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2. METODE

3.5. KOMPETANSE

Antes de chegarmos à problemática da identidade homossexual, faremos uma breve explanação sobre preconceito, estereótipo e estigma, noções necessárias para se compreender de que modo pessoas homossexuais constroem sua identidade e, por conseguinte, sua auto-imagem.

Estereótipo, a grosso modo, se refere a um “pacote fechado” de idéias, ou de saberes que assumimos serem verdadeiros – aprioristicamente – para toda uma classe de pessoas. Resulta em um pré-julgamento generalizante, haja vista que os tais saberes não são necessariamente válidos para todos os

membros daquela classe. É uma tendência à padronização de determinados grupos sociais, eliminando as diferenças individuais. Estereótipo e preconceito estão em íntima relação. Todo preconceito mais ou menos generalizado tem um cerne estereotipado.

Agnes Heller afirma que os

(...) juízos provisórios refutados pela ciência e por uma experiência cuidadosamente analisada, mas que se conservam inabalados contra todos os argumentos da razão, são preconceitos. Os preconceitos (…) são produtos da vida e do pensamento cotidianos. (HELLER, 2004, p. 47)

Segundo essa autora, os preconceitos não se desfazem por meio da razão, pois existe uma fixação afetiva no preconceito que não se desfaz à luz de argumentos, por mais sólidos e pertinentes que sejam. Ainda segundo Heller, há dois tipos de afeto que podem nos ligar a uma convicção ou opinião: a fé e a confiança. Para ela, o afeto do preconceito é a fé21, que nasce de uma particularidade individual. Enquanto a confiança se apóia no saber, a importância da fé, no âmbito do preconceito, é a própria relação que estabelecemos com o objeto dela e a necessidade que ela satisfaz. Isso aparece de forma bastante intensa nos preconceitos, pois crer em um nos protege de conflitos e confirma nossos posicionamentos anteriores. A confiança pode desaparecer, se for refutada pelo pensamento e pela experiência, mas “(...) a fé está em contradição com o saber, ou seja, resiste sem abalos (..) ao pensamento e à experiência que a controlam”. (HELLER, 2004, p. 48)

Em relação à fé, há sempre uma polarização de amor e ódio. O ódio se dirige não somente àquilo em que não acreditamos, mas principalmente àqueles que não compartilham da mesma fé que temos. Por isso, a “intolerância emocional é uma conseqüência inevitável da fé” (HELLER, 2004, p. 49)

Os preconceitos podem ser individuais ou sociais, mas de forma geral, qualquer preconceito tem origem social, pois nós o assimilamos de nosso meio social e o aplicamos de forma espontânea a situações particulares e concretas de nossa vida. A esfera de qualquer tipo de preconceito é a vida cotidiana e, por mais disseminado que seja, ele também depende de uma escolha

individual – podemos nos apropriar ou não de um preconceito –, o que nos torna pessoalmente responsáveis pelos preconceitos que mantemos ou cultivamos (HELLER, 2004).

Há mais duas considerações de Agnes Heller que nos interessam no presente contexto. Uma diz respeito à forma como agem pessoas predispostas ao preconceito, classificando e rotulando uma pessoa, enquadrando-a numa estereotipia de grupo, ainda que isso signifique desconsiderar atributos individuais que nada tenham a ver com os considerados “próprios” do grupo (HELLER, 2004). A outra está relacionada ao efeito limitador que todo preconceito tem sobre a autonomia e a liberdade de escolha das pessoas que são alvo dele, “(...) ao deformar e, conseqüentemente, estreitar a margem real de alternativa do indivíduo” (HELLER, 2004, p.59)

Com isso, já nos é possível falar sobre o estigma. Em sua origem, na Antiguidade Clássica, a palavra estigma era utilizada para designar uma marca corporal que era aplicada a alguém a quem se devesse evitar, como um escravo fugitivo, um criminoso etc. Na Era Cristã, o estigma também poderia ser um sinal corporal de graça divina ou uma alusão médica a um defeito físico. Posteriormente, a mesma palavra voltou a ser empregada como sinal de degradação. (GOFFMAN, 1988).

Um estigma é um atributo que uma pessoa tem e que a torna diferente das outras pessoas, mas trata-se de uma diferença que a coloca em situação de inferioridade ou descrédito. Segundo Goffman, o estigma seria um tipo especial de relação entre atributo e estereótipo, uma marca desqualificadora. Uma de suas principais características, além de depreciar a pessoa que é estigmatizada, é assumir uma relevância maior do que qualquer outro atributo que a pessoa possua. (GOFFMAN,1988). Os estigmas podem ser de três tipos: os relacionados a defeitos físicos, os relacionados a defeitos morais, e os estigmas de raça/etnia, nação e religião.

A pessoa estigmatizada muitas vezes pressente que não é aceita e que as outras pessoas não manterão com ela relações de igualdade. Mais ainda, segundo Goffman, para esse indivíduo

(...) os padrões que ele incorporou da sociedade maior tornam- no intimamente suscetível ao que os outros vêem como seu

defeito, levando-o inevitavelmente (...) a concordar que, na verdade, ele ficou abaixo do que realmente deveria ser. A vergonha se torna uma possibilidade central, que surge quando o individuo percebe que um de seus próprio atributos é impuro e pode imaginar-se como um não-portador dele.

(GOFFMAN,1988, p. 17)

Uma pessoa pode ter um estigma visível, como cor da pele ou defeito físico, o que a torna automaticamente ‘desacreditada’. Já aquelas pessoas cujo atributo de estigma não é visível, é uma pessoa ‘desacreditável’ (GOFFMAN, 1988), ou seja, existe um potencial para ser desacreditada se seu estigma se tornar conhecido de outras pessoas, o que traz uma constante tensão entre ocultar ou não o motivo de seu estigma, contá-lo ou não contá-lo, mentir ou não mentir, etc.

Assim, o encobrimento do fator de estigma é uma solução apenas parcial e não alivia essa tensa ambigüidade, na medida em que “(...) uma pessoa que tenta encobrir algo leva uma vida dupla e que o encadeamento lógico informacional da biografia pode dar lugar a diferentes formas de vida dupla” (GOFFMAN,1988, p. 88). Além disso, a pessoa se encontra sempre sob pressão para criar mentiras intermináveis para evitar uma revelação não desejada.

Goffman ainda aponta para a questão da visibilidade ser de suma importância, pois

O que pode ser dito sobre a identidade social de um individuo em sua rotina diária e por todas as pessoas que ele encontra nela será de grande importância para ele. (…) a informação quotidiana disponível sobre ele é a base da qual ele deve partir ao decidir qual o plano de ação a empreender quanto ao estigma que possui. (GOFFMAN,1988, p. 58)

Com essa breve síntese, podemos passar para o próximo item, no qual buscaremos, partindo das noções apresentadas até agora neste capítulo, mostrar como se dá a construção da identidade homossexual.

2.4 Identidade homossexual – uma fábrica de vergonhas e medos, de