5.1 Pårørendes møte med sykehjemmet
5.1.1 Kommunikasjon og samhandling på sykehjemmet
Como já mencionamos, Alberto Torres publicou, em 1915, um pequeno texto, de 48 páginas, intitulado As fontes da vida no Brasil. Nesse, examina um tema já abordado em trabalhos anteriores: a destruição da natureza no Brasil, através do caráter predatório de
nossas atividades econômicas, depredando nossos solos, esgotando nossas fontes de água, entregando nossas riquezas à exploração estrangeira, ao imperialismo, e comprometendo a qualidade de vida das gerações futuras, a “organização” do país, a formação da nação.
As fontes da vida no Brasil começa com uma nota “para esclarecimento”, na qual
Torres destaca a finalidade prática de seu estudo: alertar os dirigentes sobre dois aspectos radicais das crises que perturbam o país: a crise da natureza e a crise do trabalho. Esses dois eixos, terra e gente, ficarão bem evidentes durante o texto, configurando juntos as tais “fontes da vida no Brasil”, ignoradas e vilipendiadas por nossos dirigentes do passado e do presente. Assim, segundo Torres (1990, p.XV), seu estudo revela a realidade pungente de um país novo que, sem nada ter construído, tem estragado sua terra e anemiado o vigor comprovado de suas raças. Enquanto isso, nossos dirigentes professam as mais equivocadas visões ou pairam indiferentes, de modo que a “restauração das forças da vida, nas terras e na gente do Brasil”, problema urgente, demanda a organização de nosso mecanismo político em moldes próprios.
Torres parte de uma constatação: a realidade de nossa situação econômica e social é não apenas ignorada, como anda obscurecida pelos mais absurdos erros de ciência e observação. Resultam daí os postulados correntes sobre nossa riqueza e fertilidade, sobre nossa política econômica, produção, sobre o valor das nossas raças e o trabalho nacional, sendo o objetivo do autor “destruir essas ilusões” (Torres, 1990, p.1). Para o autor, no Brasil, durante séculos, nos dedicamos apenas à exploração e à expansão colonizadora, sem o longo estabelecimento definitivo que permitiu, aos países adiantados, gerar o medium cósmico- social da civilização. Nossas condições particulares de existência não permitiram ainda que aqui se formassem os vínculos da simples ligação do homem com a sua terra, “nem o conhecimento dos meios e processos próprios à exploração da nossa natureza e muito menos o estabelecimento das bases da adaptação geral e da vitalidade progressiva, na economia e no espírito!” (Torres, 1990, p.3). Por isso, os brasileiros são todos, estrangeiros na sua terra, “a
qual não aprenderam a explorar sem destruir” (ibidem). Os habitantes das cidades são ainda mais estrangeiros, exibindo uma fictícia civilização de luxos mentais e materiais, alheios à vida nacional. E “os que nos dirigem e nos governam, estranhos à realidade da nossa existência, agitam e mantêm essa efervescência de interesses e paixões que formam” nossa vida pública, hostis aos sentimentos e interesses da Nação (ibidem, p.3-4). Configura-se assim um “estado de desencontro, de ignorância e de conflito, entre a terra e os seus habitantes”, entre as raças, o meio, as instituições, os costumes e as idéias, que resulta no relevo convulsionado da nossa estrutura nacional.
Torres segue então para o exame de nossa terra. Segundo o autor, nosso território é caracterizado por uma singularidade: não temos gelo nem neves, poderosos agentes de suprimento de água nas zonas temperadas e frias. Por isso, nossos mananciais dependem exclusivamente das fontes naturais, alimentadas pelas condensações atmosféricas, sob a guarda protetora das florestas. Soma-se a isso nossa posição geográfica, que nos faz “um dos campos de mais intensa irradiação solar, em toda a Terra”, colocando-nos na injusta posição de ter “o dobro de calor para a metade da umidade” (Torres, 1990, p.8). Desse modo, para o autor, as terras do Brasil estão subordinadas, “quanto à conservação das condições naturais de habitabilidade, sanidade e produtividade, à conservação e à fartura dos mananciais” (ibidem). Entretanto, nossos colonos e governos, não perceberam ou não se importaram com esse fato evidente, produzindo uma sistemática devastação das nossas florestas, o que alterou nosso clima e transformou parte de nosso território em terras pobres ou em vias de desertificação.
Por isso, o autor defende que o reflorestamento, a restauração das fontes naturais e a conservação e distribuição das águas são problemas fundamentais em nosso país, “mais importantes que o da viação comum, e muitíssimo mais que o das estradas de ferro” (ibidem, p.12). Porém, ao contrário da Europa, onde a experiência estabeleceu “os costumes do reflorestamento e da conservação das matas, severamente policiados, e regulou-se o corte das
madeiras”, no Brasil, “onde as matas exercem tão vital função, não só nenhum esforço se faz por conservá-las, mas propagam, ao contrário, os governos a necessidade de incrementar a expansão econômica do país, para realizar a obra, tão ilusória, de ‘engrandecimento’” (ibidem, p.11). E quando alguns protestam, elaboram-se textos de legislação florestal ordinária, “dificílimos de aplicar (...) na anarquia social reinante e na dissolução legal do país” (ibidem, p.11-12). Torres se diz ainda assombrado com a ilusão dos homens de ciência, no Brasil e no estrangeiro, que, apesar das imensas alterações que têm marcado o clima e o solo no mundo, com trágicas conseqüências, continuam a propagar a quase eternidade dos tesouros do nosso planeta (ibidem, p.6). É a mesma ciência, não por acaso, que alia essa cândida confiança à propagação das idéias militantes da política expansivista (ibidem).
Para Torres, a baixa produtividade de nossas terras agrava um outro problema sério do nosso país: a problema da alimentação, da produção para o consumo interno, estampado na face miserável de nossa população. Não se trata de um problema agronômico, higiênico ou econômico, mas do problema primário de um povo, vital, físico (ibidem, p.13). Temos que resolver dois problemas práticos ligados à alimentação popular: o dos gêneros próprios para nosso meio, para a natureza do trabalho e para a vida social, nas diversas classes, e o da sua cultura (ibidem, p.14). Entretanto, enquanto a seca e a fome já são realidade na Amazônia, devido à crise da borracha, no Rio de Janeiro as classes poderosas “empenham-se por arrastar o governo à política de novas aventuras econômicas, vivem quase todos numa agitação superficial de luxos materiais, intelectuais e morais”, propagam escritores e tribunos requintadas idéias de um brilho de joalheria, e “dirigentes agitam esta população de espírito entorpecido para a realidade, nos transportes de ilusões míticas, de paixões impulsivas, desmedidas, e de estéreis ambições” (ibidem, p.14).
Na opinião de Torres, essa inépcia, que entregou nosso território à colonização depredatória, vem desde os tempos da Coroa portuguesa, sendo mantida no Império e na
República (ibidem, p.16). Tudo isso resultou na feição colonial da exploração do país, caracterizada “pela indefesa subordinação dos produtores a exportadores e capitalistas estrangeiros, pela avidez e inconsciência das derrubadas, pela preferência, no trabalho, ao colono estrangeiro” (ibidem, p.17). Trata-se, aqui, da defesa do trabalhador nacional, outro ponto freqüente do pensamento de Torres. Novamente, terra e gente, de modo que:
Eis, por fim, a obra sagrada da nossa geração: restaurar as fontes da vida, no corpo do país, e as fontes da vida, no corpo e no espírito de seus habitantes; aquelas, pelo clima e, sobretudo, pela água; e esta, pelo trabalho (ibidem, p.19).
Alberto Torres: referência para os cientistas envolvidos com a conservação da natureza Como mencionamos, a obra de Torres foi lida e apropriada pelos mais diversos pensadores, nas décadas que se seguiram a sua morte. E a temática da proteção à natureza também não escaparia aos seus leitores, sobretudo nas décadas de 1930 e 1940, quando se articulam os primeiros movimentos voltados especificamente para questões relacionadas à conservação ambiental no país (Dean, 2000, p.274-278). Segundo Franco (2000), é possível perceber, entre os anos de 1920 e 1940, a formação de um grupo relativamente coeso de cientistas envolvidos com ações relativas à proteção à natureza no Brasil, responsáveis entre outras coisas pela organização da Primeira Conferência de Proteção à Natureza, realizada em 1934. Em torno desses cientistas são formadas várias associações, presentes em diversos cantos do país, como a Sociedade dos Amigos das Árvores, a Sociedade dos Amigos da Flora Brasílica e SAAT, que empreendem iniciativas diversas em relação à proteção da natureza. São desse período também as primeiras iniciativas governamentais nesse sentido – como a decretação de uma série leis e a criação dos primeiros parques nacionais – influenciadas, em grande parte, pelas discussões, iniciativas e pressões desses cientistas e associações.
E uma grande parte das pessoas envolvidas com a conservação ambiental nessa época reivindicará a importância da obra de Torres, valorizando-a não apenas por sua abordagem da questão ambiental, mas também pela relação que estabelece entre esta e a “questão nacional”.
De acordo com Franco (2000, p.11), entre os cientistas e técnicos do período, Torres surgiu como um autor fundamental, um mentor político-intelectual, “na medida em que relacionava propostas políticas de reforma do Estado e da sociedade com a defesa da necessidade de se conservar os recursos naturais”. Segundo esse autor (ibidem, p.29), para a geração de protetores da natureza atuante nas décadas de 1930-1940, as idéias de Alberto Torres se tornaram um programa de ação, “sobretudo porque o seu pensamento permitia equacionar as preocupações com o mundo natural com o projeto de nação em voga na época”.
É o caso de Alberto Sampaio, botânico do Museu Nacional e um dos pioneiros nos trabalhos de proteção à natureza, que cita constantemente Torres em suas obras. Para Sampaio (1935, p.8 e p.29), Torres não apenas figura entre os nomes ilustres do quadro de honra da proteção à natureza no Brasil, como possui “o mérito especial do corpo da doutrina”, expresso em seus livros, obras “clássicas e fundamentais para a disciplina de que me occupo”. Segundo Roquette-Pinto, o livro de Sampaio, Byogeografia Dynamica, foi “escrito sob a inspiração de Alberto Torres” e, vindo de um grande discípulo, “serve aos ideais do Mestre” (ibidem, p.6).
Essa valorização pode se percebida também na obra de Wanderbilt Duarte de Barros, cujo livro Parques Nacionais no Brasil, escrito em 1946 e considerado “a primeira obra claramente voltada para a discussão da conservação da natureza no Brasil” foi escrito em memória de Torres (Urban, 1998, p.84 e p.172). Para Urban (1998, p.84), a admiração por Alberto Torres fez parte da bagagem de Barros e “portanto, da origem do movimento conservacionista brasileiro”. Em 1969, Barros declararia que o livro As fontes da vida no
Brasil foi “o primeiro grande esforço de um pensador político brasileiro a respeito da
necessidade de ordenar e disciplinar o aproveitamento das fontes de vida do país”100. O próprio livro de Teresa Urban, Relembrando a História da Conservação da Natureza no
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Carta de Wanderbilt Duarte de Barros a Edgar Teixeira Leite, em 12/12/1969. Coleção Teixeira Leite, Museu da República / RJ.
Brasil, ao procurar fazer uma breve retrospectiva da história da conservação da natureza no
Brasil, inclui a obra de Torres, que é antecedido por André Rebouças e por José Bonifácio. Em 1974, Edgar Teixeira Leite, ex-político e dirigente de diversas associações e instituições públicas e privadas de agricultura, um dos fundadores da Sociedade dos Amigos
de Alberto Torres, publicou um artigo intitulado “Alberto Torres – Ecologista”. Neste, após
uma apresentação dos então modernos conceitos relacionados à nova ciência ecológica, afirma que “era como ecologista que Alberto Torres raciocinava”, contemplando, “com antecedência de meio século, as conclusões dos mais modernos Congressos de Conservação (...) do Meio Ambiente” (Leite, 1974, p.11-16). Dessa forma, para Leite (1974, p.16), Torres confirmaria o dito de que “os grandes homens são contemporâneos do futuro”.
E sinal de uma recente revalorização de Torres pela via da conservação da natureza foi a publicação, afinal, da segunda edição de As fontes da vida no Brasil, em 1990101. O trabalho foi publicado pela Fundação Getúlio Vargas, para a Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza (FBCN), “em apoio à campanha contra a poluição”. A FBCN – que era então presidida por Wanderbilt Duarte de Barros – explica, no início do livro, que este inaugurava a série Raízes da Conservação da Natureza no Brasil, que acolheria, “do ponto de vista histórico, o que se tem escrito sobre o estado da natureza no Brasil e do Brasil” (In Torres, 1990, p.V). Marcos Almir Madeira, sociólogo e escritor fluminense assina o prefácio, onde saúda o relançamento do livro que
ostenta uma atualidade que vem a ser excitante – uma excitação de utilidade pública ... Livro estimulante, ideário da esperança, livro verde, do mais puro sabor ecológico. Um punhado de página embebidas no óleo da terra; páginas sérias e sábias. Livro de Alberto Torres (In Torres, 1990, p.XIII).
Entretanto, é interessante observar que a atualidade sobre a qual fala Marcos Almir Madeira não se refere propriamente ao conteúdo “ecológico” do texto. Afinal, nas sete
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Em 12/12/1969, Wanderbilt Duarte de Barros, já presidente da FBCN, declarava em carta a Edgar Teixeira Leite, esperar contar com a ajuda de pessoas para reimprimir As fontes da vida no Brasil. Seria “a melhor oportunidade para o lançamento da campanha de conservação dos recursos naturais, essa, a de republicarmos o opúsculo de Alberto Torres”. Coleção Teixeira Leite, Museu da República / RJ.