*
Às 13 horas, os prédios voltam a ser erguidos como que num rompante. Se pouco antes se ouvia quase o silêncio no bairro, “do nada” elas estão a todo vapor. Fortalecidos pela comida do almoço e pela diversão com os amigos de obras (após se alimentarem, pedreiros, eletricistas e marceneiros se juntam para jogar baralho ou dominó – Doyle, 2013), a intensidade do trabalho é agora maior do que em relação à manhã. De agora em diante, as obras não têm nenhum intervalo para descanso oficial, já no fim do dia.
Uma hora depois do reinício do trabalho da construção civil, voltam a seus postos os moradores do Setor Noroeste, esses que chegaram recentemente ao bairro. Repetem, em maior ou menor medida, o movimento que fizeram logo cedo, saindo de suas garagens com os vidros já fechados, os óculos de sol postos sobre os olhos ou acima da cabeça e o ar-condicionado do veículo em potência máxima. Na seca, sob o sol escaldante, com a poeira podendo incomodar a gregos e a troianos, impossível não dizer que estar num carro possibilita conforto e destino bem melhor em relação aos que não o possuem. A partir das 14 horas, a população diurna do Setor Noroeste começa a sair da região. O fluxo de ônibus e carros aumenta novamente, embora não se assemelhe nem um pouco em ritmo ao matutino. Terminaram as diárias de faxina, algumas crianças já estão acompanhadas de seus irmãos adolescentes ou foram para creches próximas; os animais estão bem alimentados ou foram para os petshops receber os cuidados a que estão acostumados. Abre-se, então, margem para que essas mulheres possam voltar aos seus lares, para, na maioria das vezes, cumprirem rotina similar a qual cumpriram em seus trabalhos (lavar, passar, esfregar, enxugar, por assim dizer).
Até às 17 horas, o movimento continua relativamente homogêneo no Noroeste. Martelos e serrotes prosseguem suas escalas de trabalho sem aumentos ou diminuições de ritmo. Com exceção das funcionárias que estão voltando para suas casas e dos trabalhadores terceirizados que trabalham nos blocos, poucas são as vozes ouvidas. No alto, os aviões ultraleves seguem seus trajetos de subida e descida, mantendo o zunido constante de seus motores na atmosfera da região.
Ao fim do dia, faltando uma hora ou pouco menos para as 18 horas, o despertador do Noroeste novamente toca; é hora de ir embora para uns, hora de voltar para outros. Alguns operários vão se desfazendo de seus uniformes, enquanto outros resolvem ir embora como estão, para apressar o máximo possível a volta para casa. Os carros, antes todos estacionados e há um bom tempo parados, ganham vida e tomam as ruas, no que voltamos à dialética automotiva do começo do dia. Mulheres e homens começam a retornar de seus serviços, com seus filhos e filhas no banco do passageiro. Se antes saíam do bairro enquanto os operários e funcionários entravam, a relação agora é a oposta.
Tendo chegado a seus apartamentos, já sem o barulho das obras e dos ultraleves (que param seus voos mais ou menos às 18 horas), os moradores do Setor Noroeste não tem rotina nada diferente da que se encontra no Plano Piloto ou em outras regiões de Brasília, em especial aquelas em que moram as camadas médias. Ligam seus televisores, algum aparelho musical, trocam-se e descem de seus apartamentos: para brincar com os filhos no playground, correr enquanto o sol se despede, ir à padaria encontrar algum conhecido ou mesmo somente comprar unidades de pão, passear com seus cães, agora mais silenciosos e menos rebeldes do que durante a manhã. É como se agora, ao fim do dia, as cordas dos instrumentos que compõem orquestralmente o bairro estivessem todas distensionadas, à espera da noite.
*
Noroeste: 19 horas. Noite. E noite significa, sobretudo, silêncio. Passear pelas ruas do bairro a partir desse horário é passear com os próprios barulhos dos pés e daqueles que povoam nossas mentes.
A EPIA quase não emite sons e a W7 só vira e mexe vê um carro em suas pistas, de pessoas que chegam a suas casas ou a utilizam para cortar caminho para chegar mais rápido aos seus destinos (como o bairro tangencia a Asa Norte, atravessá-lo é acessar mais facilmente áreas outras da região sem ter que se passar por semáforos, radares e, principalmente, limites máximos de velocidade, os quais até o momento não existem na W7).
As luzes dos apartamentos estão quase todas acesas, mais de uma para cada um; os filhos estão em seus quartos, ainda mais se já adolescentes ou jovens. Um ou outro veículo passa pelas ruas dali, sem incomodar a quase ninguém. Do início da manhã (com sons vindos de todos os lados, gritos, motores, pancadas) à noite (com ruídos mais de grilos e ventos leves) o Setor Noroeste se transforma quase que do avesso. De um show multi-instrumental, com pirotecnia e todos os acessórios a que se tem direito em um concerto musical gigante, o bairro passa a ser análogo a uma apresentação à capela ou mesmo a uma serenata, feita em cenário bucólico e com luzes apenas a cortar a escuridão, sem realmente abalá-la.
O dia termina no Setor Noroeste. Para todos e para todas agora.
2.2
Tempos de seca – Domingo
Na semana toda não houve um dia de chuva no Setor Noroeste. Para o Distrito Federal e a região do Entorno, o mesmo. Não é diferente no domingo em tempos de seca. Todos já sabem que, sendo julho, agosto, junho ou maio, não há possibilidade real de que caiam gotas refrescantes no chão um tanto quanto poeirento do bairro. Com exceção desse pequeno detalhe pluviométrico, no entanto, todo o resto é diferente, assim como em boa parte da cidade e do Distrito Federal.
No domingo, o despertador muda seus padrões aqui (Fotos 21 e 22). Quase não há construções de prédios residenciais e comerciais. As empregadas domésticas e babás estão em seus dias de folga. Todo o aparato que envolve o ritmo de subida do bairro não é operante nesse dia; às cinco da manhã não há nada além do silêncio e uma ou outra luz acesa: de insones que estão talvez em frente a suas geladeiras ou sentados no sofá; de jovens universitários que acabaram de chegar de alguma festa e precisam se recuperar com açúcar, banho e sono; de pais e mães que estão esquentando mamadeiras para seus pequenos filhos. O dia em si também não começou para elas; vivem apenas um intervalo em seus descansos.
Às seis da manhã, algumas pessoas, as moradoras do bairro, levantaram-se. Logo mais estão nas ruas correndo e caminhando. Algumas tomam seus carros e vão para parques
próximos, como o Olhos d’Água, na Asa Norte, ou o Parque da Cidade, na Asa Sul ou para o Eixo Rodoviário, o Eixão, fechado aos domingos para práticas de lazer. O domingo é exceção aí também; em meio à rotina atribulada do trabalho, o dia em que não se dedica exclusivamente a isso é o dia em que se pode praticar atividades físicas, usar com mais dedicação a academia do prédio, enfim, em que se pode exercitar o corpo de forma mais detida. Até às nove da manhã, vê-se uma ou outra pessoa nesse movimento ginástico. São poucos os cachorros que podem incomodá-las, aliás, o que livra esse processo dos seus encontros conflituosos. A propósito, tanto quanto aos seus donos, o dia de domingo para os cães é um pouco diferente: parecem mais preguiçosos, não se incomodam tanto com as pessoas que passam perto deles, não latem com tanta frequência.
Às nove da manhã, a população adulta do bairro quase toda está acordada. Não que isso seja perceptível pelo movimento fora dos blocos; antes, são os sons que vêm dos apartamentos, de aparelhos eletrodomésticos, de músicas, de conversas entre familiares, que permitem identificar isso. As ruas continuam como estiveram desde o começo da manhã; poucas pessoas, poucos carros, poucos sons.
Os encontros fortuitos são em geral aqueles que se dão próximo à padaria, quando se comenta sobre alguma coisa relacionada à política nacional (“E essa Dilma24, vai ou não
vai?; “E esse Rollemberg25, hein?”) ou ao dia-dia (“E o filhão, como vai? Esses dias vi ele,
tá crescido demais”; “E a esposa, como está?”; “Domingo é preguiça, rapaz!”). As pessoas estão operando em diferentes registros, sem que isso cause qualquer ruído em suas comunicações.
Pouco antes das dez da manhã, começa um evento central para uma parte significativa do Setor Noroeste. Todo domingo, nesse horário, começam os preparativos para a celebração de uma missa, coordenada por religiosos da paróquia responsável pela evangelização do bairro (São Francisco de Assis, localizada na 915 norte). Ao longo da semana, os próprios moradores, via Whatsapp, organizam-se para que tudo dê o mais
24 Dilma Rousseff (PT/RS) se reelegeu presidenta do Brasil em outubro de 2014. Iniciado em janeiro de 2015, seu segundo mandato esteve durante todo o período do trabalho de campo questionado pela oposição e por partidos da base aliado.
25 Rodrigo Rollemberg (PSB/DF) foi eleito governador do DF em 2014. Seu mandato vai até o fim de 2018.
certo possível no domingo. Cadeiras de plástico são reservadas, um bloco específico é definido e algumas pessoas são selecionadas para montarem o cenário próprio da missa.