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A metafunção interpessoal demonstra que a utilização da língua acontece para a construção de significados interpessoais, haja vista os significados sobre nossas relações com outras pessoas, bem como nossas relações e atitudes em relação a elas (HALLIDAY, 1985, 1994). Assim como as metafunções textual e ideacional, a interpessoal está localizada no estrato léxico-gramatical da linguagem.

Halliday (1994) considera a escrita e a fala como uma troca comunicativa entre dois ou mais participantes, uma interação ou permuta na qual “dar” implica receber, e “pedir” implica dar algo em resposta, ou seja, nessa interação o que se está dando ou pedindo são informações e/ou bens e serviços. Por essa razão, quando a língua é usada para troca de informação, a oração assume a forma de proposição, ou seja, algo sobre o qual se pode discutir, afirmar, negar, duvidar e assim por diante. Por outro lado, quando a função semântica da oração é a troca de bens e serviços, a oração assume a forma de proposta (IKEDA; VIAN JR, 2006).

Na interação entre professor e aluno em sala de aula, por exemplo, em determinadas situações o professor (falante) está dando ou está pedindo algo (informação) ao aluno (ouvinte). Assim, esse tipo de situação é caracterizado pela interação como troca de informação. Entretanto, quando o professor pede ao aluno que faça algo como “apague o quadro”, ou solicita algum objeto como “traga o livro”, o que está sendo trocado aí não é uma informação, e sim, uma ação e um objeto, caracterizando uma troca de bens e serviços.

Para Ikeda e Vian Jr. (2006), as línguas estabelecem recursos gramaticais para expressar afirmações e perguntas na estrutura da oração. Portanto, quando interpretamos essas estruturas, podemos compreender a oração na sua função de permuta. Além disso, devemos considerar a natureza do produto que está sendo permutado. Já que a interação pode estar relacionada tanto a uma troca de informação, quanto a uma troca de bens e serviços.

Desse modo, para desempenhar a função de troca de significados, a metafunção interpessoal realiza-se léxico-gramaticalmente pelo sistema de Modo,

cuja função é organizar a oração em dois constituintes: o Modo Oracional e o Resíduo.

O Modo Oracional consiste do Sujeito (grupo nominal) e do operador Finito (grupo verbal). O Sujeito é responsável pela proposição; em outras palavras, a função semântica da proposição utilizada na troca de informação permite ao sujeito fazer uma série de argumentações sobre o que está sendo trocado. Já o elemento Finito é responsável pelas relações temporais e modais da proposição (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004, p.110).

O Resíduo consiste de elementos funcionais de três tipos: Predicador (elemento lexical ou parte do constituinte do grupo verbal), Complemento (em geral realizado por um grupo nominal) e Adjunto (em geral realizado por um grupo adverbial ou uma frase preposicionada, porém, às vezes, não é essencial). Vejamos o exemplo abaixo:

QUADRO 13 – Exemplo de Modo Oracional e Resíduo.

Modo Oracional Resíduo

Sujeito Finito Predicador Complemento

Eu sigo a sequência desse livro

Fonte: ANEXO IV - Transcrição da sessão de visionamento, turno 22.

Encontramos ainda, no Modo Oracional, o sistema de Modalidade, que carrega a avaliação do escritor sobre a verdade de sua mensagem e sua responsabilidade sobre ela, isto é, o seu envolvimento com o que diz. O elemento Finito pode ser positivo ou negativo, e a escolha entre esses dois polos é designada Polaridade. Entretanto, as possibilidades não estão restritas à escolha entre sim e não; há graus intermediários, que ocorrem entre o sim e o não, como „às vezes‟, ou „talvez‟.

Para Halliday (1994) a avaliação é entendida como modalidade, e os significados atitudinais como categorias dos significados interpessoais. A avaliação é, por essa razão, uma parte essencial do significado de qualquer texto e, desse modo, qualquer análise envolvendo os significados interpessoais de um texto deve considerar os itens avaliativos em suas análises (THOMPSON, 1996, p. 65).

Levando em consideração os aspectos avaliativos da linguagem, um grupo de sistemicistas começou a desenvolver estudos mais voltados para o léxico das avaliações. Desses estudos surge o sistema de Avaliatividade, que abrange os

significados interpessoais, sentimentos e atitudes dos participantes (ALMEIDA, 2008). Trabalhos desenvolvidos aqui no Brazil, como o de Almeida (2008, 2010), Carvalho (2010), Ikeda (2010) e Vian Jr. (2010) apontam para a importância desse sistema na compreensão das avaliações presentes no discurso.

O sistema de Avaliatividade está localizado no estrato semântico-discursivo e é realizado, em termos lexicais e gramaticais, no estrato léxico-gramatical que, por sua vez, são realizados pelo estrato grafo-fonológico. Conforme Martin e Rose (2003), os sistemas discursivos no estrato semântico-discursivo são seis e, além da Avaliatividade, encontramos nesse estrato os sistemas de:

 Ideação: é responsável pelo conteúdo do discurso. Nesse sistema, as atividades desenvolvidas e seus participantes são descritos e classificados.  Conjunção: trata da inter-relação das atividades de um texto, bem como de

sua reformulação, sequenciação, explicação, e assim por diante.

 Identificação: preocupa-se com a identificação dos participantes do discurso, ou seja, a forma como as pessoas, lugares e coisas são apresentados e retomados ao longo do texto.

 Periodicidade: considera o ritmo do discurso, isto é, os elementos que sinalizam para o leitor/ouvinte o que está por vir no texto.

 Negociação: preocupa-se com a interação como troca entre os usuários da língua, bem como os papéis adotados por eles na interação.

Tendo em vista que este estudo investiga marcas linguísticas que evidenciam os momentos de reflexão da professora, além daquilo que seu discurso revela acerca de suas avaliações sobre os alunos, sua prática pedagógica e a aula, focaremos no sistema de Avaliatividade, mais especificamente no subsistema de Atitude. Ademais, assim como a Atitude, as metafunções ideacional e interpessoal darão mais suporte às nossas interpretações. A primeira tratará de desvendar as experiências de mundo da nossa colaboradora, ou seja, as concepções de ensino- aprendizagem, construídas ao longo de sua vida. A segunda nos auxiliará na demonstração da relação e da atitude da professora no trato com seus alunos.