As entrevistas dos talk shows, apesar de serem baseadas num conjunto de normas inerentes à entrevista televisiva, nomeadamente a predefinição dos papéis dos participantes, do conteúdo, do estilo e da duração da interacção, frequentemente transgridem essas regras, o que resulta numa ambivalência das características do discurso televisivo destinado simultaneamente a informar e a entreter, enquadrando-se no género
comummente designado de infotainment52 (Tolson, 2001: 11). Para além disso, o discurso
característico destas interacções é, por um lado, sério e autêntico, mas, por outro, divertido e agradável. Segundo Tolson (1991: 194), “the function of the interview is constantly shifting between soliciting information on the audience‟s behalf and alternatively providing them with forms of verbal entertainment”. No entanto, tal como o autor (idem: 178) sugere, a tendência para o entretenimento tem assumido uma posição dominante nas entrevistas dos talk shows televisivos.
As entrevistas destes programas podem ser consideradas, de acordo com Hutchby e Wooffitt (1998:172), o género aparentemente mais informal e flexível de entrevista
televisiva.53 Neste género informal de entrevista, o apresentador selecciona um conjunto de
assuntos para serem focados que podem surgir de forma aleatória no decorrer da entrevista. Os convidados, por outro lado, podem ter algum controlo sobre os temas tratados, uma vez que podem mencionar assuntos que não foram apresentados pelo apresentador. Além disso, podem ser incentivados a falar durante algum tempo para, por exemplo, ilustrar uma
52 Infotainment é a designação utilizada para caracterizar os programas em que há uma fusão dos géneros informação e entretenimento, o
que resulta em novos formatos televisivos híbridos (Tolson, 2001: 11).
53 Para além da entrevista informal, os autores Hutchby e Wooffitt (1998: 173) identificam mais dois tipos de entrevistas: a entrevista
formal ou estruturada e a entrevista semi-estruturada ou semi-informal. Na primeira, o entrevistador segue um um guião fixo de perguntas e não coloca questões que não estejam aí incluídas, o que não permite ao entrevistado desenvolver nenhuma linha do questionário; Na segunda, o entrevistador segue um conjunto de perguntas sobre assuntos específicos que seguem uma determinad a ordem. No entanto, este questionário não é rígido ou inflexível, havendo espaço para explorar os assuntos que surjam no decorrer da entrevista.
III – O TALK SHOW E A ENTREVISTA TELEVISIVA
experiência pessoal ou fundamentar uma opinião com anedotas, explicações ou pequenas histórias. Consequentemente, e devido a esta liberdade concedida pelo apresentador, os convidados podem falar continuada e ininterruptamente durante um período de tempo relativamente longo. Durante estes momentos, o entrevistador tende a estar em silêncio ou a contribuir apenas com um ocasional yeah, right ou hum hum.
No entanto, apesar de ser uma das formas de entrevista televisiva mais espontânea e flexível, acaba por ser, na realidade, depois de uma investigação cuidada e atenta, uma interacção verbal muito complexa, organizada e planeada, dependente de vários factores institucionais que a influenciam.
No contexto da informalidade orquestrada do talk show, com o seu ritmo calmo e a ilusão da casualidade de uma sala de estar, para a qual o cenário contribui consideravelmente, a entrevista começa e o convidado e apresentador iniciam uma conversa que é semelhante, em termos de ritmo e estrutura, à interacção verbal que ocorre nas entrevistas televisivas padrão. Durante a entrevista, com as perguntas e o incentivo adequado por parte do apresentador, encoraja-se o convidado a revelar determinadas informações pessoais e certos aspectos da sua personalidade e da sua vida privada, correspondendo assim às expectativas do público.
Igualmente, uma vez que estes convidados são personalidades famosas, o talk show proporciona um ambiente informal, no qual os transtornos da vida pública podem ser postos de lado. Neste contexto, os convidados podem-se apresentar como realmente são, isto é, pessoas comuns como os espectadores, tal como Tolson (1991: 184) observa.
A conversa é o elemento central à volta do qual a entrevista televisiva do talk show gira e apesar de ser, até certo ponto, espontânea, ela é, na realidade, bastante estruturada e planeada. Decorre em interacções controladas, previamente preparadas e organizadas, e o que o público vê e ouve já foi adaptado por escritores, produtores, realizadores e equipas técnicas e ajustado às normas discursivas da televisão, que é um espaço público, no qual e a partir do qual a autoridade institucional é assegurada e demonstrada. O poder desta autoridade institucional reside na forma como define os termos da interacção social que ocorre no seu próprio domínio - o estúdio de televisão; na forma como atribui os diferentes papéis e estatutos sociais que, consequentemente, influenciam fortemente a gestão do sistema de falas; e na forma como controla o conteúdo, estilo e duração do programa, isto é, predefine o assunto da conversa, como irá começar, como irá terminar e os papéis desempenhados pelos participantes.
III – O TALK SHOW E A ENTREVISTA TELEVISIVA
Tolson (2001: 27) aponta três características subjacentes ao discurso televisivo: primeiro, o facto de apresentar algumas semelhanças com os padrões da interacção verbal inerentes à conversa espontânea do dia-a-dia; segundo, o carácter institucional do discurso, uma vez que é produzido num contexto institucional; e terceiro, o facto de ser dirigido a um público que não está presente. Consequentemente, a conversa que decorre na entrevista deve demonstrar um alinhamento geral com o público, ou seja, deve ter características específicas com as quais o público se identifique. Assim, podemos concluir que, se na entrevista televisiva a conversa é orientada e dirigida a um público, presente ou não no estúdio, ela é, de uma forma geral, representada.
Há três características inerentes à conversa que ocorre na entrevista televisiva, nomeadamente o teor pessoal dos tópicos da conversa, ou seja, a natureza privada destes temas, as demonstrações de humor sagaz e a possibilidade de transgressão (Tolson, 1991: 180). A última pode ser observada nos programas em análise e está relacionada com o facto de haver sempre algum espaço na entrevista televisiva para os convidados negociarem os seus papéis, embora este espaço varie com o formato dos programas. Esporadicamente, os convidados podem ser vistos a desafiar as pressuposições nas questões do apresentador, mostrando a sua própria sagacidade, inteligência e destreza verbal e transgredindo as regras dos papéis pré-estabelecidos, nomeadamente levantando questões que não tinham sido apresentadas pelo apresentador ou colocando-lhe questões directamente.
Apesar destas formas de transgressão nos talk shows nocturnos, a interacção verbal entre apresentador e convidado é uma actividade profundamente cooperativa, regida pelas quatro máximas conversacionais de Grice (apud Scannel, 1991: 5). As contribuições para a conversa tendem a ser apropriadas em termos de qualidade, quantidade, relevância e maneira, isto é, os participantes da conversa tendem a falar sinceramente,
informativamente, relevantemente e claramente.54
No entanto, como Tolson (2001: 29-30) observa, em alguns casos, o princípio cooperativo pode tornar-se muito complicado. Há programas onde a conversa, que parece ser contrária às máximas conversacionais, é produzida frequentemente. Por exemplo, de acordo com o autor, na Grã-Bretanha, há alguns formatos de talk shows onde os
54 Thomas (1998: 171) reproduz a seguinte interacção conversacional onde se podem observar as quatro máximas:
Father: Where are the children?
Mother: They‟re either in the garden or in the playground, I‟m not sure which.
A mãe respondeu de forma clara (maneira), sincera (qualidade), transmitiu a quantidade adequada de informação (quantidade) e respondeu de forma a cumprir o objectivo da pergunta do marido (relevância).
III – O TALK SHOW E A ENTREVISTA TELEVISIVA
apresentadores insultam os convidados ou os convidados, conhecendo as regras do programa, recusam-se a aceitá-las ou a submeter-se a elas. Estes exemplos de não cooperação, nomeadamente quando o convidado abandona o programa ou se recusa a responder a questões, são raros, mas sempre memoráveis.
No que diz respeito à estrutura global da entrevista, a ordem padrão dos diferentes segmentos é bastante visível, o que contrasta com as conversas do dia-a-dia. Assim, no momento inicial, o apresentador anuncia o convidado ao público, começando depois a entrevista e seguindo uma sequência padrão de pergunta-resposta focada no tópico da conversa. A entrevista termina com os agradecimentos do convidado e do apresentador. Quando a entrevista é constituída por dois segmentos, ou seja, quando há um intervalo, este é precedido pelo anúncio do apresentador que retoma a interacção, após o início do segundo segmento.