4.6 Sammenfattende resultat
4.6.3 Kommunikasjonstiltak i møte med språkbarrierer
No período entre 08 e 10 de março de 2009, leitores e leitoras enviaram cartas reagindo a um escândalo envolvendo deputados estaduais que ocupavam cargo de conselheiro no Tribunal de Contas do Estado. A primeira denúncia foi publicada dia 08 de março138.
Até dia 10 de março, nove textos sobre o subtema haviam sido publicados139 pela editoria Política/Nacional, que passou a chamar o fato de “Conselho de marajás”. 11 leitores e quatro leitoras enviaram cartas. A repercussão do subtema entre os/as leitores/as teve início no mesmo dia em que o escândalo foi divulgado, porém, como ele surgiu na coluna no dia 08 de março e o período abrangido pela pesquisa ter terminado três dias depois, não foi possível precisar até quando a discussão persistiu.
Os homens escreveram textos mais curtos e as mulheres mais longos, como se pode ver ao comparar a média de palavras escritas por homens e por mulheres, 131 e 171 respectivamente. Acredita-se que a extensão dos textos femininos tenha se dado principalmente porque elas acrescentaram outros fatos da mesma ordem às suas cartas. Já os homens preferiram apenas citar as instituições públicas que se veem frequentemente envolvidas em escândalos.
138
A matéria de capa, intitulada A corte dos marajás, dizia, “Documentos obtidos pelo Estado de Minas revelam um segredo guardado a sete chaves por muitos anos: os super-salários dos conselheiros do Tribunal de Contas do Estado. [...] Os ganhos indevidos vieram à tona depois da Operação Pasárgada, da Polícia Federal, em que três deles acabaram indiciados por corrupção passiva e formação de quadrilha”.
139
Datas e títulos das matérias: 08.03 - Conselho de Marajás; CONSELHO DOS MARAJÁS - Gritante desrespeito à lei; Um tribunal paradisíaco; 09.03 - CONSELHO DOS MARAJÁS - MP quer devolução de benefícios do TCE; CONSELHO DOS MARAJÁS - Um tribunal que não presta contas; 10.03 - CONSELHO DOS MARAJÁS - Braz omite da receita uma ilha particular; CONSELHO DOS MARAJÁS CPI do Rio busca munição; MP quer detalhes de remunerações; ESCÂNDALO - Dono de Castelo se defende.
7.1.4.1 As 11 cartas de leitores
Apesar de ter sido o Estado de Minas o primeiro órgão de imprensa a repercutir o caso, apenas três leitores o citaram como fonte de informação sobre o tema. Exemplo: “Estarrecedora a reportagem do Estado de Minas de ontem, mostrando os benefícios dos conselheiros do TCE”. Eles inclusive fizeram elogios ao tratamento dado à notícia pelo jornal. Exemplo: “Parabéns pelo grande trabalho sobre o TCE. Sinto-me hoje mais confortável como cidadão brasileiro”140.
Embora não tenham sido explícitas, outras cartas também depositaram na imprensa o poder de denunciar e auxiliar o estabelecimento da justiça, ao mesmo tempo em que exclui a sociedade civil como sujeito capaz de provocar mudanças em sua própria estrutura, estabelecendo assim uma hierarquia. Exemplo: “Todos os dias a sociedade brasileira tem conhecimento, através dos jornais e televisão, de mais uma das falcatruas e vantagens de nossos políticos”141.
Já a responsabilidade de apuração das denúncias foi deslocada para o poder público. Exemplo: “Depositemos agora nossa esperança no Ministério Público que façam a devida fiscalização e achem os culpados e os punam com os rigores da lei”142. Apenas para um leitor, a solução desse problema também passa pelas suas mãos, assim como nas da sociedade: “Será que não é hora de usarmos paus e pedras para punir?” Os leitores reivindicam serem tratados pelos poderes como cidadãos, mas, por outro lado, não percebem também que o exercício da cidadania pode levar à modificação da ordem.
Observou-se ainda que, mesmo quando há denúncia e apuração, os leitores não acreditam que vá haver justiça. Na visão dos leitores, era para haver superioridade das leis sobre os atos de indivíduos ou de grupos, mas a impunidade tende a ocupar o espaço público. Isso fica claro quando eles fazem referência a outros fatos. Exemplo: “É impressionante o descaso com a saúde, com segurança e
140
Trecho extraído de outra carta: “As competentes reportagens do ESTADO DE MINAS sobre o Tribunal de Contas já me esbofetearam por três vezes desde o domingo”.
141
Trechos extraídos de outras cartas: “Aos brasileiros em geral [...] resta ficar assistindo ou lendo, diariamente nas TVs, revistas e jornais do país”; “A grande esperança do cidadão correto [...] é a imprensa livre”; “Ninguém respeita a constituição, mas todos acreditam no futuro da nação”; “A sociedade não agüenta mais tanto desrespeito”; “A nação já está cansada de ver e ler toda semana, às vezes todos os dias, notícias de privilégios e espertezas diversas”; “O povo brasileiro [...] apanha calado e está numa espécie de letargo mental”.
142
Trechos extraídos de outras cartas: “Espero que o Ministério Público aja de forma enérgica em defesa do interesse coletivo”; “Que [...] sejam afastados do serviço público e devolvam os valores criminosamente embolsados”.
principalmente com o dinheiro público que não é usado em favor da população. [...] tudo sempre acaba no Brasil em Pizza!”143. Ou seja, instituições que se encaixam como valores como o Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais não são vistas, pelos leitores, como capazes de promover um valor: a justiça. Por outro lado, o jornal e a mídia, na visão deles, de maneira geral, têm desempenhado esse papel.
De um lado estão os conselheiros que, além de “marajás”, são “homens que nos envergonham, malandros, espertalhões, marginais e parasitas”. E ainda “se portam como desembargadores, contudo sem possuir na prática conhecimentos jurídicos, geralmente oriundos da Assembléia Legislativa”. O Tribunal é “cabide de emprego para políticos em final de carreira e seus pupilos; um galinheiro” e deveria chamar-se “Tribunal do Faz-de-Contas144, faz de conta que investiga”. Do outro lado, está a população que é “batalhadora, sofrida e oprimida” e o dinheiro do contribuinte “valores subtraídos, de forma injusta ou ilegal, dos impostos e taxas que recolhemos”.
As cartas colocam em posição antagônica dois valores: os conselheiros e o tribunal regido por eles e a população e o dinheiro produzido por ela. Coloca a sociedade numa posição de vítima de uma estrutura da qual ela parece não pertencer.
Três leitores citaram sua ocupação: produtor rural; jornalista e mediador familiar/bacharel em direito.
7.1.4.2 As quatro cartas de leitoras
Três leitoras citaram o jornal como fonte de informação sobre o fato. Exemplo: “Quero registrar a minha indignação com a denúncia do EM”145. E a quarta faz referência à mídia de uma maneira geral: “A cada matéria que a mídia mostra sobre a corrupção e o desvario dos nossos tão ilustres políticos e representantes do povo”. Dessa forma, elas também percebem a mídia como uma instância com poder de
143
Trechos extraídos d outras cartas: “Não acredito que a justiça consiga alcançar seu objetivo de prender esses indivíduos”; “Seja no Congresso Nacional, seja nas Assembléias dos Estados, seja nas Câmaras Municipais, o que se vê é só safadeza e corrupção”; Será que no processo do mensalão, que se arrasta há anos, alguém será condenado? Duvido...”; “Corrupção que hoje tomou conta do governo federal e políticos em todos os setores; Incêndios criminosos que destruíram milhares de processos”.
144 No meio político, o TCE estava sendo tratado ironicamente de “tribunal de faz-de-conta”. 145
modificar os fatos; porém nenhuma fez críticas ou elogios explícitos ao tratamento que a notícia recebeu por parte do Estado de Minas.
As quatro aproveitam o espaço para ampliar a discussão e trazer à tona problemas antigos, transferindo principalmente para o Estado a culpa da (des)ordem estabelecida. Exemplo: “Há de se analisar que os super-valores embolsados mensalmente, indevidamente, são oriundos do Governo. Os salários, pagos pontualmente, em valores tão absurdos, foram aprovados no que chamam Orçamento, o mesmo orçamento que destina verbas para a Educação, Saúde, Segurança etc”146.
Ao mesmo tempo, três deixam claro saber que a solução do problema da corrupção na política passa pelas mãos do povo, incluindo-as. Elas se posicionam como cidadãs e cobram uma ação de todos. Exemplo: “Que atitude pode-se tomar, efetivamente?; Quando começaremos a reagir diante de mais esse descalabro?”147.
Os conselheiros são “marginais, indiciados por corrupção passiva e formação de quadrilha”; os impostos são “exorbitantes”; os salários “milionários não ficam restritos a um só poder, mas estão aí disseminados pelos 3 poderes”. O dinheiro ganho pelo povo é “suado”. O problema é da ordem dos valores e sua solução também. Apenas uma, entre as quatro leitoras, citou a ocupação: professora e escritora. A forma como a leitora se vê pode ser resumida pela seguinte frase de uma delas: “o povo não é cidadão no sentido de direitos, mas apenas de pagadores de impostos”. Nenhuma delas citou sua profissão.
7.1.4.3 A carta editada
Uma carta masculina foi publicada e sua íntegra se encontra no APÊNDICE G. Sua edição exclui apenas um artigo e um adjetivo – os últimos – que faziam referência aos defensores públicos e não recebeu nenhum acréscimo por parte da edição . Essa carta, entre as quinze enviadas sobre o subtema, foi a única que se
146
Trechos extraídos de outras cartas: “O fato é que estes mesmos denunciados continuam a ocupar cargos de alto escalão no governo Aécio [...] continuam onde jamais poderiam estar”; “Enquanto o estado faz vista grossa permitindo estes salários exorbitantes, este mesmo estado se recusa a tratar com dignidade os aposentados apostilados do IPSEMG [...] Estamos sendo lesados severamente, quando recebemos o nosso minguado salário”; “Corte dos Marajás, que são uma minoria em relação à população e uma maioria dentro dos cargos públicos, haja vista a verba para os políticos gastarem com passagens aéreas”.
147
Trechos extraídos de outras cartas: “Vota Minas”; “seria interessante que mostrassem aos leitores também uma maneira de acabar com a situação. Que atitude pode-se tomar, efetivamente?”.
baseou no lugar da quantidade, ao chamar atenção para o valor do salário dos “marajás”: “em torno de R$ 50 mil mensais”, em comparação ao salário dos defensores públicos: “apenas R$ 6.580,00 em início de carreira”. Inclusive, sua argumentação se fez em cima de comparações entre o cargo de desembargador, e outras carreiras do judiciário, e o cargo de conselheiro.
Em comum com as demais cartas enviadas até o dia 10 de março, esta posiciona a sociedade como vítima de desrespeito, mas não a coloca como corresponsável pela situação; amplia a discussão para outras alçadas, mas não as critica; e pede justiça de forma imperativa, porém demonstra falta de esperança no sistema visto que se diz indignado, mas não surpreso. Aqui o valor da crença numa mudança perde força diante de valores como o poder que têm os homens que burlam o sistema de leis elaborado por eles mesmos.
As cartas não publicadas traziam para a discussão principalmente a insatisfação geral do brasileiro em relação ao comportamento dos políticos de uma maneira geral, assim como as referências a outros casos que envolveram corrupção no setor público; a esperança de que os fatos sejam apurados e os envolvidos julgados e punidos; e as denominações pejorativas dos envolvidos. A publicada foi enviada no dia em que o jornal lançou a primeira matéria sobre o escândalo, ou seja, domingo dia 08 de março, mas foi publicada apenas três dias depois.
Apenas duas palavras foram removidas para publicação e nenhuma acrescentada. Abaixo tabela indicando a quantidade de palavras contidas na íntegra da carta, a quantidade de palavras removidas pela edição e o número de palavras contidas no texto publicado.
Tabela 29 - Número de palavras por carta – TCE – fev./mar. 2009 Na íntegra da carta Removidas pela edição Acrescentadas pela edição Publicadas Carta 1 103 2 0 101
Fonte: Dados da pesquisa.
7.2 Le Monde
a) 52 sobre subtemas relacionados à sexualidade: 33 cartas sobre anulação de um casamento, sendo 25 masculinas e oito femininas; 10 cartas sobre sexismo, sendo duas masculinas e oito femininas; e nove cartas sobre homofobia, sendo sete masculinas e duas femininas; b) 31 sobre subtemas que colocavam o preconceito no centro da
discussão. São assim subdivididas: nove sobre o preconceito presente em alguns comentários de leitoras e leitoras publicados no site do jornal, sendo sete masculinas e duas femininas; e 22 sobre religiões, sendo 17 masculinas e cinco femininas;
c) nove relatos de problemas de atendimento social, sendo sete enviados por leitores e duas por leitoras.
Entre essas cartas, o Le Monde optou por publicar apenas duas sobre o casamento anulado assim como citar, na crônica da mediadora, trechos de três cartas sobre o preconceito encontrado em alguns textos de leitores/as. Os demais subtemas cujas cartas foram analisadas – homofobia, religião, sexismo e problemas de atendimento social – não figuraram na coluna Courrier des lecteurs.
Tabela 30 - Matérias X Cartas publicadas no Le Monde – jun. 2008 Subtemas Matérias Cartas Enviadas Cartas
Publicadas Casamento Anulado 18 33 2 Homofobia 12 9 0 Sexismo 1 10 0 Problemas Pessoais 2 9 0 Questões Religiosas 5 22 0 Reações em Cadeia 0 (*) 9 3(**)
Fonte: Dados da pesquisa.
(*) O assunto foi primeiro discutido pelos/as leitores/as para depois ser repercutido pela mediadora. (**) Tiveram trechos citados na crônica da mediadora (MAURUS, 2008c).