4 Presentasjon og analyse
4.4 Kommunikasjon og tilbakemelding
Glauco não se satisfaz com a discussão que se desenvolve durante o Livro I. Agnès Pigler (2005) comenta que, para Glauco, a justiça se origina de um pacto entre os homens que, com o objetivo de realizar os interesses comuns a todos, comprometem-se a obedecer à lei, a qual define o que é justo.Aparentemente, o pacto tem origem no que é comum aos habitantes da cidade, mas surge outro fator de interferência, este é o egoísmo inerente à natureza, porque desde que as circunstâncias sejam favoráveis, os homens não hesitam em romper os limites da lei, e menosprezam o que fora decidido em conjunto para satisfazer seus próprios interesses (PIGLER, 2005, p. 288).
A justiça exposta por Glauco é um tipo de bem estimado por todos, mas que tem se demonstrado como um bem alheio, penoso, e só exercido porque é útil para a convivência entre os homens. Há três espécies de bem: uma espécie de bem é estimada por si mesmo e não por suas consequências a exemplo da alegria e do prazer não prejudicial; outra espécie é ao mesmo tempo afeiçoada em si mesmo e por suas consequências como a vista e a saúde; e, uma última, é a maneira de obter remuneração pelo serviço concedido por contratos. Esta terceira espécie de bem é considerada útil, necessária para a sobrevivência humana, mas penosa e difícil e os homens só a exercem por causa do lucro que irão ter, do salário e status social, não porque estimam o bem por si mesmo (REP, p. 357b-d).
Para Glauco, a justiça sempre se mostra como sendo um bem penoso. Ele enfrenta o seguinte problema: há condições de pensar a justiça sem submetê-la a recompensas e aos interesses particulares? Glauco diz: “Desejo conhecer a natureza delas [da justiça e da injustiça], e qual o poder próprio de cada uma, tomada em si mesma, na alma onde reside, sem levar em conta recompensas que proporcionam e suas consequências” (358b, acréscimos nossos). David Sachs observa que Glauco pretende alcançar uma definição de justiça através de Sócrates que demonstre, no lugar de uma carga penosa, uma situação de bem aventurança e felicidade. Sócrates precisa pensar um significado de justiça em si mesma, sem
nenhum vínculo com as variações dos casos particulares do agir justamente (SACHS, 1971, p. 40).
Glauco vê que o homem age de maneira justa porque tem medo de sofrer a injustiça. Nesse sentido, a injustiça é um bem por evitar sua própria prática e gerar o comportamento justo. O discurso em que os homens estão cientes de que podem sofrer injustiças, obriga-os a elaborarem e cumprirem contratos mútuos que proíbam ações injustas. Dessa forma, inventam leis para definir o comportamento que deve ser seguido por todos, pois a lei, fruto do acordo entre os homens, prescreve o que é legal e justo. Em outras palavras, o que é uma ação boa ou o que é o bem e o que é uma ação má e o que é mal deriva da injustiça e não da justiça. O maior bem consiste em não ser castigado por praticar injustiça e o maior mal se resume em ser incapaz de se vingar de uma injustiça. Assim, a justiça só é manifesta no formato de lei ao controlar o equilíbrio entre o maior bem e o maior mal, e, a partir de então, torna o homem impossibilitado de cometer injustiças (REP, 358e-359b).
Na exposição de Glauco, a justiça não é um bem por si mesmo, mas é simplesmente um bem no sentido de ser benéfica a alguns porque os homens são todos injustos. O único meio de torná-los justos é pela imposição do exercício da ação justa através da lei. Não há homem naturalmente justo, os que aparentam ser justos são injustos na mesma medida dos que não escondem suas práticas injustas (359b-360d).
Os praticantes da justiça agem contra a sua vontade. Para Cornford (1945), Glauco diz que a essência da justiça é que todas as regras e leis são impostas aos indivíduos por sansões sociais coordenadas pela inteligência humana. Não haveria lei natural ou divina, mas as leis são construções humanas que podem ser alteradas de acordo com a vontade dos que controlam o poder legislativo. Não há quem queira ser justo se lhes for dado o poder de fazer o que quiser sem nenhuma punição. Um homem que pareça justo se lhe permitirem fazer qualquer coisa, as suas ações seriam as mesmas de um homem que se diz injusto (CORNFORD, 1945, p. 41). A justiça mascara a injustiça, pois, mesmo os homens que são chamados de justos, “todos os homens acreditam que lhes é muito mais vantajosa, individualmente, a injustiça do que a justiça” (REP, 360d). Portanto, não é estranho os homens elaborarem leis para criar um comportamento justo porque é necessário conter a ação injusta.
Com efeito, se a justiça nasce da prática da injustiça e se não há homem que resista em praticar a injustiça quando lhe é retirado o poder coercitivo das leis, então é forçoso admitir que a vida do injusto é melhor do que a vida do justo? Deve- se observar o justo enquanto perfeitamente justo e o injusto na medida em que é perfeitamente injusto.
O homem perfeitamente injusto possui três características: parece justo sem o ser; possui a habilidade de falar para persuadir; e usa qualquer meio, seja violência ou outro, para encobrir seus crimes e alcançar seus objetivos. Mas como saber que um homem é justo sem o aparentar, para, então, concluir que ele é perfeitamente justo? Deve-se tirar tudo do homem, exceto a justiça, para certificar-se que suas ações continuarão sendo justas, assim, para provar de todas as formas que é um homem no extremo da justiça ele deve ser condenado como se tivesse cometido alguma injustiça e conduzido à toda prova, até à morte, com o fim de ser testado na continuidade do exercício de seu ser justo. O homem que parece ser justo sem o ser não suportaria imensa pressão e rapidamente usaria da injustiça para ludibriar os castigos porque a aparência de ser justo só é mantida quando lhe traz algum benefício. A vida do homem injusto torna-se melhor do que a do homem justo (361a-d).
Glauco argumenta que o injusto se passa por justo e pratica a injustiça sem que os homens que o veem como justo percebam suas ações. Desse modo, porque o homem perfeitamente justo teme cometer injustiças, o perfeitamente injusto o supera em tudo, a exemplo de poder governar “na sua cidade, graças a seu aspecto de homem justo; em seguida, toma esposa onde lhe apraz, dará seus filhos em casamento com quem lhe apraz, constitui ligações de prazer ou de conveniência com quem melhor lhe parece” (362b-c). O injusto, triunfando sempre sobre seus adversários, não teme em prejudicar os inimigos e ajudar os amigos, receber elogios e honrarias, consolidar contratos injustos e apresentá-los como justos uma vez que tem o poder de persuasão.
Nessa situação de vida enfatizada por Glauco, não há sentido em elogiar a justiça como algo que é um bem em si mesmo, porque a injustiça é a representação do bem necessário para sobreviver. No entanto, Adimanto, o irmão de Glauco, compreende de forma diferente a discussão e se propõe a apresentar exemplos de momentos em que a justiça é honrada (362d).