maturidade, nem idade, para refletir e discernir sobre as intenções e significados dessas mensagens. Existe um projeto de lei que proíbe a publicidade dirigida à criança e regulamenta a publicidade dirigida a adolescentes (PL 5921/01), porém esse projeto tramita no Congresso Nacional há quase 15 anos. Cabe, portanto, também a escola assumir esse debate valorativo da vida. É necessário que no espaço escolar os alunos sejam estimulados a refletir sobre quem são e quem almejam ser, assim como o que de fato precisam ter. Precisam ser estimulados a pensar criticamente suas relações com o ato de consumir.

Em meio a todo esse universo de influências, a escola é apontada como um dos espaços onde ocorre a aproximação dos jovens com as drogas e, por conseguinte, com a criminalidade.

Então eu acredito que a marginalidade, eu acredito que o tráfico, que o roubo está muito associado a educação, isso não tem a menor dúvida

(Voz de colaborador).

A escola mesmo ela tem muito a incentivação do crime por causa disso, porque o que acontece, porque talvez ele conhece um cara que é filho de um cara do crime, e seu filho estudar ali, é colega dele, seu filho não é envolvido, mas aquele moleque começa a levar maconha para o seu filho, aquele moleque começa a levar cocaína (Voz

de colaborador).

Tinha tráfico na porta da escola [pública] (Voz

de colaborador).

Primeiro tráfico de maconha da molecadinha foi dentro da escola (Voz de colaborador).

Aí foi onde que eu dei o primeiro traguinho na maconha, dentro do banheiro da escola (Voz de

colaborador).

Aí ó esses trouxas estuda, mas não tem nem trabalho, rala o mês inteiro aí, seguinte vamos mostrar como é que é a coisa mesmo (Voz de

colaborador).

Tem cara da facção que está na escola (Voz de

colaborador).

Resolvi cortar um atalho ali e abandonei os estudos. Hoje estou preso (Voz de colaborador). Não é novidade que grande parte dos jovens fazem seu primeiro contato com as drogas no contexto escolar: seja nas dependências da escola, em seus arredores, ou em outros locais porém na companhia de colegas de escola. Isso não significa que a escola é a culpada pelos jovens se envolverem com as drogas. Na verdade, tal situação está associada ao fato da escola se constituir como um dos principais espaços de encontro e socialização dessa juventude. A reflexão que tais depoimentos despertam é: o que as instituições escolares tem feito para lidar com essa realidade posta? Campanhas contra as drogas, que demonizam seu uso não estão se revelando como estratégias eficiências. Se considerarmos que a maior parte das pessoas em situação de privação de liberdade cometeram crimes associados ao tráfico e uso de drogas esse discussão se faz ainda mais urgente.

No início de seu artigo intitulado Drogas na escola: prevenção, tolerância e pluralidade, Carlini-Cotrim (1998) faz um breve e interessante panorama sobre alguns estudos que analisam criticamente os contextos históricos associados às medidas de coibição ao uso de drogas nos EUA - as chamadas “guerra às drogas” - como fenômenos associados a processos de exclusão social. A partir desses estudos, a autora evidencia que os movimentos contra as drogas não são movidos exclusivamente pelo impacto danoso dessas substâncias à saúde e que pessoas genuinamente preocupadas com o bem estar de usuários de droga muitas vezes estão a serviço, sem perceber, de interesses políticos que não necessariamente compactuam. Nesse sentido, ela afirma que:

a escola – pressionada para ser intransigente, eficiente e rápida diante de um problema que se acredita cada vez mais fora do controle – tem sido palco privilegiado dessas atuações, algumas vezes quase grotescas, desenvolvidas muitas vezes por profissionais mais aflitos do que propriamente cientes do que estão fazendo (Carlini-Cotrim, 1998, p. 19).

Nessa mesma linha de reflexão, um dos colaboradores fez a seguinte problematização:

Então olha essa situação, desde quando a sociedade se entende por sociedade se ouve falar de droga, mas olha que incrível, em pleno século XXI, modernidade... a família ainda não consegue entender o que é o vício, o que é a droga, e como lidar dentro de casa (Voz de colaborador). As escolas, assim como as famílias, ainda não aprenderam a lidar com as drogas e com os problemas dela decorrentes. O controle e vigilância não têm se mostrado estratégias eficientes para contenção do uso. É necessário compreender o interesse e curiosidade humana pelo uso das drogas e trazer esse tema para as salas de aulas e atividades escolares de modo a propiciar o desenvolvimento da autonomia dos alunos também em relação a essa escolha. Esse é um assunto que a escola precisa urgentemente assumir e discutir com seus alunos de maneira madura, sem dramatizações.

Ao estudar as relações entre educação e violência, inclusive a escola como produtora de violência, Abramovay (2008) destaca o fato dos estudantes não estarem envolvidos na discussão dos principais problemas que acontecem no cotidiano escolar, fazendo com que eles não se sintam sujeitos do que acontece na escola, apesar da maioria dos assuntos estarem diretamente relacionados a eles. Para a autora, a imposição de regras e normas se converte em problemas no espaço escolar, gerando conflitos e violência. Isso ocorre pois, por não fazerem parte da discussão que envolve sua determinação, não compreendem muitas das regras e nelas não se reconhecem. Nessa perspectiva, a autora enfatiza que a determinação de regras é indispensável para a boa convivência, porém para que sejam aceitas e respeitadas devem ser fruto de uma construção coletiva, baseada no diálogo e que envolva os alunos.

Trazendo essa reflexão para o contexto do uso de drogas na escola, Carlini-Cotrim (1998, p.29) defende que deve-se substituir “o enfoque disciplinador da guerra às drogas por uma ênfase na formação do jovem, tido como capaz de discernir e optar, e como alguém que tem o direito de ser informado idoneamente sobre questões que dizem respeito ao seu cotidiano”. Nessa lógica, afastar as drogas dos jovens implica embrenhar- se em uma luta sem fim, pautada na violência, na proibição, no controle e nas punições. O ideal é afastar os jovens das drogas, pois esse entendimento pressupõe a ação ativa a partir do acesso à informação, consciência crítica e autonomia para decidir e escolher.